

O SEDUTOR E O BEB

MIRANDA LEE




Copyright  1999 by Miranda Lee 
Originalmente publicado em 1999 
pela Silhouette Books, diviso da 
Harlequin Enterprises Limited. 

Ttulo original: Facing up to fatherhood 

Digitalizao e reviso: Zaira






 




CAPTULO 1

Christhianne Highsmith examinou a imponente torre de concreto e vidro, e ento baixou o olhar para o beb que segurava no colo. 
- Aqui estamos, querida - disse para a linda e rosada criana. -  onde seu pai trabalha. Entretanto, de acordo com a secretria, ele estar em reunio por toda a tarde, e no ter tempo para mais nada. Isso  muito ruim, no acha? Sobretudo porque vai nos ver hoje, quer queira, quer no! 
Arqueando as sobrancelhas, Christhianne rumou, determinada, para a porta giratria, esperando ser mais bem sucedida do que fora antes, nas portas do trem. Christhianne havia descoberto que caminhar com uma criana no era uma das coisas mais fceis do mundo. De qualquer forma, s estava fazendo aquilo havia uma semana. O que, sem dvida, explicava sua falta de prtica. 
Daquela vez, no entanto, tudo foi mais simples, e, por fim, ela adentrou o cavernoso hall semicircular com seu impecvel piso de granito preto. Mantendo uma expresso neutra no rosto, Christhianne ignorou o movimentado balco de recepo e dirigiu-se a passos largos ao saguo dos elevadores. 
A Hunter & Associados, como se informara, ocupava o dcimo nono e o vigsimo andares do edifcio. Christhianne tambm notara que na tabuleta localizada acima do balco, na recepo, no havia nenhuma descrio do tipo de negcio da companhia. A nica informao era de que a administrao da empresa localizava-se no vigsimo andar. 
Eram poucos dados, mas Christhianne concluiu que isso se dava por refletir a personalidade de seu proprietrio. Guilherme Hunter, com toda sua arrogncia, devia pensar que todos, decerto, sabiam que sua companhia era uma das mais importantes de Sydney em exportao, importao e investimentos. Era evidente que a mesma arrogncia o fizera crer que o caso que tivera com a secretria no ano anterior jamais viria  tona para incomod-lo. 
Mas estava errado! 
Sarah podia ser meio obtusa e tola no que dizia respeito a homens, mas com Christhianne as coisas eram diferentes! 
A filha de Sarah merecia o melhor. E Christhianne estava preparada para certificar-se de que a garota teria isso. 
Guilherme Hunter teria uma segunda chance para admitir ser pai daquela menina maravilhosa, mas, se no cumprisse sua parte, teria de pagar. E pagaria caro. Nos dias atuais, com os modernos testes de DNA, a simples negativa da paternidade no significava nada. 
 	 Vamos deix-lo tentar, meu anjinho - ela murmurou para Madelleine ao entrar no elevador. - E se o poderoso sr. Hunter negar, ele vai se arrepender do dia em que nasceu! 
	
CAPTULO 2

Guilherme Hunter ergueu os olhos para o teto quando desligou o telefone. 
- Mulheres! - murmurou, frustrado, pouco antes de comear a ajeitar com rapidez os papis para a reunio daquela tarde, quase entornando sobre eles meia caneca de caf frio. 
Apenas um gesto gil e desesperado impediu que sua mesa se transformasse numa catstrofe. 
Depois de recolocar a caneca em segurana sobre seu pires, Guilherme deixou escapar um suspiro exasperado. Com certeza aquele no era um de seus melhores dias. 
Seus colegas podiam achar que a crise econmica era a responsvel por seu mau humor. Mas no era o caso. Guilherme estava acostumado com os desafios na arena financeira, e encontrava grande excitao em fazer dinheiro para si mesmo e para seus clientes. Fora chamado de manaco por trabalho mais de uma vez, e tinha de admitir que aquilo era verdade. 
Guilherme sempre podia lidar com as complicaes nos negcios. Era o sexo oposto que o irritava, levando-o quase  loucura. 
Francamente, no conseguia entender as mulheres e sua obsesso por casamento e filhos. Ser que no podiam enxergar que nos dias atuais o mundo seria bem melhor com  o decrscimo de ambos? Pelo menos no haveria tantos divrcios e crianas infelizes e negligenciadas. 
Decerto, nenhum argumento razovel como esse parecia ser capaz de toc-las, e elas continuavam a desejar compromisso e bebs, como se essas fossem a panacia para todos os males do mundo, em vez de um aumento dos problemas. 
A mesma coisa aplicava-se ao amor romntico. Que grande e completo absurdo! Afinal de contas, quando esse desafortunado estado trouxera a qualquer homem ou mulher alguma felicidade? 
Guilherme crescera numa casa na qual aquele tipo de sentimento no dera nada alm de tormento emocional e misria. 
No desejava nada daquilo para, si. Amor, casamento... e muito menos nens. O ltimo item o incomodava mais do que os anteriores, pois, durante a universidade, quando tinha pouco mais de vinte anos, uma namorada tentara atra-lo para o matrimnio com uma falsa gravidez. 
Na poca, o pensamento de encarar tanto a paternidade como o enlace forados haviam deixado Guilherme horrorizado. Talvez aquele pnico tivesse algo a ver com o fato de seu pai ter sido displicente, alm de um marido infiel. Aquilo lhe causava um pavor inconsciente de tambm tornar-se um fracasso naquele departamento. Para ser sincero, at mesmo parecia-se com o pai. 
De qualquer forma, o alvio de Guilherme ao descobrir que a gravidez era uma mentira tambm fora prdigo. Sua primeira experincia ntima o fizera descobrir quo longe uma mulher poderia ir para realizar aquela velha fantasia, romntica chamada "amor e casamento". 
Depois daquele acontecimento, Guilherme sempre tomara conta ele mesmo das precaues, quando fazia sexo. Nunca acreditava numa declarao do tipo "estou usando plulas" ou ' a poca segura do ms". Tambm fazia, questo de deixar sua posio bem clara com qualquer garota que se envolvesse. Casar-se no estava em seus planos, de forma alguma! 
Sua me considerava equivocadas suas posies sobre aquele assunto, e com uma lgica tipicamente feminina as considerava uma aberrao temporria. 
- Voc vai mudar de idia um dia - ela dizia, vez por outra. - Quando cair de amores por algum... 
Eis a outra iluso romntica alimentada por Vernica Hunter. Cair de amores! Guilherme nunca se apaixonara por ningum em toda sua vida. 
E no tinha a menor inteno de que isso acontecesse.  A prpria palavra "cair" lhe sugeria uma falta de controle quase desastrosa, que, lgico, no poderia levar ningum a um porto seguro. 
Para sorte dele, dois anos antes Vernica transferira seus desejos de tornar-se av para o filho mais novo, Mark, que se casara com uma colega de faculdade. Na poca, Guilherme chegara a pensar que o irmo e a esposa representavam o fim de suas discusses familiares.  
Mas, alguns meses atrs, Mark chegara de uma hora para outra  manso, anunciando que estava deixando a mulher para ir para o Tibet tornar-se um monge budista! Para provar sua deciso, deixou uma fortuna considervel para a esposa, que alis no ficara muito surpresa, e partiu. 
Suas cartas subseqentes revelavam que estava feliz e satisfeito vivendo num mosteiro no topo de uma montanha, qualquer, com apenas um iaque como companheiro! 
No, era necessrio ser nenhum gnio para concluir que as chances de que um neto para a sra. Vernica Hunter viesse daquele filho eram quase nulas! 
O que fizera sua me viva voltar sua ateno de novo para Guilherme, com o nico objetivo de conseguir logo se tornar av. Vernica o estava deixando louco com toda aquela presso, e passara a convid-lo sempre para jantares repletos de mulheres disponveis. Todas eram bonitas, sexies... e queriam, ou fingiam querer, a mesma coisa que Vernica: casamento e bebs. 
A sra. Hunter acabara d telefonar para ter certeza de que Guilherme no se atrasaria para o jantar daquela noite, porque havia convidado Joanna Parsons. 
- A pobrezinha tem estado to solitria desde que Gunnter morreu... - Vernica comentara, do outro lado da linha. 
Solitria? Joanna Parsons?! Santo Deus! A moa era uma manaca sexual! Mesmo antes da morte de Gunter, que ocorrera num acidente de automvel, alguns meses atrs, Joanna tentara de todas as formas seduzir Guilherme. E agora, como uma recm-viva, no havia nenhum impedimento entre os dois... 
Guilherme gostava de sexo,  evidente, mas preferia pratic-lo com jovens que se identificassem com sua maneira de encarar a existncia. Seu caso atual era uma publicitria cujo casamento havia terminado porque ela dedicara-se to-s  carreira. 
Guilherme a via duas ou trs vezes por semana. Ora no apartamento dela depois do expediente, ora num quarto de hotel, na hora do almoo. Aquele arranjo servia a ambos com perfeio. 
	Shani era uma atraente morena de trinta e dois anos, com um corpo fantstico. No era dada a sentimentalismos ou tramas melodramticas. Na verdade, a palavra "amor" nunca fizera parte das conversas entre ambos. 
Mesmo assim, graas aos hbitos adquiridos, Guilherme preferia no confiar em garota alguma. A psique feminina, afinal, era algo impondervel. Na verdade, no ficaria surpreso se descobrisse que sua companheira de cama, no importando quo profissional fosse, acabasse sucumbindo aos apelos de seu relgio biolgico. A experincia lhe dizia que nenhuma mulher era imune quela doena! 
Bastava lembrar-se do caso de Melinda, sua mais leal assistente, com quem trabalhara por anos, e vivia dizendo que queria uma profisso, e no o papel de esposa ou me. E o que acontecera? Menos de um ano depois de completar trinta anos, Melinda se casara e deixara o emprego para ter um nen. Uma verdadeira loucura! 
Guilherme sentiu um arrepio ao pensar que mesmo ele poderia se tornar uma vtima temporria dos prprios hormnios, de acordo com as circunstncias. Recordava-se de um jantar que tivera com Sarah, a substituta de Melinda. Naquela ocasio, sentira-se muitssimo solitrio, sem saber direito por que, e bebera mais do que o normal durante a refeio. Quando levara Sarah para casa num txi, acompanhando-a at a porta do apartamento, ela comeara a chorar, de repente. Sarah revelou ento que acabara de perder o namorado para outra moa. 
A nica inteno de Guilherme fora confort-la, mas de algum modo os acontecimentos se desenrolaram de maneira estranha, e os dois acabaram a noite na cama. Ambos se arrependeram do acontecido na manh seguinte, concordando em no mencionar mais o fato. 
Sarah preferira, ento, retomar a seu servio normal como secretria de contabilidade no andar inferior, e Guilherme acabara conhecendo Shani num evento, no final de semana seguinte.  
Sua nova secretria, Dris, comeou a trabalhar alguns dias depois. 
Graas a Deus... 
Dris jamais lhe causaria nenhum tipo de preocupao. 
Tinha cinqenta e quatro anos, era casada e feliz. Seus filhos crescidos no viviam com ela, por isso Dris no se incomodava de ficar at mais tarde no escritrio, quando era necessrio. Uma senhora de tato e bom senso. Assim era Dris. 
O intercomunicador da mesa tocou, e Guilherme atendeu: - Sim, Dris. 
- Os demais o esperam na sala de reunies, sr. Hunter. 
Aquela era outra coisa que ele gostava nela. Dris o chamava de sr. Hnter, e no de Guilherme. Alm de respeitoso, o tratamento fazia com que sentisse ter mais idade do que seus trinta e trs anos. 
- Sim, sim, estou indo. E segure as chamadas, Dris, por favor. No quero nenhuma interrupo. Temos muito o que fazer, hoje  tarde. 


CAPITULO 3

As portas do elevador se abriram, e Christianne saiu com a criana, agora adormecida, em seus braos, parando para examinar o luxuoso saguo do vigsimo andar. Bem adiante havia uma imponente parede de vidro, na qual estavam presas enormes letras de lato polido que diziam "Hunter & Associados. Administrao". 
Mais atrs, outra parede de granito preto, e, no meio do ambiente, apenas uma pequena e tmida mesa, tambm preta, para a recepcionista. 
Christhianne perguntou-se, com amargor, se a loira opulenta que sentava-se  mesa fora escolhida pelo prprio Guilherme Hunter. Talvez ele tivesse preferncia por loiras... Lembrava-se de Sarah ter dito algo sobre o "chefo" estar presente a sua segunda entrevista para o emprego na Hunter & Associados, depois da qual fora contratada. 
Claro que Sarah no era uma loira qualquer. Seus longos cabelos dourados eram gloriosos, harmonizando-se com a perfeio do rosto. Sua aparncia estonteante, alis, fora um problema por toda sua vida, no lhe trazendo nenhuma felicidade. Os homens no conseguiam mant-la longe de seus olhos... ou de suas mos. 
Pobre e doce Sarah! Sempre to ingnua... 
Depois que comeara a trabalhar como secretria, na cidade, tornara-se ainda mais suscetvel a rapazes bonitos, de cabelos negros e olhos azuis. Sempre dispostos a fazer qualquer tipo de jura de amor e compromisso. Sarah fora uma vtima daquela combinao, sempre julgando estar apaixonada. E uma vez amando, passava a acreditar em tudo o que seu parceiro lhe dizia, sonhando com um grande anel de noivado em seu dedo. 
bvio, as coisas nunca caminhavam naquela direo, e Sarah vivia sendo enganada. Christhianne ficava quase louca, vendo a amiga ser usada e desprezada por qualquer canalha de fala mansa. Homens casados, divorciados ou solteiros; no importava. Bastava que dissessem a Sarah "eu te amo", e ela se colocava nas mos deles. 
Chrjsthianne sempre oferecia conforto e conselhos depois de cada rompimento, mas sua pacincia tinha diminudo com o passar dos anos, e chegara ao fim logo depois de Sarah ser promovida ao cargo de assistente pessoal de Guilhern1e Hunter. 
Naquela ocasio, a amiga confessara estar apaixonada de novo. Ao ser pressionada, admitira que o objeto de sua afeio era seu novo chefe. Uma discusso terrvel havia se seguido, e Christhianne dissera a Sarah que ela dormia com qualquer um que lhe dissesse uma doce mentira. Sarah respondera com sarcasmo, afirmando que Christhianne possua um corao de pedra, e que era incapaz de amar quem quer que fosse, ou mesmo qualquer coisa, alm dela mesma. 
Aquelas haviam sido as ltimas palavras entre as duas amigas. Um ano se passara desde ento, e agora Sarah estava morta... 
O queixo de Christhianne comeou a tremer. Teve de engolir em seco para conter as lgrimas. 
- No vou decepcion-la, Sarah - sussurrou, olhando de relance a bela menina que segurava nos braos. - Sua Madelleine ter tudo o que voc desejou para ela. Todas as vantagens. Ser uma criana amada e querida. Nada de roupas baratas ou escola pblica. E quanto ao servio social e lares adotivos... jamais! Pelo menos enquanto eu viver. 
Decidida, Christhianne seguiu adiante, empurrando a porta de vidro com o ombro e aproximando-se da recepo. - Estou aqui para ver Guilherme Hunter - anunciou com firmeza para a glamourosa jovem de olhos verdes. - E, antes que voc pergunte, sim, eu tenho uma hora marcada - mentiu, sem nenhum pudor. 
Christhianne acreditava que era sempre melhor ficar na ofensiva. Alm disso, jamais teria conseguido entrar na mais famosa escola dramtica da Austrlia se no tivesse confiana em suas habilidades como atriz. Afinal, entrar para o mundo do teatro era quase to difcil quanto invadir a Casa da Moeda. 
A moa acompanhou-a at um longo corredor, que levava a outra rea de recepo, agora um pouco menor e com ar mais sbrio, graas a um belo tapete azul. 
	- Posso ajud-la? 
Christhianne ergueu a cabea e encarou a senhora vestida de maneira recatada, sentada atrs de uma pequena escrivaninha. 
"A secretria de Guilherme Hunter", Christhianne concluiu, surpresa, por constatar que ela no era loira, nem jovem. Cnica, Christhianne perguntou-se se Guilherme Hunter havia aprendido sua lio sobre misturar negcios e prazer. 
- Estou aqui para ver Guilherme. 
A secretria arqueou uma sobrancelha. 
- O sr. Hunter est numa reunio que durar toda a tarde. Ele foi bem claro quando me pediu que no o incomodasse por nada. 
- Duvido que tenha se referido a mim - Christhianne replicou, ajeitando Madelleine no colo. - Ou...  filha dele. 
Os olhos de Dris se arregalaram ao mesmo tempo que se levantou, observando a criana com grande curiosidade. - A... filha dele? - repetiu, espantada. 
- Certo - Christhianne respondeu, seca. - O nome dela  Madelleine, e tem trs meses. Poderia por favor dizer a Guilherme que ela est aqui, e que eu gostaria de falar com ele?  A secretria piscou, e ento pigarreou. 
- Talvez seja melhor que a senhorita espere no escritrio do sr. Hunter. Irei cham-lo. 
O sorriso nos lbios de Christhianne era glido. 
-  uma boa idia. 
A sala de Guilherme Hunter foi outra surpresa. Embora toda a decorao fosse impecvel e as janelas oferecessem uma vista de Sydney capaz de tirar o flego, era um ambiente planejado para trabalho, e no para impressionar. 
Havia vrias divisrias, cada qual com seu prprio computador, impressora, fax e cadeira. Todas as mquinas estavam ligadas, e sobre os tampos espalhavam-se documentos, de vrios tipos. A mesa principal, no centro, tambm no parecia muito arrumada. 
A secretria emitiu um som exasperado ao ver a confuso, meneando a cabea e avanando at escrivaninha para apanhar a caneca de caf frio.  
Nesse meio tempo, Christhianne sentou-se em uma das cadeiras de espaldar alto, e cruzou suas longas pernas, ajeitando Madelleine sobre os joelhos e baixando a cabea para checar se ainda estava dormindo. 
- Mas que menininha mais comportada voc ! - ela murmurou, com suavidade, ajeitando a coberta cor-de-rosa. 
Quando, terminou, tornou a encarar Dris, que a examinava como se fosse algum que tivesse acabado de desembarcar de Marte. 
- Com certeza o sr. Hunter estar aqui em breve afirmou e deixou-a fechando a porta atrs de si. 
Aquela mesma porta, voltou a abrir-se com um brusquido, menos de dois minutos depois, e Christhianne virou-se, deparando pela primeira vez com a figura do pai de Madelleine. 
Guilherme Hunter era ainda mais surpreendente do que sua secretria ou seu escritrio. Era alto, como imaginara, moreno e bonito, embora seus traos msculos fossem quase rudes. E tambm tinha olhos azuis. 
Mas, apesar de tudo aquilo, aquele que a olhava fixo, parado  soleira, no se enquadrava na imagem que Christhianne fizera dele. 
Os amantes de Sarah costumavam ser suaves e elegantes, muito alinhados e bem vestidos. Todos possuam um charme sedutor e sofisticado apelo sexual, que fazia garotas ingnuas como Sarah acharem-nos irresistveis. 
Guilherme Hunter dificilmente se encaixaria naquela  descrio. 
Ele entrou, personificando a prpria imagem do macho padro, com seus. ombros largos e os cabelos bem curtos, num estilo quase militar. As mangas de sua camisa azul haviam sido arregaadas, como se estivesse pronto para uma batalha, o n da gravata estava frouxo, e o boto superior da camisa, aberto. As grossas sobrancelhas estavam to arqueadas que quase se tocavam. 
Guilherme parecia mais um capataz de uma construo do que o riqussimo empresrio de finanas que era. 
Aproximando-se a passos rpidos, Guilherme primeiro fitou de relance para Madelleine, e ento tornou a fixar Christhianne. 
- Ouvi dizer que voc est espalhando por a que esta  minha filha! 
Christhianne no se deixou intimidar por aquela demonstrao de chauvinismo. Perguntava-se o que Sarah teria visto naquele homem. Bem, talvez ele fosse melhor na cama do que fora dela... 
- Isso mesmo - ela confirmou. 
Guilherme dirigiu-lhe um olhar que teria feito a pobre Sarah congelar. Christhianne comeava a entender por que sua amiga no tentara se reaproximar do pai biolgico de Madelleine para conseguir ajuda e uma penso alimentcia. Quando Guilherme Hunter terminava com uma mulher, de certo esperava que fosse definitivo. 
Mas ela no era Sarah. 
- Espere aqui - ele murmurou. 
- No tenho a menor inteno de ir a lugar algum. 
- Christhianne falou, recebendo outro daqueles olhares aterradores. Mas nem mesmo piscou, ignorando a ameaa contida naquelas ris azuis. 
Houve uma pausa de vrios segundos, ento Guilherme girou nos calcanhares e deixou a sala, batendo a porta atrs de si. 
Christhianne esticou as pernas para relaxar um pouco. 
Esperava que Guilherme tivesse o bom senso de recuperar o autocontrole. Ainda mais porque no estava disposta a desistir daquela batalha. 
O tempo escoava, devagar. 
Christhianne sentiu a pulsao acelerar-se, mas j estava psicologicamente preparada para tudo aquilo. No imaginava que Guilherme fosse aceitar aquela situao saltitando de alegria. No aps ele ter negado a paternidade e dado dinheiro a Sarah para um aborto, em seguida mandando-a embora. 
Christhianne no esperava nada dele. E Guilherme Hunter s confirmava suas piores opinies sobre gente igual a ele. Ela, lgico, teria de enfrentar uma verdadeira guerra para conseguir o suporte financeiro de que precisava para criar a filha de Sarah. 
Mas Christhianne at que gostava de uma boa luta... Na verdade, sempre agia melhor quando se via sob presso. 
O som da maaneta girando a retirou daqueles devaneios. 
A viso de dois guardas de segurana entrando na sala a espantaram, fazendo seu pulso acelerar ainda mais. Ento era daquele jeito que ele ia brigar? 
Cerrando os dentes, levantou-se e lanou um olhar de desdm para os seguranas. 
- Devo supor que o sr. Hunter no vai retornar... 
- Certo, madame. - O maior e mais velho dos dois se adiantou. - Ele mandou dizer que da prxima vez chamar a polcia. 
- Verdade? Bem, veremos... No, isso no ser necessrio! - ela alertou quando o guarda que acabara de falar tocou-lhe o ombro. 
A despeito de seus protestos, os dois a escoltaram at que estivesse fora do prdio. 
Christhianne ficou ali, na calada, por muito tempo, olhando para os andares superiores, tentando manter a fleuma. Imaginava Hunter sentado em sua poltrona de couro com um sorriso de triunfo. 
- Eu vou pegar voc, Guilherme Hunter - ela jurou, e respirou fundo. - Vou faz-lo pagar por isso, pode apostar! 
Levou algum tempo at que Christhianne conseguisse recuperar a compostura. Mas seu crebro, afinal, voltou a funcionar com clareza, e ela passou a perguntar-se por que o pai de Madelleine estava agindo daquela forma. Era uma coisa estpida blefar sobre paternidade. 
E no importava o que mais pudesse ser Guilherme Hunter no lhe parecera estpido. 
De sbito lhe ocorreu que ele devia acreditar que Sarah tinha abortado, o que podia significar que no fazia a menor idia de que Madelleine era o beb dela. Talvez Guilherme pensasse que Madelleine era outra criana, e ela, Christhianne, sua me. 
Quando a encarara daquele jeito, na certa tentara lembrar se dormira com Christhianne ou no. Ao concluir que no a conhecia, acreditou estar diante de alguma vigarista, sedenta por arrancar-lhe dinheiro. 
Tinha de ser isso! 
Que coisa idiota... Christhianne devia ter sido bem mais clara, revelando que no era a me biolgica daquela menina. 
- Sua nova me  uma tonta - informou  criana, que acabara de acordar. - Mas no se preocupe, tenho um plano alternativo. J que por enquanto bloqueei o acesso a seu papai, tentarei falar com sua av. Sim, eu sei que voc est com fome e molhada, mas vou aliment-la e trocar sua fralda no txi. Trouxe tudo comigo: mamadeira, fraldas, roupinhas... No est impressionada? 
Vrios passantes lanaram olhares para a morena alta e magra, que parecia alheia" a tudo, menos ao beb com quem conversava. 
...Espere at que sua vov a veja, to bonita e boazinha. Sei que no vai poder resistir. Eu no pude, no ? Por falar nisso... sua me de verdade nem sempre falava as coisas certas. Por exemplo, estava errada quando disse que eu no podia amar nada nem ningum. No, minha querida, Sarah se equivocou a esse respeito... 

CAPTULO 4 

Que petulncia a daquela mulher! 
"Inacreditvel!"  
Guilherme respirava fundo, enquanto olhava para a calada l embaixo, observando-a caminhar em direo  esquina. Com quem aquela moa pensava estar brincando? Ser que acreditava que poderia ir longe com uma mentira daquelas? Alis, ser que a garota achava mesmo que ele no lembraria se tivesse dormido com algum igual a ela? 
Aquela jovem no era do tipo que Guilherme esqueceria logo. Por um motivo: era seu ideal. 
Guilherme sempre fora atrado por morenas altas e magras, sobretudo quando possuam um rosto perfeito e olhos brilhantes. Elas o agradavam ainda mais quando eram desafiadoras. Oh,sim, ele teria recordado se tivesse dormido com... 
Droga, nem mesmo sabia o nome da moa! A mulher fornecera a Dris apenas o nome do beb: Madelleine. 
Como se isso devesse significar algo... 
Guilherme viu-a desaparecer rua abaixo, certo de que aquela seria a ltima vez que a veria. 
Para seu espanto, quase se arrependia de t-la botado para fora de maneira to intempestiva. Podia pelo menos ter feito algumas perguntas, escutado sua histria, descoberto o que queria dele. 
"Dinheiro", Guilherme concluiu, afastando-se da vidraa e caminhando na direo da sada. O que mais poderia ser? Estacou com a mo no batente, arqueando as sobrancelhas. 
Mas por que ele fora escolhido como alvo para uma vigarista? Lgico que no tinha nada a ver com sua reputao, pois no costumava se comportar com promiscuidade. No era algum que podia ser convencido de que dormira com 
uma estranha sob a influncia de lcool ou drogas. Ele jamais bebia tanto assim, e jamais se drogara. 
Talvez a mulher o tivesse confundido com outro. Podia ser que ela tivesse esquecido com quem dormira... O pai da menina podia at mesmo ser algum que trabalhava na Hunter & Associados, ou at outra firma do edifcio. Algum que se parecesse com ele. 
Sim, tinha de ser isso, decidiu com firmeza. Tratava-se de um caso de identidade trocada. Agora, precisava deixar aquilo tudo de lado e voltar ao trabalho. J desperdiara tempo demais por um s dia! 

CAPTULO 5 

O endereo da sra. Hunter era em Clifton Gardens, um velho e exclusivo subrbio na costa norte, prximo  baa de Sydney. 
L, as casas mais humildes custavam cerca de um milho de dlares. A residncia da sra. Hunter, entretanto, no era nem um pouco simples. A luxuosa construo de dois andares cercada por jardins impecveis apresentava um visual delirante e perfeito. 
Christhianne arregalou os olhos ao ver a manso, e sua mente apressou-se em tirar algumas concluses. A famlia de Guilherme Hunter fizera fortuna fazia dcadas, e pessoas daquele meio sempre acaba produzindo gente que achava que estava acima do seres humanos comuns. A arrogncia era to natural para eles quanto respirar. 
Aquilo era um problema, pois, se a sra. Hunter provasse ser uma esnobe, no admitiria uma neta ilegtima, mesmo que fosse a adorvel Madelleine. Talvez a senhora fosse to ctica e rude quanto o filho, e colocasse Christhianne e Madelleine porta afora, como Guilherme fizera. 
Por um instante, a resoluo de Christhianne arrefeceu. Mas, ao olhar a criana que tinha nos braos, acabou recuperando a confiana. Nenhuma mulher no mundo poderia resistir a Madelleine. Pelo menos, ningum que tivesse um corao. 
De sbito, entretanto, uma questo lhe ocorreu: e se a sra. Hunter no estivesse em casa? Christhianne suspirou. - Voc se incomoda de esperar alguns momentos, at eu checar se h algum? - ela perguntou ao motorista do txi ao pag-lo.  
- Tudo bem - o homem assegurou, saindo do veculo para abrir a porta para Christhianne. 
Sorrindo, agradecida, apanhou a bolsa, as coisas do beb e ajeitou Madelleine. Sentia-se nervosa demais para admirar o belssimo canteiro de rosas que dominava todo o jardim na parte dianteira, 
Uma coisa tinha sido confrontar-se com o pai de Madelleine, porque, desde o comeo, sabia que ele dificultaria as coisas. A me dele, por outro lado, podia ter uma reao bastante diferente. Tudo o que restava  Christhianne naaquele momento era a esperana. 
Mas tinha de dar certo! Desejava tanto que Madelleine pudesse ter uma av que lhe dedicasse um amor incondicional! Do tipo que apenas uma av verdadeira conseguia demonstrar. 
No que a prpria Christhianne tivesse experimentado esse sentimento. Sua vida familiar fora apenas um sonho acalentado por ela e Sarah durante os duros anos de juventude.  
Christhianne tambm queria que a sra. Hunter falasse com o filho sobre reconhecer a menina e concordar em ajud-las, fornecendo-lhes uma boa penso. Isso sem que ela tivesse de recorrer  lei.  
Depois de caminhar at a entrada e subir os quatro degraus de pedra que conduziam  varanda de madeira, Christhianne tocou a campainha e respirou fundo. 
Por irritantes vinte segundos, pareceu-lhe que no havia ningum. Mas ento a porta se abriu, e l estava uma senhora com cerca de sessenta anos. Vestia-se com casualidade, usando cala de linho e uma blusa com motivos florais. Era alta e magra, bonita, de traos delicados, e cabelos grisalhos. O melhor de tudo, entretanto, era que havia uma reconfortante suavidade em seus inteligentes olhos azuis. 
- Sim? - A senhora esboou um sorriso inquisidor. 
- Sra. Hunter? 
- Sou eu, querida. Como posso ajud-la? 
A palavra "querida" operou um milagre, assim como a doce oferta de ajuda, 
Christhianne estudara a psicologia humana durante toda sua carreira de atriz, e tornara-se uma boa juza de carter, ainda mais quando se tratava de mulheres. 
A sra. Hunter no era esnobe, para comear. E o mais importante de tudo: era uma pessoa gentil. 
Sorrindo, aliviada, Christhianne virou-se e acenou para o motorista. 
- Tudo bem, voc pode ir agora. 
- Certo, madame. - Ele acenou e se foi. 
Christhianne voltou a virar-se, ao mesmo tempo que a sra. Hunter aproximava-se alguns passos. Estava perto o bastante para ver o rostinho de Madelleine. 
- Que lindo beb! - exclamou, inclinando-se para ver mais de perto. - Uma garota, presumo. - acrescentou, encarando Christhianne. 
-Sim. 
- Posso segur-la? .Ela est acordada... 
- Por favor. 
Uma sensao agradvel percorreu todo o corpo de Christhianne ao observar a senhora acalentar a neta com tanto carinho. Depois de sete dias cuidando de Madelleine, aprendera que a criana adorava ser ninada daquela forma. Ela jamais chorava quando algum estava fazendo aquilo, limitando-se a olhar tudo com uma expresso extasiada em seu adorvel semblante infantil. 
- Qual o nome dela? - Vernica quis saber. 
- Madelleine. 
- E o seu, meu bem? 
- Christhianne Highsmith. 
- Ento, o que est vendendo, Christhianne? - a sra. Hunter perguntou, sem deixar de sorrir para Madelleine. - Se  uma representante de cosmticos, sinto muito, pois no uso maquiagem, s um pouco de batom, s vezes. E se vende aqueles potes plsticos, temo inform-la de que possuo tudo o que abre e fecha nesse departamento. Meu filho no tem muita imaginao quando se trata de presentes, e j me deu todos os utenslios de que uma casa necessita. No. quesito praticidade, basta pensar em, Guilherme. 
- Na verdade, sra. Hunter, no estou vendendo nada. Vim at aqui para falar-lhe justo sobre seu filho Guilherme. 
Aquilo chamou a ateno de Vernica, que piscou, confusa, antes de fitar Christhianne com firmeza. 
- Guilherme? Verdade? E veio falar sobre o qu? 
- Sobre Madelleine. - Christhianne acenou na direo do beb e engoliu em seco, preparando-se para uma reao negativa ao que seguiu: - Ela...  filha dele. 
Christhianne ficou surpresa com a velocidade e a intensidade das vrias emoes que cruzaram as belas feies da sra. Hunter. A surpresa inicial logo deu lugar a um momento desinibido de alegria, que foi seguido por uma expresso de profunda preocupao. 
Vernica caminhou devagar para aproximar-se mais de Christhianne, ainda perturbada. 
- Guilherme sabe disso, Christhianne? 
- Tentei contar-lhe hoje, mas cometi um erro estpido, e por isso seu filho mandou a segurana me colocar para fora do prdio. 
A preocupao no rosto da senhora deu lugar ao ultraje. - Ele o qu?! 
- Foi minha culpa, sra. Hunter - Christhianne explicou, apressada. - Compreendo isso agora.  Quando disse, que Madelleine era filha dele, esqueci de emendar que eu no era a me. Acho que seu filho me olhou e, percebendo que no me conhecia, deduziu que eu devia ser uma vigarista querendo aplicar-lhe um golpe. 
O ultraje deu lugar ao espanto. 
- Mas se voc no  a me... ento, quem ? Sua irm? 
- No, minha melhor amiga. - Christhianne pigarreou, sentindo sua garganta arranhar. Aquilo sempre acontecia quando pensava na morte de Sarah. - Ela trabalhou na Hunter & Associados no ano passado, era secretria de Guilherme. Pelo menos exerceu essa funo de julho a novembro. Madelleine nasceu em dezenove de agosto deste ano. Mas Sarah foi atropelada por um nibus no ms passado. Viveu alguns dias, mas no conseguiu suportar os ferimentos. Antes de falecer, me nomeou tutora legal de Madelleine. A certido de nascimento, da menina na verdade diz "pai desconhecido", mas eu sei que  seu filho. 
- Tem certeza?  
- Absoluta, sra. Hunter. 
Vernica suspirou. 
- Sua amiga lhe contou que Guilherme era o pai? Christhianne hesitou. No queria mentir. Mas a verdade era to complicada, e to difcil de entender para qualquer um que no conhecesse Sarah bem... Identificar Guilherme como pai de Madelleine fora um processo baseado em provas circunstanciais. Talvez a sra. Hunter achasse que Christhianne tirara concluses equivocadas. Era melhor no comentar o assunto naquele momento. 
- Sarah e eu ramos confidentes. 
Aquilo era verdade. Fora sempre assim, pelo menos at que ela e a amiga rompessem relaes. 
- ramos mais como irms do que amigas. Seu filho  mesmo o pai de Madelleine, sra. Hunter. Um teste de DNA poder tirar a dvida, se ele continuar a negar. 
- O que... o que quer dizer com continuar!? 
- Sarah foi v-lo quando, descobriu que estava grvida. Guilherme recusou-se a acreditar que o filho era dele. Mas mesmo assim lhe deu dinheiro para uma "outra soluo". 
- Mas ela no... 
- No. Sarah no concordou em fazer um aborto. 
- Graas a Deus! - Vernica sorriu para Madelleine, e, ao tornar a olhar para Christhianne, ela viu lgrimas em seus olhos. - Sempre quis ter uma neta, voc no faz idia do quanto. E, para ser honesta, cheguei a pensar que nunca a teria. Guilherme  to teimoso quanto a no querer saber de casamento ou filhos! E ento o irmo dele, Mark... bem... 
Vernica exalou outro suspiro.  
- Disse-me que  a tutora legal da menina. Por que isso, Christhianne? Sei que eram quase irms, voc e Sarah, mas e quanto aos pais de sua amiga? Ou tios e tias? 
- A me de Sarah morreu num incndio, quando ela estava com nove anos. Minha amiga nunca conheceu o pai ou os avs. Na verdade, a me dela era um tipo de ovelha negra se  que me entende. Tinha fugido do rancho onde morava, mudando-se para a cidade quando ainda era adolescente. No era casada quando teve Sarah. Acho que o pai as abandonou antes que o nen nascesse. Portanto, no h outros parentes interessados em Madelleine. Eu sou tudo que ela tem no momento. 
-	 Entendo. E quanto a voc, querida?  casada? - No, no sou. 
Vernica tornou-se pensativa. 
- Certo... Desse modo, pretende criar a pequena Madelleine sozinha? 
- Farei isso se for preciso, sra. Hunter. Mas preferia ter alguma ajuda, porque tambm no tenho famlia. Mame faleceu no mesmo incndio que a me de Sarah. Tambm era solteira... Como eu disse antes, um tipo de ovelha negra. 
Isso para no mencionar que era uma mulher da noite. 
Ambas mulheres tinham sido. De qualquer forma, Christhianne achava melhor no tocar naquele assunto, no momento. 
- Como o servio social no conseguiu encontrar parentes interessados em ns - Christhianne continuou num tom casual - Sarah e eu passamos o resto da infncia numa instituio do Estado. Isso quando no estvamos em algum perodo de testes em um lar adotivo. 
- Santo Deus, pobrezinhas! 
- Ns sobrevivemos, sra. Hunter. Mas acho que agora pode entender por que nos tomamos to ntimas. Sarah me confiou o cuidado e o bem-estar de sua filha, e pretendo me certificar de que Madelleine ter o melhor. No tenho inteno de permitir que o beb termine como ns, sem dinheiro e nenhum adulto para am-la. 
- No ter de se preocupar com isso, meu anjo. Estarei aqui para ampar-la. E a voc tambm. E Guilherme far sua parte,  claro, depois que eu conversar com ele. Pode apostar nisso! Agora, acho melhor que entre e me conte todos os detalhes. Melhor que isso, deve ficar at que meu filho volte para c,  noite, para que faamos uma pequena reunio para discutir o assunto. 
- Seu filho vive aqui? 
- Bem, sim... Guilherme mora comigo. 
- Oh, cus! 
- Ele no  um garoto mimado, se  isso o que est pensando. Sua deciso de viver comigo foi baseada em seu infalvel lado prtico. 
- No se trata disso, senhora. Apenas tenho a impresso de que ele no ficar nem um pouco satisfeito ao me encontrar, quando chegar. Talvez seja melhor telefonar para o escritrio e avis-lo. 
- De jeito nenhum! Nunca! Guilherme no merece nenhum aviso - Vernica Hunter parecia determinada. Alm disso, as sextas-feiras nunca so um bom dia para ligar para Guilherme no escritrio. Eu mesma j tentei hoje, e recebi um tratamento nada cordial... O que me faz lembrar de outra coisa.  melhor entrarem contato com Joanna e cancelar O convite que Lhe fiz para jantar. 
- No por minha causa, espero... 
Christhianne queria adivinhar quem poderia sem a tal Joanna. Seria uma amiga da sra. Hunter, ou de Guilherme? 
Os lbios da sra. Hunter curvaram-se num sorriso enigmtico. 
- No  incmodo nenhum. Joanna  apenas uma amiga minha, viva. Poder vir numa outra ocasio qualquer. Tambm enviuvei, por isso a pequena Madelleine no ter um vov. Mas ter a mim, no , amor? Bem, vamos, entre. Voc carrega a bolsa, e eu levo Madelleine. Tomaremos um ch e conversaremos. E podemos passar o resto da tarde comprando algumas coisinhas para essa riqueza. Voc se incomoda? 
- Oh! Bem... No, lgico que no! 
Ao seguir Vernica para dentro da manso, Christhianne no pde deixar de constatar que a sra. Hunter era mesmo uma alma boa e gentil. 
Sim; sem dvida que era. Mas tambm deixara transparecer uma aura de energia e deciso. Como uma senhora to amorosa pudera gerar um filho como Guilherme Hunter? 
Guilherme Hunter.
Uma mulher mais frgil ficaria em pnico ao imaginar a reao dele quando chegasse, mais tarde. Christhianne podia imaginar aqueles duros olhos azuis fitando-a, ameaadores. As sobrancelhas arqueadas e os ombros rgidos. A expresso ultrajada e o corpo todo tenso. Como se estivesse pronto para explodir em segundos! 
Sorriu. Mal podia esperar pelo espetculo. 

CAPTULO 6 

Guilherme considerou a idia de chegar atrasado em casa, de propsito. Pensou at mesmo em ligar para a me, inventando um jantar de negcios na cidade. 
Mas, como nunca fora covarde, entrou em seu carro um pouco antes das seis, e dirigiu para a ponte. Iria suportar o encontro com Joanna, mas no iria esforar-se para parecer agradvel com aquela mulher. 
Com um pouco de sorte, a viva alegre de Gunter e sua me casamenteira entenderiam, de uma vez por todas, que ele era uma causa perdida. Nada o incomodava mais do que caadoras de fortuna jogando-se sobre ele. 
Alm disso, loiras tambm no eram seu tipo. Uma morena alta e magra, com longas pernas, o deixaria interessado no mesmo instante. E se fosse um desafio, a combinao seria irresistve1. 
Joanna Parsons no era nada disso. 
A imagem da bela morena que estivera em seu escritrio voltou-lhe  memria. Aquilo acontecera por toda a tarde, chegando at mesmo a distra-lo do trabalho em vrias ocasies. 
De qualquer modo, aquela jovem era muitssimo sexy, com  sua cala branca e o suter vermelho. Os cabelos eram lindos, longos, negros e um tanto selvagens. Bem como sua dona. 
Pena que fosse uma vigarista... ou maluca. 
Guilherme estava imaginando o que ela poderia ser no momento em que estacionou o automvel do lado de fora da garagem. Ainda no chegara a nenhuma concluso, quando entrou na manso pela porta dos fundos. 
Estava a meio caminho nas escadas, dirigindo-se para o santurio de seu quarto, quando o som de um beb chorando o fez estacar de imediato. 
Arqueando as sobrancelhas, Guilherme virou-se devagar e apurou a audio. 
O som parecia vir da sala de estar. Seria a televiso? No, no era, ele decidiu quando ouviu o gemido outra vez. Era alto demais e... muito real. Uma possibilidade absurda lhe ocorreu. 
" lgico que no! O que  isso, ela no ousaria!" 
Mas quando a criana tornou a chorar, Guilherme soube que ela ousaria, sim. 
Como um tufo, tornou a descer a escadaria e caminhou para o aposento em questo. Descrena e fria faziam sua pulsao acelerar-se. E l estava a moa, clida como uma flor, ajoelhada ao lado de uma poltrona, cantando, com uma suavidade tal como s uma mulher era capaz. 
Guilherme j havia aberto a boca para falar quando foi interrompido pela cantoria. A garota inclinou-se para observar a criana, que ficara em silncio. A cala branca e justa realava todos os contornos de suas coxas esculturais, e por um instante aquela viso quase o fez se esquecer do quo irritado estava. Aquilo, porm, durou apenas um momento. 
- Ei, voc a! 
Virando-se de maneira abrupta, Christhianne encarou-o com um olhar dardejante. Ao mesmo tempo, levou o dedo indicador aos lbios, pedindo a ele que se calasse. 	
- Fique quieto, pelo amor de Deus! - sussurrou. - Faz horas que estou tentando faz-la dormir. Acho que estranhou a casa... Madelleine costuma adormecer no mesmo instante em que termina a mamadeira. 
Antes que Guilherme pudesse dizer outra palavra, Christhianne colocou a mo firme sobre o peito dele, empurrando-o para trs. Depois disso, fechou com cuidado a porta atrs dos dois, como se toda aquela cena fosse muito normal e razovel. 
Guilherme pde apenas menear a, cabea, espantado. 
Aquela no era uma vigarista, concluiu, em total exasperao. Era uma louca! Deliciosa e atraente, sem dvida. Mas uma completa desequilibrada. 
- No sei o que voc disse para minha me, mocinha, mas pegou o homem errad.o. No sou o pai da sua criana. 
- Calma l, sr. Hunter, eu nunca disse que voc era. 
A confuso tomou conta das feies dele. 
- O qu? 
- Voc no pode ser o pai de minha criana, porque eu no tenho nenhuma. Devia ter lhe dito isso em seu escritrio, mas no raciocinei direito. Madelleine  filha de Sarah. 
- Sarah? - ele repetiu, confuso. 
Christhianne olhou-o fixo. 
- Espero que no me diga que no conhece Sarah tambm. Sarah Palmer - adicionou com frieza. - Caso tenha esquecido, ela foi sua secretria por alguns meses, no ano passado, sr. Hunter. E nesse perodo vocs tiveram um caso. 
O choque fez com que Guilherme ficasse sem fala por alguns segundos. Mas ento a ira voltou a domin-lo. Se Sarah pensava que ele iria assumir a paternidade daquele beb por causa de uma nica noite, estava redondamente enganada. 
- Sarah era minha secretria, eu admito. Mas ns no tivemos um caso! 
- Ora, vamos l, sr. Hunter! - Christhianne cruzou os braos. - No nasci ontem. Sei muito bem o que aconteceu entre voc e Sarah. Como pode ficar parado a mentindo desse jeito e dizendo que no dormiu com ela?! 
- No nego que tenha feito isso. Mas foi apenas uma noite. E eu estava precavido, usei preservativos. Repito, no sou o pai dessa garota, nem de nenhuma outra. J lhe falei isso antes, querida: pegou o sujeito errado. 
Um sorriso glido curvou os lbios dela. 
- Voc  Guilherme Hunter, o presidente da Hunter & Associados; no ? 
- Sabe muito bem que sim. 
- Ento, peguei o homem certo. Mas, se insistir num teste de DNA, no farei objees. 
- Um teste de DNA?! No farei teste nenhum! 
- Oh, sim, voc far, Guilherme... 
Ele virou-se e notou que sua me chegara. Ao v-la, acalmou-se um pouco. Talvez fosse uma boa idia realizar aquele teste. Afinal de contas, seria a melhor maneira de provar que no tinha nenhuma responsabilidade naquele assunto, pois tratava-se de uma prova cientfica indiscutvel. 

CAPTULO 7 


Muito bem. - Guilherme recuperou a compostura, surpreendendo ambas as mulheres.  
Sobretudo a bela morena de olhos pretos. 
"Quem  ela?", ele se perguntou. "E qual sua relao com Sarah? Seria sua irm, talvez?" 
Examinando melhor, no entanto, constatou que no era nem um pouco parecida com sua antiga secretria. 
- Sendo assim, me diga, senhorita... Por que Sarah no veio ela mesma me falar sobre o beb? Por que mandou algum em seu lugar? No me diga que  porque tem medo, de mim, pois no vou acreditar. 
- Sarah morreu duas semanas atrs, vtima de um atropelamento - a sra. Hunter explicou, com um olhar de reprovao. - Como no tinha parentes, nomeou Christhianne Highsmith como tutora legal de Madelleine. Elas eram grandes amigas. Foi por isso que Christhianne veio para c, hoje. Para ver se vamos ajudar a cuidar da criana. 
- Tudo isso  muito triste. Ficarei feliz em dar algum dinheiro para Christhianne, se isso ajudar. Mas mame, eu no sou o pai do nen de Sarah. 
Vernica assentiu. 
- Acho que acredita mesmo nisso, filho. Isso explicaria seu comportamento. Mas Christhianne me contou que Sarah afirmou que voc era o pai. Tambm me disse que Sarah o procurou e contou sobre a gravidez logo que soube. E, pelo visto, voc negou que era o pai, e lhe sugeriu um aborto... 
- Isso no  verdade! Se Sarah lhe falou isso, ela mentiu. 
- Guilherme se dirigia a Christhianne, que limitava-se a encar-lo com uma expresso de desdm. - Posso jurar que nunca soube sobre a gravidez de Sarah, nem recebi nenhuma visita dela. 
Os lbios de Christhianne retesaram-se em sinal de desagrado. 
- Sarah no costumava mentir. 
- Pelo amor de Deus! Todo mundo conta mentiras! 
-  mesmo, sr. Hunter? 
O tom sarcstico deixava claro que Christhianne no acreditava em uma nica slaba pronunciada por ele. Guilherme, porm, no estava acostumado a ter sua credibilidade posta em dvida. E no gostou daquela situao, nem um pouco. 
- Voc acredita mesmo em toda essa tolice? - ele perguntou  me, tentando livrar-se da desagradvel sensao de embarao. 
- Christhianne me mostrou uma fotografia de Sarah, meu filho. E devo dizer que ela  uma das mais belas moas que j vi. 
- Est insinuando que eu no resistiria?  isso? 
- Muitos homens no poderiam, sr. Hunter - Christhianne interveio. - Muito menos quando Sarah imaginava-se apaixonada por eles. Ela me confessou que sentia-se assim em relao a voc, um pouco antes de Madelleine ter sido concebida, no ms de outubro do ano passado. E, quando Sarah se apaixonava, no havia nada que ela no fizesse por ele. 
"Ao contrrio de voc", Guilherme decidiu ao fitar o frio semblante feminino. "Nunca seria escrava de homem nenhum..." O que apenas fazia com que Christhianne parecesse ainda mais atraente. 
A descoberta daquele estonteante e incontrolvel desejo no foi nem um pouco agradvel para ele. Seus hormnios ao que tudo indicava, insistiam em no dar ouvidos  razo. 
Tudo bem, ele gostava de mulheres que representavam um desafio, mas aquilo era ridculo. Aquela jovem em especial o desprezava, e era de uma perversidade assombrosa desejar algum que deixava claro a cada segundo que ele seria o ltimo na face da terra com quem desejava ir para a cama. 
- Eu repito - Guilherme disse, tentando se controlar. - Dormi apenas uma vez com Sarah, e usei preservativos. Foi no ltimo dia em que ela trabalhou como minha secreetria. Seu namorado a havia abandonado por outra mulher, e Sarah estava muito triste... 
- Ento voc a confortou, no ? - Christhianne disparou, num tom ainda mais custico. 
Os olhos de Guilherme fixaram-se nos dela, e mais uma vez algo aconteceu em seu interior. Uma sensao profunda e perigosa. Alguma coisa que o tornava incapaz de controlar os prprios pensamentos. 
"Um dia, mocinha, farei com que me olhe de outro jeito", prometeu a si mesmo~ ''Voc vai me dar fogo, e no gelo. E s aguardar..." 
O momento de hesitao desapareceu logo, mas Guilherme ainda se sentia incomodado por haver perdido a pacincia. 
Era necessrio que tomasse o pulso daquela situao. E de seu prprio corpo. Ou ser que sua mente estava comeando a lhe pregar peas? No, no. No era sua mente. Era aquela mulher. 
- Pode-se dizer que sim, Chris. 
_ Meu nome  Christhianne, sr. Hunter. Nada de apelidos ou diminutivos, sim? - Ela ajeitou os cabelos e voltou ao assunto: - Preservativos podem falhar, voc sabe. 
- No os que eu compro. 
As sobrancelhas dela arquearam-se numa expresso zombeteira. 
_ No conheo nenhuma marca cem por cento infalvel. 
Guilherme tambm no, mas no estava disposto a ceder um milmetro sequer em nenhuma discusso que envolvesse a sra. Highsmith. 
- Quando e onde eu posso fazer esse teste? - ele perguntou, determinado a desaparecer dali o mais rpido possvel. - Liguei para um mdico - Vernica se adiantou. Ele informou que, se voc e Madelleine forem ao laboratrio na segunda-feira de manh, retirar as amostras de sangue, e as enviar imediatamente. Mas, j que este no  um caso criminal, ou urgente, demorar cerca de duas semanas para sair o resultado. 
-  lgico que podem ser mais breves do que isso! ~ 
- Voc pode pedir, eu acho, mas duvido que isso faa alguma diferena. Pelo que entendi, o nmero de testes de DNA  cresceu muito, e  dada prioridade a emergncias reais, como  trabalhos de percia, coisas do gnero. Por conta disso, convidei Christhianne e Madelleine para ficarem hospedadas conosco. 
Ela estava trabalhando e vivendo em Melbourne, no ano passado, e no tem nenhum lugar decente para ficar em Sydney, apenas aquele quartinho onde Sarah morava. 
- No acho que essa seja uma boa soluo, mame. - Guilherme ficou satisfeito por conseguir no demonstrar o pnico que aquela idia lhe provocava. 
- Por que no, filho? 
- Por uma razo muito simples: voc pode ficar muito ligada  criana nesse perodo. Como acha que vai se sentir quando descobrir que ela no  sua neta? 
Vernica encarou-o, imperturbvel, como se guardasse algum segredo. 1 
- Eu suportarei, se e quando isso acontecer. Mais alguma objeo? 
- No queria parecer pedante, mas voc no sabe nada , sobre Sarah, exceto o que Christhianne lhe disse. Pelo que sabemos at agora, aquela menina pode ser de qualquer um! 
Na verdade, tal pensamento no lhe ocorrera antes, mas agora que Guilherme comeara com a bravata, era melhor ir em frente. 
- Assim como no conhecemos esta mulher! - Ele apontou Christhianne. - Convidar uma estranha para sua prpria casa sem checar sua histria com fontes confiveis no  apenas ingnuo, mas uma enorme estupidez! 


CAPTULO VIII 

Os olhos de Christhianne estreitaram-se diante da afirmao insultuosa de Guilherme. Certo, ento era guerra! 
Ignorou a expresso intimidante daquele homem, que parecia querer estrangul-la. Fora capaz de suportar a farsa daquele pretenso ultraje, e at ouvira os menores detalhes daquelas mentiras sem rir. 
Mas Guilherme Hunter estava indo longe demais. Primeiro chamara Sarah de mentirosa, e agora tambm a acusava! Pior que isso: procurava coloc-la no papel de uma criminosa. Entretanto, nada mudava o fato de que Guilherme Hunter era o pai de Madelleine, e de nada iria adiantar negar suas responsabilidades paternas pela segunda vez! 
- Esperava que evitssemos o envolvimento de advogados nessa histria - Christhianne murmurou, controlada, com as pupilas soltando chispas. - Achei que poderamos encontrar algum arranjo amigvel com relao  situao de Madelleine, mas agora vejo que estava sendo otimista demais. Sinto muito, sra. Hunter. 
Sorriu para a av de Madelleine. 
- Adoraria ficar aqui, em sua companhia. Posso ver que  muito diferente de seu filho, pois  bvio que  uma boa senhora. Mas isso no vai funcionar. 
- Oh, vai sim! - Vernica assegurou com firmeza, fazendo Christhianne piscar, atnita. - Esta  minha casa, e eu a hospedarei aqui, se quiser. Se no gostar, Guilherme, ento  voc quem ter de sair. Talvez seja mesmo hora de encontrar um lugar para si mesmo. As hipotecas j foram quitadas h anos. E pense bem... Se viver sozinho, no vai ter de se preocupar mais com meus esforos de casamenteira. 
Hipotecas? Casamenteira? 
Christhianne estava adorando ouvir tudo aquilo. Pelo visto, a vida na manso dos Hunter nem sempre era uma experincia tranqila.  
- timo! - Guilherme j estava virava para sair quando o bom senso retornou a Christhianne. 
No era aquilo o que ela queria. No mesmo! 
- No, espere!  interrompeu-o com a urgncia de seu chamado. - Sra. Hunter, por favor, no quero causar nenhum problema entre a senhora e seu filho. 
Era verdade. No havia nenhuma vantagem naquilo, nem para ela, nem para Madelleine. E, por mais que desejasse retirar o escalpo daquele insolente, tal atitude no a levaria a lugar nenhum. 
E quanto a amea-lo com um processo... Christhianne no queria tomar aquele caminho tambm. Casos no tribunal tomavam muito tempo e dinheiro, e ela no dispunha de nenhum dos dois. 
O seguro que Sarah deixara at rendera uma quantia razovel, mas Christhianne colocara tudo em uma conta especial, pensando na futura educao de Madelleine. Suas prprias economias haviam se reduzido a quase nada depois que pagara as despesas do funeral. 
Para piorar as coisas, a profisso de atriz no era das mais rentveis que podiam existir.
A cautela lhe dizia que a conciliao era o caminho a seguir, no a confrontao. J conquistara o apoio da me dele. Era hora de lanar mo de uma cartada mais esperta. 
Respirando fundo para se recompor, teve de recorrer a seu talento dramtico mais uma vez. 
- Seu filho tem razo, sra. Hunter - Christhianne ponderou, soando bastante convincente. - Eu poderia ser qualquer uma. Claro que tenho meus documentos comigo, mas suponho que isso no seja o bastante. Pelo que sei, vigaristas e estelionatrios conseguem falsificar coisas assim com muita facilidade. Contudo, posso lhe fornecer vrios nmeros de telefone para que cheque minha identidade. Amigos,empregadores e at mesmo o advogado que cuidou do testamento de Sarah. Ficarei feliz se voc tambm checar minhas referncias, sr. Hunter. 
Ao dizer aquilo, Christhianne esforou-se para no parecer sarcstica demais. 
- E, quanto a Madelleine,  lgico que posso provar quem ela , pois trouxe sua certido de nascimento comigo. Tambm tenho as chaves do apartamento, de Sarah, onde h uma cpia do testamento e outros documentos pessoais que podem ajudar a provar o que contei  sr. Hunter hoje. Mostrarei tudo o que quiser, sra. Hunter. 
Guilherme no saltou de alegria diante daquela oferta. De fato, parecia bastante relutante, e permanecia num silncio impenetrvel. 
Christhianne suspirou. No estava conseguindo muito, humilhando a si mesma. 
-  justo, Guilherme - a me dele interveio. - Christhianne no pode fazer muito mais do que isso, no ? Veja bem, por que no a leva at o apartamento de Sarah logo aps o jantar? Dessa maneira, poder comear a tirar suas dvidas j, alm de trazer para c tudo o que Christhianne precisar para si e para Madelleine. 
Os msculos do pescoo de Guilherme retesaram-se. Era evidente que ele no queria lev-la  lugar nenhum. Desejava era manter distncia dela e de Madelleine. 
"Isso no  nada bom", Christhianne pensou. Seu olhar devia trair sua raiva. Bem que tentava manter suas emoes sob rdeas curtas. Uma atriz devia ser capaz de fazer isso. Mas, quando estava to nervosa, sempre acabava falhando. 
- No poderei dizer uma palavra a respeito disso tudo, no ? - Guilherme dirigia-se a Vernica,deixando bem clara sua frustrao. - Apenas no me culpe depois se as coisas no funcionarem da maneira que voc quer. 
Guilherme suspirou. 
- Imagino que Joanna no vir nos visitar, certo? 
- No querido. - Vernica Hunter voltara a demonstrar placidez. - Preferi deixar nosso encontro para outra ocasio. 
- Bem, devemos agradecer a Deus at por pequenas bnos - ele brincou. - Quem poderia dizer que eu ficaria grato a esse fiasco por algum motivo? 
- Christhianne no reagiu  palavra "fiasco", mas mordiscou a lngua. Desconfiava que teria de fazer aquilo muitas vezes quando estivesse ao lado. daquele homem. O relacionamento entre os dois comeara errado, e ter de lidar com Guilherme lhe provocava todas as reaes irracionais possveis. 
A verdade  que nunca gostara de homens grandes. Chegava a sentir-se nervosa e intimidada algumas vezes, como se fosse pequena e vulnervel. Sabia que era uma tolice, j que era bastante alta. 
Entretanto, Guilherme Hunter era mais alto que a maioria dos rapazes com quem lidava, e parecia ainda maior naquele espao confinado. Com certeza tinham mais de um metro e noventa, e devia pesar uns noventa quilos. No era gordo., mas seus ombros eram largos, e os braos, muito musculosos. Sem dvida, era bem grande e intimidante... 
- Vou precisar tomar banho e me trocar. - Guilherme, com esforo, desviou a ateno da fina curva dos seios de Christhianne. Quando fitou a me, notou que estava sendo observado com interesse. - A que horas pretende servir o jantar?  
- Um Pouco mais cedo, creio. June j deixou tudo preparado antes de ir embora. Pode ser s sete e meia? 
- timo. - ele murmurou e deu-lhes as costas, tornando a subir as escadas e desaparecendo em seguida. 
Uma porta bateu no andar superior logo depois, e Christhianne deixou escapar um suspiro exasperado antes que pudesse pensar melhor na situao. 
A sra. Hunter aproximou-se e deu um tapinha leve em seu ombro, num gesto de conforto. 
- O diabo no  to feio quanto parece, minha querida. Na verdade, acho que voc se saiu muito bem em toda a situao, enfrentando-o daquela forma. Mencionar a possibilidade de process-lo foi uma excelente tacada. Tenho certeza de que enfrentar um processo de paternidade em uma corte no  uma idia que agrade Guilherme nem um pouco. Significaria uma enorme perda de tempo, e ele  paranico por trabalho, entende? Pessoas assim no se importam com mais nada a no ser trabalhar. Isso tambm explica por que meu filho teve um caso com sua amiga. A nica mulher que v com regularidade  sua secretria. 
- No acho que ele esteja tendo um caso com a atual - Christhianne observou, pensativa, fazendo a sra. Hunter dar risada. 
- Tenho de concordar com isso. De qualquer forma, achei estranho. Guilherme ser to veemente ao negar o caso com Sarah. Por que falar que s dormiu com ela uma vez se no  verdade? 
Christhianne no queria chamar Guilherme de "mentiroso descarado" na frente de sua prpria me. Mas tinha slidas evidncias de que ele dormira com Sarah mais de uma vez. - No fao idia, sra. Hunter. 
- No poderia haver outro homem? 
- Oh, no! No que eu soubesse. Lgico que Sarah vivia apaixonada, mas por um rapaz de cada vez, e ela estava louca por seu filho, outubro do ano passado. Acredite quando lhe digo que no poderia haver mais ningum, naquela poca Quando Sarah amava, era de maneira exclusiva, e at mesmo obsessiva. 
- Tudo bem. No entanto, por que Guilherme tambm afirmou que Sarah no o procurou para falar sobre a gravidez? Meu filho no  um santo, mas costuma ser honesto. 
Aquela mulher no conseguia encarar o fato de que seu filho podia mentir sem fazer a menor cerimnia. 
- Bem, sra. Hunter, eu no, saberia dizer - Christhianne murmurou. - Talvez Guilherme no quisesse parecer ruim a seus olhos. No sei o, que se passa pela cabea de seu filho, mas no tenho dvida de que  o pai de Madelleine, e o teste de DNA provar isso. 
- Oh, sim! Agora concordo com voc. E, para ser franca, tambm no tenho dvidas sobre isso. 
- A senhora no tem? - Christhianne se surpreendeu. 
- Cus, no! - Vernica sorriu. - Madelleine  a perfeita imagem de Guilherme quando era um beb. Notei isso de imediato. Ele era um nenezinho lindo. E foi um bonito garoto tambm. At que a puberdade o transformou em algo semelhante a um urso com dor de dente. 
Era dificil para Christhianne encontrar alguma semelhana. Ela sempre achara Madelleine parecida com Sarah. De qualquer forma, no conhecera Guilherme quando ele era criana. 
- O que acha que Guilherme far quando chegarem os resultados do teste de DNA e ele no puder mais negar que  o pai, senhora? 
Vernica suspirou. 
- Devo admitir que no vai ficar nada satisfeito. Porm, tenho esperana de que vai superar. 
- Fico imaginando se ele... 
Christhianne estava umedecendo os lbios quando percebeu o olhar atento com que Vernica a observava. 
- Voc tem namorado, Christhianne? - perguntou com fingida inocncia, quase fazendo Christhianne rir. 
Se a me de Guilherme Hunter estava tendo a idia que ela imaginava, ento era melhor pensar direito. O inferno congelaria antes que se interessasse por aquele homem. "Ou por qualquer outro, para ser mais exata." 
Mas ainda no era o momento para revelar aquilo pelo qual Sarah sempre a criticara: sua falta de habilidade para amar ou confiar no sexo oposto. 
Graas a seu passado familiar, Christhianne achava que sua atitude negativa em relao aos homens era justificvel. Chegava at mesmo a ficar surpresa pelo desprendimento da amiga em relao a esse assunto. 
Christhianne no podia deixar de ser cnica nesse pormenor. No que fosse virgem. Dormira com alguns namorados, mas nunca por amor. Era como se quisesse saber como atuar em cenas de sexo. No fundo, tambm por ter ficado curiosa de todo o burburinho que se fazia a esse respeito. 
E ainda no fazia a menor idia da razo para tanto estardalhao. 
- No, senhora, nenhum namorado, no momento. 
A resposta agradou  av de Madelleine. 
- E existe alguma razo que a force a voltar para Melbourne? Voc me contou que o papel que fazia naquela novela terminou... 
- Por enquanto, sim. Mas, se o pblico sentir minha falta, os roteiristas vo ter de me incluir no enredo outra vez. 
-No pode conseguir trabalho como atriz aqui em Sydney? - Infelizmente, a maioria das companhias produtoras est concentrada em Melbourne... 
- Sei... 
- Por favor, no se preocupe, sra. Hunter. Madelleine  minha prioridade nmero um, no momento, no minha carreira. Se quiser que eu permanea em Sydney, farei isso. 
Na verdade, Christhianne estava desiludida com a prpria opo profissional. Aquele trabalho no estava lhe trazendo o prazer e a satisfao que um dia imaginara. Estava sendo mais feliz ao colocar tudo de lado por algum tempo para cuidar de Madelleine. 
Vernica Hunter sorriu, e Christhianne pensou em como Madelleine era afortunada por ter uma av como aquela. 
- Sabe de uma coisa? Voc precisa parar de me chamar de sra. Hunter. Meu nome  Vernica. 
- Vernica - Christhianne repetiu, sorrindo. 
- Maravilhoso! Agora  melhor fazer os preparativos para o jantar, antes que aquele rabugento desa. 
Foi necessrio um grande esforo para que Christhianne no gargalhasse. "Rabugento" era uma palavra que descrevia Guilherme Hunter  perfeio. Homens como ele no gostavam que mulheres provocassem turbulncias em seu caminho. 
- Posso ajudar de alguma maneira, Vernica? 
- No, querida, obrigada. Est tudo bem. Por que no vai at o banheiro no fim do - corredor e se refresca um pouco antes do jantar? 
- Certo. Farei isso. 

CAPTULO 9 

Guilherme optou por tomar um banho gelado.  Com os dentes cerrados, experimentava alguma satisfao por haver conseguido recuperar o controle dos prprios hormnios. 
Mas por quanto tempo aquilo duraria, vivendo sob o mesmo teto com aquela mulher? Droga! Nenhuma garota lhe provocava aquela sensao indesejvel desde que tinha catorze anos. Era pura luxria. "Nem mesmo pense nela", advertiu-se, girando o registro e aumentando ainda mais a fora da ducha. 
Mas ele tinha de pensar nela, e em toda aquela situao. Certo, ento no era uma tramia. Talvez Christhianne no fosse uma vigarista. Mas ela estava enganada, se acreditava que ele era o pai daquele beb, porque isso era impossvel. 
Bem... no cem por cento impossvel, Guilherme concedeu com relutncia. Christhianne estava certa, nem sempre os preservativos funcionavam. Mas a probabilidade era de menos de um por cento, em sua concepo. 
Por outro lado, se Sarah acreditasse, mesmo por um momento, que ele podia ser o pai de Madelleine, teria aparecido para lhe contar. 
Mas no fizera isso! No, Madelleine no era sua filha. Sarah sabia disso. 
Mas, mesmo assim, Christhianne acreditava no contrrio. O que podia significar que Sarah mentira para sua melhor amiga. Por que as pessoas mentiam? Por causa da vergonha? Para proteger algum? Talvez o pai do beb fosse um homem casado. Podia at mesmo ser algum que trabalhava na Hunter & Associados... 
Guilherme arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabea para trs, enxaguando os cabelos. Precisava descobrir a verdadeira identidade do pai do beb. E rpido, antes que sua me ficasse ligada demais  criana, e, sobretudo, antes que ele ficasse louco de desejo por Christhianne. 
Cus! A simples idia de ter aquela beleza sob seu teto durante as prximas duas semanas lhe provocava calafrios. Aqueles fantsticos olhos, os lbios carnudos, os seios firmes e redondos... 
Guilherme gemeu. Pelo visto, tudo de que precisava era lembrar-se dela para sentir-se torturado. E a gua fria no estava mais funcionando to bem. 
Vinte minutos mais tarde, aps vestir cala jeans e uma camisa plo azul, um ainda agitado Guilherme desceu as escadas. Nem tinha se preocupado em fazer a barba, e seus cabelos midos mostravam-se um tanto desalinhados por terem sido penteados apenas com os dedos. 
Pelo menos o jantar no seria to ruim; concluiu, enquanto atravessava o hall. Ele se sentaria e evitaria os olhares das duas mulheres por todo o tempo. 
Mas no lhe agradava imaginar-se levando Christhianne a algum lugar depois. Ficar a to pouca distncia daquela jovem podia ser muito perigoso. Tambm no lhe parecia nada interessante ter de se defender quando sabia que era inocente. Ora, o que fizera para merecer tudo aquilo? Fora um bom sujeito por toda a vida, no? Um bom filho, bom irmo, bom amigo... No usava drogas, no bebia em excesso. No enganava os clientes, trabalhava duro e doava dinheiro para caridade. E o mais importante de tudo: jamais fora um sedutor sem corao. E no havia engravidado nenhuma de suas secretrias! 
Ao ouvir o som de vozes femininas vindo da cozinha,  direita, Guilherme virou para a esquerda, indo para a sala de jantar. L chegando, foi direto para o bar, servindo-se de uma dose dupla de usque. Em algumas ocasies, apenas um drinque conseguia acalm-lo. 
- No beba isso, Guilherme. 
O copo parou a poucos milmetros de seus lbios. Ele olhou sobre o ombro e viu que Vernica se aproximava, carregando uma terrina de sopa. 
- Por que, mame? 
- Vai ter de dirigir depois do jantar, lembra-se? Alm disso, peguei uma garrafa do seu vinho favorito para acompanhar a refeio. No pode misturar bebidas, seno passar dos limites. 
- Vou tentar me lembrar disso - zombou, sorvendo um grande gole. 
O lcool ainda no tivera tempo de agir quando Christhianne entrou. Ajeitara os cabelos, enquanto ele tomava banho, e seus lbios pareciam mais rosados do que nunca. Era uma viso deliciosamente convidativa. Naquele exato momento, Guilherme sentiu vontade de tomar mais uma longa e demorada ducha gelada. Exasperado, desviou o olhar e sorveu o resto da bebida de uma s vez. 
Christhianne observou a maneira como Guilherme bebia sem sentir a menor simpatia. Se havia um homem no mundo que parecia culpado, seu nome era Guilherme Hunter. 
Imaginar-se sozinha com ele mais tarde no lhe fazia bem algum. No que Christhianne acreditasse de verdade que haveria alguma tentativa de aproximao. Era uma sensao profunda e irritante que a atormentava. Algo que ela no queria admitir. 
"Por que ele no podia ser como os namorados costumeiros de Sarah", perguntou a si mesma. 
"Talvez porque ele no tenha sido namorado dela", uma aborrecida voz interior lhe respondeu. 
E se Guilherme estivesse sendo sincero? E se tivesse dormido com Sarah apenas uma vez? Ser que era possvel que o pai de Madelleine fosse outro? 
No, no podia ser, concluiu de imediato. A prpria Sarah lhe dissera que seu chefe, Guilherme Hunter, era aquele por quem estava apaixonada. E com quem dormira. Tambm vira  todos aqueles cartes de flores entre as coisas de Sarah, com pequenas mensagens ntimas, todas assinadas como "G". 
Quais eram as probabilidades de Sarah ter dois amantes trabalhando na Hunter & Associados, e ambos com a inicial "G" em seu nome? No, tinha de ser Guilherme. E s porque ele no se encaixava no tipo fsico usual que Sarah costumava escolher, isso no o inocentava de nada. Era mesmo o pai de Madellleine. Ponto final. 
Uma sucesso de pensamentos semelhantes ocuparam-lhe a mente durante todo o jantar. Estava terminando seu prato quando um choro agudo a fez voltar  realidade. 
Christhianne, de um salto, ergueu-se da cadeira. - O beb! - E ento saiu da mesa apressada. 
Guilherme olhou para o teto, o que provocou um gesto de censura de sua me.
- Eu me acostumaria ao som, se fosse voc, filho. 
- Quantas vezes vou ter de dizer que aquela menina no  minha, me? - ele murmurou, com um suspiro. 
Vernica riu. Depois se levantou, e continuou rindo. Tambm deixou o recinto. 
Guilherme meneou a cabea. "Mulheres... Nunca do o brao a torcer." 

Vernica se recusava a aceitar a advertncia. No queria ouvir a voz da razo, e a de seu prprio filho. Preferia ser envolvida por um monte de mentiras perpetradas por uma completa estranha. E aquela completa estranha voltou logo depois para a mesa, carregando a agora quieta criana no colo, acariciando-a nas costas. 
- Sim, querida. Sei que voc est faminta e molhada. S preciso... Oh! - Christhianne deixou escapar um gemido ao notar que estava sozinha com ele na sala. - Onde est Vernica? - No, fao a menor idia - Guilherme disse, com frieza. 
- Achei que tinha ido com voc ver o beb. 
- Preciso saber onde ela colocou as fraldas descartveis que comprou. Por, que no segura sua filha enquanto vou procur-la?  
Uma expresso horrorizada foi a nica resposta que Christhianne recebeu.  
- Madelleine no morde, fique tranqilo - Christhianne zombou dele ao colocar o beb nos braos de Guilherme. Se ela chorar, apenas caminhe um pouco por a e a embale. Madelleine adora isso. 
- Mas... mas... 
Porm, Christhianne j havia partido. Os lbios dele se estreitaram quando olhou o nen que tinha nos braos. Dois grandes olhos azuis estavam fixos nos dele, e o semblante da menina era, sem sombra de dvida, adorvel. 
- E ento, menininha? Voc tambm  uma vigarista, como sua me adotiva? Se Christhianne acha que essa ttica vai funcionar, est redondamente enganada! 
Espantada pela entonao grave e masculina, Madelleine remexeu-se, agitada, comeando a chorar em seguida.  As sobrancelhas de Guilherme arquearam-se. Como uma coisinha doce e pequena como aquela podia fazer tanto barulho? 
Num instante, se ps de p, caminhando pela de l para c e embalando o beb como um louco. Resolveu at mesmo conversar com Madelleine, para ver se conseguia acalma-la. 
- Vamos, vamos. No chore... No queria faz-la chorar, e no estou zangado com voc. Esta  uma situao absurda. Acho que no est acostumada a ouvir homens falando, no ? Conversarei com mais suavidade com voc no futuro, eu prometo... 
Entretanto, nada parecia funcionar, e os gritos ficavam cada vez mais altos, como se aquilo fosse possvel. Para piorar a situao, Madelleine estava muito agitada. 
- Vejo que voc no tem muito jeito com crianas Vernica comentou, divertida quando tornou a entrar, tomando a neta dos braos dele. - Deixe-me mostrar como . Bebezinhos gostam de serem abraados com fora, para sentirem-se seguros e confortveis. 
Toda a choradeira cessou como por encanto, e instantes depois os grandes olhos azuis de Madelleine encaravam Guilherme apenas com curiosidade. 
- Viu?- Vernica deu de ombros. 
- Sim, mame, eu vi: Todas as mulheres usam lgrimas para conseguir o que querem... desde a mais tenra idade. Irei at l em cima fazer um telefonema. Diga a nossa hspede, para estar pronta em cinco minutos. No quero passar toda a noite fazendo isso. J so nove horas, e pretendo sair mais tarde. 
- Vai aonde? 
Guilherme a encarou com desagrado. 
- Mame, eu tenho trinta e trs anos. No me trate como se eu fosse um colegial. Mas, se quer mesmo saber, vou ver minha namorada. 
- Sua namorada?! 
- Isso mesmo. 
- Mas voc nunca mencionou que tinha uma. Pelo menos... no de uns tempos para c. 
- No desconfia por qu? - indagou, com desdm. 
- No seja cnico - Vernica retrucou. 
Guilherme decidira que chegara a hora de dar as cartas, sem deixar margem para dvidas. J passara por maus bocados por deixar sua me atir-lo para moas como Joannna Parsons. Tinha suportado aquilo por algum tempo porque no queria faz-la desistir de todas as suas esperanas de uma s tacada. O fato de Mark ter escolhido viver em um mosteiro deixara Vernica bastante irritada. Mas agora j era o bastante. 
- Me - ele comeou com firmeza - voc conhece meus sentimentos sobre casamento e crianas. So coisas que no me dizem respeito. Sei que acha que vou mudar de idia um dia, mas isso no acontecer. Entendo que tambm pensa que vou me apaixonar um dia, mas no vou. 
- E essa sua namorada sabe disso? - Vernica quis saber, com presena de esprito. 
- Pode crer que sim. 
-  uma namorada estranha. 
- Shani me compreende. Ns temos um... arranjo. 
- Isso deve significar que vocs usam um ao outro para fazer sexo. 
Um suspiro escapou dos lbios dele. 
- Eu no colocaria as coisas desse modo. 
- Ento, como colocaria? 
- Ns... somos amantes. 
- No, no so. Alis, amor no tem nada a ver com o que vocs esto fazendo um com o outro. 
A crtica de sua me calou fundo. Guilherme ressentiu-se pelo fato de ela querer faz-lo ter vergonha do que era na verdade um relacionamento muito prtico e sensvel. No estava ferindo ningum. Muito menos Shani. 
- Seu ponto de vista  muito antiquado - ele disparou, virando-se para sair dali. 
Para seu martrio, porm, encontrou Christhianne parada  soleira da porta que dava para o corredor, com uma mamadeira em uma das mos e uma fralda na outra. 
Quanto da conversa ela teria ouvido? 
Se sua expresso chocada olhos significava algo, ento toda sua relao com Shani j no era mais segredo para ela. 
- Se vocs me desculparem... - E Guilherme passou por ela, desaparecendo em segundos. 
Cinco minutos mais tarde Guilherme retornou, dessa vez com seu equilbrio restaurado e o bom humor presente. 
Shani estaria esperando por ele. E, entre todas as pessoas que conhecia, era a nica que ficaria feliz por v-lo. 
A sensvel e sexy Shani... Seria bem mais fcil se todas as mulheres fossem iguais a ela! 



CAPTULO 9 

Christhianne sentou-se de forma cerimoniosa no banco do luxuoso e novssimo carro de Guilherme Hunter, tentando ignorar os sentimentos confusos que a assaltavam. 
Soubera desde o princpio que no seria uma experincia agradvel estar sozinha com aquele homem dentro do automvel. Mas no era sua presena fsica que a incomodava, no momento, e sim o que ocorrera quando ouvira sem querer um pedao da conversa dele com Vernica na sala de jantar. 
Quando Guilherme Hunter admitiu ter um relacionamento estritamente sexual, com uma namorada secreta, Christhianne experimentara a mais inesperada das reaes. Um tipo estranho de excitao. 
Cus! 
Ela ficara to atordoada que seus ps pareciam ter criado razes no cho. Sua boca se abrira, e o corao se acelerara por causa da adrenalina. Seu crebro, de imediato, criara todo tipo de imagens erticas, envolvendo no Guilherme e a tal Shani, mas a prpria Christhianne! 
Quinze minutos depois, ainda estava aparvalhada, sobretudo porque aqueles sentimentos desorientadores ainda no haviam diminudo. Era como se tomasse plena conscincia do prprio corpo quando ficava prxima de Guilherme. Por isso, Christhianne no conseguia entender o que estava acontecendo. 
Para comear, nunca apreciara homens muito grandes. Nem mesmo sexo... 
- Conte-me sobre sua amizade com Sarah - ele pediu, rompendo o silncio e pegando-a de surpresa. 
- Por qu? - Christhianne, sem entender o motivo, parecia irritada com ele. - Qual  o problema? 
- No h nenhum, hristhianne. Apenas queria conversar um pouco. Vai levar pelo menos meia hora para atravessarmos a ponte e chegarmos  casa de Sarah. Voc disse que fica em Lewisham, no ? 
-Sim. 
Lewisham era um subrbio distante, na parte oeste da cidade. Era margeado pela estrada de ferro e cheio de velhos blocos de prdios de apartamentos e casas antigas. Sarah alugara uma kitchenettes, no ano anterior. Era minscula, mas limpa, e a nica coisa que podia pagar com seu parco ordenado. 
- Bem? - Guilherme, insistiu, impaciente.  
Christhianne encolheu os ombros. Por que no lhe contar? 
Guilherme teria mesmo de saber, no fim. Sarah era me de sua filha, afinal de contas. Melhor fazer isso do que ficar pensando coisas que no devia.  
Foi o que ela fez em seguida, sem se incomodar em esconder nada. Narrou a Guilherme toda a dura e amarga verdade, sem preocupar-se em amenizar nenhum detalhe. 
Uma coisa Christhianne precisava admitir: Guilherme no fez nenhum julgamento superficial, e tambm no tentou expressar falsas simpatias. Quando terminou a primeira parte da histria, as questes que seguiram no foram cruis, apenas motivadas pela curiosidade. 
- E o que aconteceu depois do incndio? - Guilherme quis saber. 
-Tornamo-nos responsabilidade do Estado. 
- E quanto a seus avs? 
- Nunca os conhecemos. Depois que nossas mes morreram, o pessoal do servio social at tentou encontr-los. Talvez tenham conseguido, mas ningum manifestou o menor interesse por nenhuma de ns. Nossas mes eram, como eu poderia dizer... ovelhas negras. Em ambas as certides de nascimento est escrito: "pai desconhecido". 
Christhianne fez uma pausa. 
- Quando ns duas j ramos maduras o bastante para procurar, descobrimos que os avs de Sarah estavam mortos, e ela constatou que no tinha tias, nem tios. Eu, por outro lado, encontrei um av e trs tios vivendo na Inglaterra. Escrevi diversas vezes. Um de meus tios me respondeu, uma vez, para dizer que minhas cartas haviam irritado muito meu av, e que minha me fora uma semente ruim que no trouxera nada  famlia, a no ser vergonha e infelicidade. Finalizou afirmando que gostaria que eu nunca mais escrevesse ou tentasse contat-lo. 
- Isso deve ter sido duro. 
- A vida nem sempre  fcil - Christhianne observou, custica, contente por ter recuperado a dureza e o cinismo habituais.  
Pensar no passado sempre era uma experincia dolorosa, que no lhe deixava espao para nenhum outro sentimento que no a amargura. Como podia, mesmo que por um momento, ter sucumbido a uma coisa to absurda como o desejo sexual pelo homem que agora estava acomodado a seu lado? Grande tolice, porque ela, melhor do que ningum, sabia como os homens eram. Ainda mais no que dizia respeito a sexo. 
- De qualquer forma, voltando a Sarah e eu, nenhuma de ns, podia ser legalmente adotada, porque no havia parentes para assinar os papis. Mesmo assim, chegamos a ir juntas para a casa de um casal, mas no funcionou muito bem. O adorvel dono da residncia no conseguia manter as mos longe de Sarah. Acabei reclamando para a assistente social, e ns voltamos para o orfanato. Ainda adolescentes, comeamos a trabalhar, ao mesmo tempo que estudvamos. Sarah fez um curso, de secretariado  noite, enquanto eu me satisfazia com qualquer trabalho que pudesse pagar meus estudos. Moramos juntas at o ano passado, quando fui para Melbourne procurar emprego. 
- De que tipo? 
- Sua me no lhe contou? 
	- O qu? 
- Sou atriz. Iniciante, mas uma atriz. 
- No, mame no me disse. E voc  boa? 
- Formei-me no Instituto Australiano de Arte Dramtica. - Hum... Ouvi dizer que  muito difcil entrar nessa escola. -  mesmo. Fiz audies por trs anos antes de conseguir uma vaga. 
- E tanto esforo se deu apenas pela ambio, ou foi dominada pela teimosia? 
- Alguns anos, atrs, eu diria que era ambio. Agora, sou inclinada a concordar que no passou de teimosia. 
- Entendo. E conseguiu uma boa colocao em Melbourne? - Isso depende de seu ponto de vista. Arranjei um papel regular numa novela, representando uma femme fatale. No entanto, a personagem saiu de cena no final da temporada. Alguns artistas desprezam novelas, mas elas so uma boa vitrine, se voc tem talento. Ao menos foi uma experincia boa para meu currculo... 
- E o que vai acontecer com sua carreira, agora que tem de cuidar de Madelleine? 
- Acho que vou ter de coloc-la de lado por algum tempo. 
- Por falar nisso, qual sua idade? 
- Vinte e seis. Por qu?  
- E qual sua situao financeira? - Guilherme continuou, ignorando a indagao dela. 
-  apenas curiosidade ou voc est planejando fazer uma doao de caridade? - Christhianne replicou com glida ironia, 
-Pare de ser irritante e apenas responda.  
Irritante? Ela no tinha nem comeado a ser irritante! - Minha situao financeira no lhe diz respeito Guilherme Hunter,  um assunto particular. Voc no acha mesmo que eu daria uma informao como essa ao homem que pretendo processar, no ? 
- Isso quer dizer que no est muito bem... Caso contrrio, jamais se recusaria a dizer. 
- Errado. Isso significa que voc e eu somos inimigos, sr. Hunter. No lhe darei nenhuma munio para que tire vantagem sobre mim. Sarah era a pessoa mais doce do mundo, e me confiou sua filha. E acredite quando digo que farei qualquer coisa ao meu alcance para for-lo a aceitar Madelleine, fornecendo tudo o que essa menina tem direito. 
- Ento, dinheiro  o problema principal, no ? 
- Deus do cu, eu tenho pena de voc... Amor  o problema principal, seu tolo! Eu amo Madelleine, apesar de no ser sua parente. Voc e sua me so. Vernica pode dar a Madelleine o tipo de amor que no posso, e do qual uma criana sempre sente falta. Acredite-me, eu sei o que digo. No estou me iludindo, achando que voc ser capaz de amar sua filha. Pelo que percebi at  agora,  imune a emoes. Mas sua fortuna pode pelo menos tornar a infncia da garota mais agradvel. E, quem sabe, com o tempo poder at mesmo comear a se importar com ela, sr. Hunter. Se a natureza de Madelleine for parecida com a da me, e suspeito que , ser difcil que isso no acontea. 
- No acha que seria mais sbio esperar pelo resultado do teste de DNA antes de fazer tantos planos? 
- Voc queria que eu falasse sobre Sarah. E no posso falar de minha amiga sem mencionar Madelleine... e seu relutante pai! 
- J que tem tanta certeza de minha participao em tudo isso, por que no veio me ver antes. Quando Sarah lhe disse que eu tinha negado ser o pai de Madelleine, dando-lhe dinheiro para um aborto, por que no veio voando a meu escritrio, como um anjo vingador? A mulher que entrou em minha vida hoje decerto no teria perdido nenhum tempo. Por que aguardou at agora? 
Christhianne no esperava por aquela pergunta, por isso corou um pouco. 
- Bem... eu... estava em Melbourne, lembra-se?  
-Sim, mas na certa voltou para ver Sarah quando Madelleine nasceu, no ? 
O rubor de Christhianne acentuou-se. 
- Na verdade, no... No voltei - confessou, sentindo a garganta ressecar-se. 
Houve um silncio tenso logo depois. 
- E ser que vai me contar por qu? - Guilherme a sondava, ao mesmo tempo confuso e irritado. 
- Eu... ns... ns discutimos - Christhianne desviou o olhar para a janela. 
Estavam se aproximando da ponte Harbour, mas a vista espetacular no servia para acalm-la. A bem da realidade, estava lutando para manter o autocontrole. 
- Sobre o qu? - ele quis saber.  
Christhianne no podia falar. Apenas meneou a cabea, sentindo as lgrimas correrem pelo rosto. 
Guilherme suspirou. 
- Tenho lenos descartveis no porta-luvas. 
Ainda calada, Christhianne estendeu o brao para apanhar a caixa, e ento foi acometida por uma violenta crise, de soluos. 


CAPTULO 12 


Guilherme ficou feliz por estar dirigindo na ponte naquele momento. Ele no podia parar e nem mesmo encostar o carro. Graas aos cus no podia fazer nada realmente estpido, como tom-la nos braos. 
O som do choro de Christhianne o tocava mais do que o desejado. Assim como a histria triste do passado das duas amigas. Aquilo explicava muito sobre ela e sua determinao de dar  filha de Sarah um futuro melhor. Tambm provocava em Guilherme uma estranha culpa... Talvez aquilo viesse da acusao de Christhianne, de que ele era incapaz de amar ou se importar com quem quer que fosse. 
Por fim, os soluos se aplacaram, e ela ajeitou-se no assento. Mas havia uma dezena de lenos usados em seu colo. - Sente-se melhor agora? - ele perguntou, com gentileza. Ela assentiu. 
- Gostaria de falar sobre isso? Sua discusso com Sarah? 
- Na verdade, no - Christhianne admitiu, hesitante. 
- Tudo bem. Presumo que ainda estava em Melbourne quando ela morreu. 
Mais uma vez, Christhianne assentiu, estirando as mos, muito nervosa, sobre O colo. 
- E vocs ho s reconciliaram depois da discusso? - Guilherme quis saber. 
A questo pareceu toc-la fundo. 
- Eu... eu tentei ligar para Sarah vrias vezes. Mas ela se mudou de nosso velho apartamento e deixou o emprego. Seu nome no constava da lista, porque no tinha telefone. No tinha dvida de que ela sabia onde eu estava, por isso pensei...que Sarah no queria mais conversar comigo. 
- Acredita que ela faria um aborto? 
Os olhos de Christhianne faiscaram, ainda midos com as lgrimas, mas cheios de ultraje. 
- Sarah jamais faria uma coisa dessas! 
- Certo, no precisa se irritar. Estava apertas tentando entender. Imaginei que vocs podiam ter discutido sobre ela fazer ou no o aborto. Quero dizer... eu poderia entender que uma garota com um passado infeliz como o de vocs duas no concordasse em trazer uma criana ao mundo de maneira inesperada. 
- Isso apenas demonstra que voc no sabe nada sobre gente como ns. Ou de qualquer tipo... Se quer mesmo saber, discutimos sobre voc! 
- Eu?! - Guilherme no poderia parecer mais incrdulo. 
- Tudo bem. Para entender por que reagi to mal, voc tem de saber que Sarah teve muitos casos fracassados. Minha amiga estava sempre se apaixonando. E em geral por colegas de trabalho, que nunca retribuam seu sentimento. Aos poucos, fui ficando cansada de recolher os pedaos de seu corao, quando cada um desses namoros dava errado. Tambm me irritava v-la mudar de emprego por se envolver com homens casados. 
- Sarah teve casos com homens casados? 
- Alguns. Veja bem, Sarah no era uma -toa ou coisa do gnero. Era apenas uma jovem muito carente. Bastava que um sujeito qualquer lhe dissesse que a amava e ela se atirava em seus braos. No era sexo que o procurava, e sim amor. Quando Sarah foi trabalhar na Hunter & Asssociados, prometeu-me que seria diferente. Mas logo comecei a enxergar os sinais de que estava de novo apaixonada. Sarah levava muito tempo se preparando para ir trabalhar, comprou roupas novas, perfumes... Enfim, conclu que estava envolvida com algum, e quis saber quem era a nova paixo. 
- E ento? - Guilherme perguntou, interessado. 
- No comeo, Sarah negou estar envolvida com algum companheiro da Hunter, mas acabou confessando que estava apaixonada por voc, seu novo chefe. 
- Sarah estava apaixonada por mim?! - repetiu, aturdido. - Por favor, no finja que no sabia disso - Christhianne retrucou, com desdm. 
- Mas eu no sabia! Posso jurar! 
- Talvez Sarah tenha escondido a verdade porque conhecia o tipo de homem que voc  - sugeriu, desafiadora. - Quem poder saber ao certo, agora? De qualquer forma, voei para cima dela chamando-a de tola e, sim, de garota fcil. Usei todas as formas de insultos... Sarah defendeu o amor por voc com ardor. Disse que era mais profundo do que qualquer outro sentimento que experimentara, e chegou at mesmo a me chamar de idiota, porque eu no conhecia o que era o amor. 
O suspiro que escapou dos lbios de Christhianne soou triste e cheio de arrependimento. 
- Naquele dia, ambas falamos muitas coisas que jamais deveramos ter posto para fora. Na poca, j estava pronta para ir para Melbourne, e depois da discusso Sarah me pediu para desaparecer. Afirmou que no queria me ver nem ouvir falar de mim nunca mais. 
- Entendo - Guilherme murmurou, e sua mente se acelerava, pois as peas do quebra-cabea comeavam a se  encaixar. 
Naquela ocasio em que dormira com Sarah, teria ela mentido sobre o misterioso namorado? Teria criado uma situao para que ele sentisse pena e se aproximasse? Seria capaz de engendrar tal cena de seduo, destruindo o autocontrole dele com vinho antes de envolv-lo com todos os truques possveis? E se tudo isso fosse verdade, ento, qual seria seu propsito? Havia apenas uma resposta possvel. 
Sua memria o fez voltar para aquela noite, tentando lembrar-se com exatido de tudo o que tinha acontecido. No entanto, para ser bastante honesto, estava confuso sobre os detalhes. Fazia tanto tempo... E ele bebera demais. 
Mesmo assim, tinha absoluta certeza de que usara preservativo nas duas vezes em que haviam feito amor, ele e Sarah. 
Nas duas vezes? Seu estmago revirou-se diante daquela sbita recordao. Sim, Sarah acordara durante a madrugada, excitando-o outra vez de forma bem sedutora. E fora ela quem pusera o preservativo nele, ento. Agora lembrava 
com maior nitidez. 
Ser que aquela mulher havia feito algo errado, de propsito? Talvez esperasse, em sua mente tola, que se ela concebesse um filho Guilherme decerto lhe proporia casamento. 
Mas, no dia seguinte, ele deixara bem claro que o que houvera fora um equvoco de ambos. E tomara o silncio de Sarah por embarao e concordncia. 
Talvez, ao descobrir que estava grvida, ela tivesse se lembrado de tais palavras, sentindo-se embaraada demais para procur-lo. 
O que o fazia lembrar-se de outra das acusaes de Christhianne, de que Sarah o procurara e fora rejeitada, recebendo dinheiro para o aborto. 
Mas algumas facetas do enigma se encaixaram, e ele lanou a Christhianne um olhar inquisidor. 
- Voc nem mesmo sabia que ela estava grvida, no ? 
- No. 
Guilherme quase no conseguia conter-se. 
- Nesse caso, como Sarah pde ter lhe dito que foi me procurar para falar sobre o beb? Voc mentiu sobre isso, no foi? 
Os ombros de Christhianne se encolheram, e seus olhos tornaram-se frios e penetrantes. 
- O fato de ela no ter me dito no significa que eu tenha mentido. Sarah contou a sua nova vizinha sobre o episdio, e a mulher me relatou tudo. Ela disse que Sarah chorou por dias depois daquilo. 	
Mais uma vez, Guilherme no podia acreditar no que estava ouvindo. 
- Por acaso voc est me condenando por um boato? 
- No. - As pupilas negras cintilavam, com desprezo. 
- Tenho outras evidncias bem comprometedoras contra voc. 
- Do que se trata? 
- No  de sua conta. 
- Mas  claro que ! Tenho todo o direito de saber! 
- O que devia saber  que deixou Sarah desamparada, Guilherme Hunter. Quer a amasse, quer no, voc pelo menos poderia t-la ajudado, no mbito emocional ou finaceiro. Corta-me o corao saber que minha amiga teve aquele beb sozinha. E foi assim que morreu... 
- O que corta seu corao, madame,  que voc a deixou desamparada. Tambm no estava l quando Sarah necessitou de seu amparo. Chamou-a de tola e garota fcil, deixando-a abandonada mesmo sabendo que Sarah no era to forte quanto voc!
O rosto de Christhianne assumiu uma palidez mortal. 
Aquilo era visvel mesmo com a fraca luminosidade da rua. E ento Guilherme desejou do fundo da alma voltar atrs, retirando o que dissera. 
- No ouse chorar outra vez! - sussurrou ao v-la comear a tremer. Na realidade, temia estar prximo demais dela e no ter nenhuma desculpa para no consol-la, daquela vez. 
Christhianne recuperou o autocontrole e encarou-o, furiosa. - Nunca mais vou chorar em sua frente, seu miservel insensvel! 
Por sorte, os dois j estavam se aproximando do prdio de Sarah. 
Em absoluto silncio, Guilherme manobrou o veculo para entrar na estrada Parramatta, e logo depois atravessou a ponte que cruzava a ferrovia, chegando ao seu destino. 


CAPTULO 13 

A construo parecia to pfia  noite quanto  luz do dia. 
Christhianne conclua isso ao conduzir Guilherme do ptio at a porta que levava  quitinete de Sarah. A aparncia do lugar era mesmo lgubre. 
Aquela, decerto, fora uma grande e confortvel residncia, muitos anos atrs. Antes de algum compr-la e dividi-Ia em vrios cmodos. 
O tempo e a negligncia haviam feito muitos buracos no teto, provocando goteiras que precisavam de reparo urgente. A pintura das portas e janelas estava descascando, e algumas de suas partes de madeira j apodreceram. O jardim mais se assemelhava a um matagal, e a trilha de cimento que o atravessava era cheia de buracos. 
Christhianne girou a chave na fechadura e acendeu a luz, sentindo-se mais uma vez dominada pela tristeza por Sarah ter sido forada a viver num lugar como aquele com seu beb. Talvez fosse bom fazer Guilherme Hunter ver ao que se reduzira a me de sua filha. 
	Ele no disse uma palavra enquanto olhava ao redor d acanhado apartamento que servira de lar para Sarah e Madelleine. 
As paredes mostravam rachaduras e a tinta tambm estava velha e descascada. O tapete, todo pudo. No havia sequer um lustre simples para cobrir a lmpada nua que pendia, no centro. 
Toda a moblia era barata e de segunda mo, exceto pelo bero e as coisas que Sarah adquirira para o beb. Ficava bastante claro que aquelas peas eram novas, e muito caras. Era tpico de Sarah, Christhianne constatara ao entrar ali, uma semana antes. Sua amiga s aceitaria o melhor para sua criana. 
Naquela ocasio, Christhianne se perguntara como Sarah conseguira comprar o bero importado e o carrinho, sem  mencionar as dispendiosas roupas infantis. 

Sarah jamais fora uma pessoa capaz de poupar dinheiro. Gastava quase tudo o que ganhava investindo em sua aparncia. Desperdiava uma fortuna em trajes e acessrios, sem mencionar maquiagem, cosmticos e as visitas constantes ao cabeleireiro. 
Christhianne encontrara a resposta para aquela pergunta ao observar o velho guarda-roupa e descobrir que todas as peas mais finas de Sarah tinham ido embora, sendo substitudas por outras bem baratas. A humilde cmoda tambm revelara algo similar. Todas as jias tinham desaparecido, bem como a coleo de bolsas de couro e ncessaires de grife. 
No restara nada que revelasse a vaidade feminina da amiga, e o nico detalhe realmente pessoal era uma pequena foto de Sarah e Madelleine colada ao espelho. 
A senhora idosa que morava no apartamento ao lado, a mesma que fornecera as informaes sobre a desastrosa visita de Sarah a Guilherme, tinha confirmado que a amiga vendera tudo o que possua para comprar o que existia de melhor para sua amada filha. 
Pelo visto, Sarah descobrira o sexo do nen no primeiro ultra-som, aos quatro meses de gravidez, pouco depois de ter ido morar naquele lugar. Deixara o emprego na Hunter & Associados porque a gravidez lhe provocava muitas nuseas. 
Aquela ltima informao havia deixado Christhianne muito irritada. Se ela soubesse... Na certa, teria pegado o primeiro avio de volta para Sydney. 
- Voc tem dormido aqui? - Guilherme perguntou, por fim, com uma expresso quase de descrena. 
- Sim - confirmou, na defensiva. - Onde mais poderia ficar? L esto minhas duas malas, encostadas na parede. 
Todas as suas coisas permaneciam quase intactas. Christhianne no desfizera a bagagem, porque no planejava ficar muito tempo ali. 
- Ento, no tente mais blefar comigo a respeito de ter dinheiro, mocinha. Vamos l. Pegue tudo de que precisa para sairmos logo daqui. J vi alguns lugares depressivos em minha vida, mas este, ganha de todos, com tranqilidade. Acredite em mim quando digo que, se Sarah tivesse vindo a mim, contando que estava grvida, ela e o beb no teriam de viver assim! 
Christhianne encarou-o, confusa. Guilherme soava to sincero! E muitssimo zangado. 
- Sarah no foi v-lo, sr. Hunter? - ela no pde deixar de perguntar. 
- Pare de me chamar assim. Sou Guilherme. - Ele fixou os olhos azuis nos dela com uma expresso implacvel. - A manh do dia em que Sarah deixou de trabalhar para mim foi a ltima vez em que a vi. Jamais me encontrei com ela, nem no elevador, depois daquilo. Para ser ainda mais franco, nem mesmo fiquei sabendo quando sua amiga deixou a companhia. 
- Mas por que Sarah diria que foi v-lo, se isso no  verdade? 
- No fao idia. Quem foi que lhe contou isso, mesmo? 
- A senhora que vive no conjugado ao lado. 
- E qual  o nome da mulher? 
- Betty. No sei seu sobrenome. 
- Bem, talvez Sarah tenha contado a Betty que estava indo me ver, mas ento mudou de idia. E depois disso, resolveu mentir, embaraada. Acho que no saberemos o que aconteceu de fato, ou o que se passava pela mente dela. 
- Acho que no - Christhianne concordou, em voz baixa, sentando-se na beira da cama, e ento encolheu os ombros. - O que isso importa, agora, de qualquer forma? 
- Tem muita importncia para mim, quando as pessoas me chamam de mentiroso. No sou nenhum santo, Christhianne, mas tambm no sou um miservel insensvel. 
Ao ouvir aquilo Christhianne ergueu a cabea para observ-lo, e tentou ser justa. 
Precisava encarar as evidncias, sua conscincia exigia isso. No fora justa com Guilherme por todo o dia. Mesmo antes de encontr-lo, j estava pronta e certa para acus-lo, e nunca para ouvi-lo. Desempenhara o papel de anjo vingador  perfeio, e dera a Sarah qualidades que sabia que a amiga no possua.
A realidade era que Sarah costumava mentir um pouco, quando achava que a verdade podia causar problemas ou discusses. Sempre detestara confrontos, e por isso costumava escolher o caminho que oferecesse menor resistncia. 
- Eu... sinto muito por ter dito isso - Christhianne murmurou, sem graa. - E lamento por ter dito que voc abandonou Sarah. 
Guilherme voltou a falar, com mais gentileza do que ela merecia: - Pelo que vejo, Sarah ho podia ter encontrado melhor amiga, ou melhor me para sua filha. 
- Oh! - Christhianne balbuciou, sentindo o queixo comear a tremer enquanto as lgrimas enchiam os cantos de seus olhos. 
- Voc garantiu que nunca mais choraria a minha frente! - advertiu-a, com suavidade. 
- No posso evitar... Christhianne soluou, levando as mos a cobrir as faces de imediato, sucumbindo a um pranto convulso. 
Guilherme fitou-a, horrorizado. "Por que eu?", perguntou-se; agoniado. 
Ao ver os ombros de Christhianne chacoalhando, sentiu o corao apertar-se, e ento exasperou-se ainda mais ao ouvir seus soluos desesperados. O que mais o incomodava era seu natural instinto masculino, que o mandava confortar uma mulher que chorava. 
Sentia-se em particular preocupado com o que poderia acontecer se a tocasse. 
Bastava se lembrar do que havia acontecido da ltima vez em que tentara consolar uma mulher infeliz. E Sarah nem mesmo era seu tipo... Christhianne, por outro lado, era; sem sombra de dvida. 
E como! 
Ele estava ali, a uma distncia segura, quando lhe ocorreu que se preocupava por nada. Por um simples motivo: ele no era o tipo de Christhianne. Poder-se-ia dizer que o perigo de alguma coisa vir a acontecer era nulo, pois aquela jovem no o suportava. 
As desculpas de Christhianne no tinham sido nada alm  de uma pequena concesso, j que com certeza ainda acreditava que ele era um sedutor mentiroso e sem corao. 
J refeito, Guilherme decidiu sentar-se ao lado dela, no leito. Seu peso sobre o colcho logo fez com que o corpo de Christhianne se projetasse em sua direo. 
- Ora! - ela balbuciou, descobrindo o rosto e encarando-o, em pnico. 

- Est tudo certo. - Guilherme estendeu o brao para enla-la, com afeto. 
Mas no estava tudo certo, no. Na verdade, estava bastante errado. 
Para comear, havia a forma como Christhianne o olhava, com aqueles grandes e brilhantes olhos negros. O adorvel semblante plido, e os lbios entreabertos, num convite. E ento, a maneira como suas mos flutuaram at o peito dele, e permaneceram ali, to quentes.  
Guilherme lhe deu uma chance, isso ningum poderia negar. Christhianne poderia t-lo empurrado para longe, fazendo-o deter-se em qualquer ponto durante o tempo que sua mo levou para segurar-lhe o queixo com os dedos. Mas ela no lutou, nem o impediu. Apenas fitou-o fixo, com a boca carnuda ainda mais aberta, quando Guilherme se inclinou para beij-la. 


CAPTULO 14 

Christhianne sabia que ele iria lhe dar um beijo, mas no fez nada, nem disse palavra alguma. 
Deixou que os sedutores e msculos lbios cobrissem os seus, sem protestar. Que a lngua vida penetrasse sua boca, e seus dedos escorregassem, lentos, por seu pescoo, parando sobre um de seus seios arfantes. 
"Isso  uma loucura!", foi seu ltimo pensamento coerente, antes que uma selvagem exploso de desejo turvasse seu crebro. E assim, vtima da mais ardente luxria, abraou-o, segurando-o pela nuca e puxando-o para baixo, para junto dela, na cama. 
Guilherme teve poucos segundos para sentir-se aturdido diante da selvagem resposta de Christhianne. Se seu raciocnio, por um segundo, questionou aquela inesperada paixo, seu corpo no fez o mesmo. A excitao que o assolava era intensa, colocando por terra qualquer barreira que ele mesmo pudesse ter criado durante toda a noite para resistir aos encantos daquela moa. 
Christhianne gemeu quando ele interrompeu o beijo para ajeit-la sobre os travesseiros, no leito. Tornou a gemer quando Guilherme afastou suas pernas e colocou-se entre elas. Logo depois, Guilherme voltou a beij-la com avidez. Seu corpo musculoso a pressionava contra o colcho. 
Sentia-se como se estivesse afundando no oceano, sem nenhum ar nos pulmes. Sua cabea parecia girar, num turbilho, mas ela no se importava. "Que morte deliciosa!", pensou, abraando-o com mais fora ainda. 
Guilherme se ajeitou entre suas coxas, mas dessa vez no parou de beij-la. Christhianne podia sentir as mos fortes sobre si, to clidas e famintas quanto os lbios vidos. 
Logo em seguida, aquelas mos se insinuaram por debaixo de sua blusa, parando sobre os seios, que esperavam por aquele toque, rgidos e tensos. Tudo dentro dela contraiu-se quando ele comeou a acariciar os mamilos intumescidos, e outro gemido de puro prazer escapou-lhe da garganta. 
Outros homens j haviam tocado seus seios antes, mas nunca daquela forma. Jamais com tanto ardor. No havia delicadeza naqueles dedos, apenas necessidade animal, que, de uma maneira estranha, ao contrrio de machuc-la, s a fazia desej-lo mais e mais. 
Quando os lbios dele afastaram-se e suas mos desceram dos seios, Christhianne quase gritou de desnimo. "No, no pare!" 
Mas Guilherme no estava parando. 
Christhianne observou, com a respirao entrecortada, quando ele puxou sua blusa, inclinando-se devagar at que sua boca atingisse o ponto que os dedos um pouco antes tinham acariciado. A lngua e os dentes de Guilherme eram to impiedosos quanto as mos, mordiscando e sugando os mamilos at transform-los em pequenas bolas de fogo. 
Mas Christhianne queria muito mais, por isso arqueou as costas, pressionando os seios contra o rosto dele, como se pedisse para ser satisfeita. As mais deliciosas sensaes dominavam-na por inteiro. 
Christhianne cerrou as plpebras, tentando negar todo o prazer que estava sentindo. Mas no encontrou nenhuma segurana na escurido. De qualquer forma, sem ver o que ele fazia, sentiu a prpria reao aumentar ainda mais s carcias que recebia. Seus seios tinham inchado, e estavam muitssimo sensveis. Era como se, de uma hora para outra, ela fosse se partir em duas. 
Guilherme, ento, desabotoou e comeou a tirar sua cala, pondo-se a dar ao ventre tratamento idntico ao que dispensara aos seios. 
Suspirando, Christhianne virou a cabea para o lado, e estava quase fechando os olhos de novo quando avistou a pequena fotografia de Sarah e Madelleine pregada no espelho. 
O erotismo que a enlevara totalmente desapareceu de imediato. Se algum tivesse lhe jogado um balde de gua gelada, o efeito no teria sido mais dramtico. 
Sem demora, a frieza tomou conta daquelas formas que, um segundo antes, estavam em chamas. Uma sensao de vazio substituiu aquele desejo irracional. 
- Oh, Deus... no! - Christhianne gritou, sentando-se num pulo e empurrando-o para longe, numa exploso causada pela adrenalina. 
Enlaou as pernas, e toda ela foi acometida de um terrvel tremor. 
Quando Guilherme fez meno de tornar a sentar-se a seu lado, ela congelou-o com o olhar. 
- No ouse se aproximar de mim - advertiu, cerrando os dentes. - Ou me tocar. 
- Christhianne, pelo amor de Deus! Seja justa, voc tambm me queria. Sabe que sim. 
Ela fez um gesto de violenta negativa. 
	- No, eu no queria, nem quero agora, porque  o ltimo homem na face da terra com quem gostaria de fazer amor. Odeio voc, Guilherme Hunter e... o desprezo. 
- Por qu? Pensei que tivesse acreditado em mim... 
Christhianne sentia uma tenso insuportvel, e teve de respirar fundo para recuperar o controle e encarar Guilherme. 
- Voc usou e abusou de Sarah. No a amava, mas fez amor com ela mesmo assim. E ento, quando Sarah deixou sua firma, esqueceu-se dela, colocando aquela tal de Shani em seu lugar. Fico imaginando se a pobre-coitada ao menos imagina com que tipo de gente est se envolvendo. Uma mquina sexual sem sentimentos,  isso que voc . Claro que sabe fazer os movimentos certos, e est sempre atento ao momento de atacar. Quando a garota est mais desprotegida, de corpo e alma, d o bote, no , Guilherme? Como um predador! Voc  um desalmado! 
Depois daquilo, Christhianne, mais uma vez, afundou o rosto nas mos, e sucumbiu s lgrimas. 
Guilherme nunca se sentira pior em toda sua vida. 
A frustrao inicial foi substituda por remorso, pela culpa e, sim, pela confuso. 
De certa forma, estava feliz por Christhianne t-lo interrompido, porque ele no seria capaz de deter a si mesmo. Continuaria, sem ponderar nenhuma conseqncia, sem nem mesmo pensar em se precaver. 
Ajoelhou-se, ento, diante dela, exasperado, tomando-a pelas mos e segurando-as com fora, enquanto ela tentava se livrar. 
- No, voc tem de me ouvir! - disse, com firmeza. J fez o seu discurso, agora deixe-me fazer o meu. 
Christhianne encarou-o com os olhos faiscantes e firmes, apesar do pranto. 
- Eu no queria que isso acontecesse, Christhianne, nem planejei nada. Mas a verdade  que me senti atrado por voc desde que entrou em meu escritrio, hoje  tarde. Sim,  verdade - ele insistiu, quando se deu conta da descrena dela. - No pude tir-la da mente. Sempre me senti atrado por morenas altas e bonitas. Assim, quando voltei para casa e a encontrei l, meu crebro e meu corpo comearam a travar uma guerra que no parou at agora. Estava to nervoso quanto voc est comigo, porque eu no fiz aquilo de que me acusa. Mas, ao mesmo tempo, queria. tom-la nos braos e am-la com toda a paixo. Para ser mais honesto ainda, tive de tomar dois banhos gelados hoje: antes e depois do jantar. 
Christhianne limitou-se a ficar em silncio, mas uma sombra turvou-lhe o olhar, e seus lbios carnudos permaneceram entreabertos. 
Guilherme suspeitava que poderia seduzi-la naquele exato momento, se fosse insensvel o bastante. Mas no pretendia isso. Queria mais daquela mulher do que apenas se divertir. Precisava do respeito dela... E Christhianne no o respeitava naquele momento. Nem um pouco. 
- Acho que sentiu atrao por mim tambm - ele emendou, esperando que ela negasse. 
Mas Christhianne no o fez, e a pulsao dele comeou a acelerar. 
-No h nada errado em sermos amigos, h? - sugeriu, querendo parecer razovel. - Se ficar provado que sou o pai de Madelleine, ento decerto ser melhor para todos se nos dermos bem. 
- Voc, por acaso, est admitindo que pode ser o pai de Madelleine? 
-  possvel, acho - concedeu, embora, no ntimo, considerasse essa hiptese bastante remota. 
Mesmo assim, se admitir que podia ser o pai de Madelleine agradava a Christhianne... 
- E quanto ao namorado misterioso? - Christhianne quis saber, arqueando as sobrancelhas. - Est admitindo que ele no existe? 
- No tenho nenhuma dvida de que esse homem existe, e pretendo encontr-lo por minha prpria conta. 
- Ser mais fcil se se mirar no espelho. - Christhianne livrou-se das mos dele e encarou-o com a mais absoluta frieza. - Quanto a sermos amigos, no vejo como isso pode acontecer. Agora que sei com quem estou lidando ficarei preparada, pode acreditar. 
Guilherme levantou-se e tentou manter sua expresso indiferente diante daquela ofensa. 
- O que voc quer dizer com isso? Com quem acha que est lidando? 
- Entendeu direitinho o que eu quis dizer, Guilherme Hunter. Voc  um predador. Acha que pode ter qualquer garota que quiser. Tenho certeza de que j teve incontveis amantes. Mas pode me esquecer, porque no sou como Sarah, ou Shani, ou qualquer outra das pobres criaturas que usa e descarta depois. Posso ter lhe dado uma impresso diferente, agora h pouco, mas qualquer pessoa pode cometer um erro de julgamento. Subestimei-o, e superestimei a mim. No imaginava que pudesse ser uma presa to fcil. Mas agora penso diferente. 
- No acredito nisso! - Guilherme levantou-se e comeou a andar, agitado, de um lado para o outro. 
Christhianne tinha o dom de fazer com que se sentisse pssimo apenas por desej-la, como se esse fosse um crime capital. 
Christhianne tambm se ergueu. 
- No tenho dvida de que, depois que visitar sua Shani, mais tarde, se sentir melhor. No podemos esquecer que uma morena alta  idntica a todas as demais para um homem como voc! 
Aquele sarcasmo atingiu-o em cheio. 
- Devo lhe informar que Shani  uma mulher muito inteligente, que sabe raciocinar com clareza e iseno. E que no a uso mais do que ela usa a mim. 
- Ora, que timo! Parece que foram feitos um para o outro, no ? 
- Pode apostar. 
- Ento, me deixe em paz, doravante. 
- No se preocupe. Eu farei isso! 


CAPTULO 15 


s onze horas em ponto, Shani deixou um ainda zangado Guilherme entrar em seu apartamento. Normalmente ele no teria passado da saleta antes que o sexo comeasse, mas daquela vez ele quase ignorou sua anfitri e foi direto para a sala da estar, dirigindo-se at o gabinete onde ela guardava as bebidas fortes. 
- Teve um mau dia, querido? - Shani indagou ao v-lo servir-se de uma dose dupla de usque. 
Guilherme murmurou algo incompreensvel, e ento sorveu um longo gole. 
Shani aproximou-se devagar e colocou as mos, de maneira sedutora, sobre os ombros bastante tensos. Os dedos de Guilherme apertaram o copo ainda mais quando Shani passou a afagar seus braos, e ento pararam ao redor da cintura. por um instante antes de darem incio a carcias mais ntimas. 
- Hum... - Shani gemeu, com um prazer lascivo. Uma confuso dominou-o. assim que sua conscincia comeou a avis-lo para no fazer aquilo. Estava tudo errado! Era Cbristhianne quem ele queria, no Shani. 
"Mas Christhianne me despreza, por mais tentadora que seja", disse a si mesmo. 
"Nunca vai t-la em sua cama, Guilherme, nunca! Continuar com esse desejo para sempre. Isso o levar  loucura."  Com um suspiro torturado, Guilherme virou-se, tomando Shani no colo e carregando-a para o leito. 
Cinco minutos mais tarde, a atnita garota puxava o lenol sobre seu corpo nu, olhando para a figura calada, parada em p diante da janela do quarto. 
- O que h de errado, Guilherme? Voc me desejava, tenho certeza de que sim. 
Ele virou-se para encar-la, fixando-se em seus olhos ainda vidos. Mas. pensou em outros olhos, que faiscavam com desdm quando se encontravam com os dele... Daria qualquer coisa para ver aquelas ris negras no lugar dos de Shani, naquele momento. 
- No era voc quem eu estava desejando - Guilherme admitiu, afinal, exalando outro suspiro. 
-Ah... - Shani o compreendeu, assentindo e estendendo o brao para pegar o mao de cigarros que deixara na mesa-de-cabeceira. 
Fumar depois do sexo era o nico vcio de Shani, que costumava brincar dizendo que gostava de manter seus dois vcios juntos, para impedir que sassem de controle. 
Manter tudo sob o prumo era to importante para Shani quanto para Guilherme. 
Ele observou o lenol cair at a cintura dela, deixando expostos seus seios nus. 
Shani no se incomodou em cobrir-se outra vez, quando se ajeitou contra os travesseiros. Fumava, tranqila, sem se importar com a prpria nudez. 
A recordao de Christhianne puxando a blusa de forma agitada voltou  memria de Guilherme. Ela parecia ter odiado se expor a ele daquela forma. Seu desgosto por quase deixar-se seduzir fora muito intenso. 
Guilherme gostaria de saber se era apenas ele que Christhianne desprezava, ou todo o gnero masculino. Desconfiava que as dificuldades passadas na infncia podiam ter afetado o modo de ela encarar o assunto. A bvia vulnerabilidade de Sarah em relao aos homens e ao sexo decerto a incomodara muito. 
Mesmo assim, Christhianne no era imune aos prazeres da carne. Sem dvida gostava de fazer amor. Exceto com ele, claro. 
- Quem  a garota? - Shani soltou uma baforada. A pergunta fez Guilherme voltar  realidade. 
- Algum que conheci hoje. 
- No trabalho? 
- Sim, no escritrio. 
- Cliente ou colega? 
- Nenhum dos dois. 
- Quem , ento? 
- Um anjo. 
- Um anjo?! - Shani gargalhou. - Oh, querido, querido... Parece que dessa vez voc se deu mal... 
- Mas no pense que se trata de um anjinho cndido, que vem nos trazer paz e luz. Esse  vingador, e veio direto das profundezas. E eu no estou apaixonado por ela! 
-  mesmo? Bem, se diz a verdade, ento por que no est aqui na cama comigo, fazendo amor? No tem nenhum outro problema, certo? 
Guilherme precisava admitir que Shani estava certa. Ele no estava impotente. No fisicamente, pelo menos. 
- No sei por que, mas no consigo tir-la da cabea, Shani. Mas no  amor.
- O amor tem uma maneira toda prpria de apanhar as pessoas quando elas no esto olhando. 
O tom muito srio de Shani fez Guilherme arquear as sobrancelhas. 
- Meu Deus! - Guilherme parecia alarmado. - Shani... voc no... no est apaixonada por mim, est? 
- No, no estou. Graas a Deus... Mas estava comeando a me sentir muito ligada a voc, querido. Ligada demais. Por isso, acho melhor terminarmos tudo. 
Guilherme no sabia o que dizer. Descobrir que Shani comeava a se envolver a srio com ele era algo chocante. Qual seria a prxima revelao? 
Seu crebro comeou a trabalhar rpido. Tambm precisava se afastar de Christhianne, o mais possvel. No havia lugar para a paixo em sua vida. Nem agora, nem nunca. 
Guilherme queria seu velho sossego de volta. Tornar a ser ele mesmo. No iria perder o controle de tudo. E no gostara de nada que lhe acontecera naquele dia. Nem um pouco! 
Mais uma vez, olhou para Shani, sentada ali, fumando. - Voc vai ficar bem, Shani? 
Os lbios dela curvaram-se num sorriso doce e confiante. - Com certeza. Mas obrigada por perguntar. O fato  que conheci um homem muitssimo sexy h poucos dias, e por isso comecei a concluir que algo estava errado em nossa relao. Ele sentiu-se atrado por mim tambm, e me deu seu carto.  um advogado, um sujeito duro, que no tem nem um pingo de ternura em nenhuma clula. Ao contrrio de voc, querido. No fundo, tem um corao de manteiga, Guilherme. 
- Eu?! Voc deve estar brincando! 
- No estou, no. 
Guilherme riu. 
- E eu que pensei que pessoas que trabalhavam com publicidade eram bons juzes de carter! 
- Mas ns somos - Shani garantiu, com uma expresso circunspecta. - Pode acreditar. 


CAPTULO 16 

Christhianne estava sentada em frente  penteadeira, em seu quarto, escovando os cabelos com vigor. O radio-relgio no criado-mudo indicava que eram oito e trinta. 
Era noite de domingo. Quarenta e oito horas haviam se passado desde que todas as certezas que tinha sobre o sexo em sua vida foram sido abaladas em sua totalidade. 
Suspirou e parou por um instante. Que final de semana sem-fim havia sido aquele! 
No princpio, ficara feliz quando Guilherme deixara a manso, logo depois de retornarem do apartamento de Sarah, dizendo a Vernica para no esper-lo de volta naquele fim de semana. 
O alvio, de qualquer forma, durara pouco. Naquele dia, Christhianne ficara acordada por muito tempo, pensando no que Guilherme poderia estar fazendo com sua namorada. Atormentou-se com imagens erticas e Um cime insano. 
A cada minuto lembrava-se do que ele lhe falara sobre como sentira-se atrado por ela desde o primeiro momento em que a vira. E de como ficara excitado durante todo o jantar, Sentia-se estranhamente torturada diante da idia de que poderia ser ela a estar entre os braos dele, e no Shani. 
No conseguiu pregar os olhos nem por um segundo. Era como se, de uma hora para outra, compreendesse o verdadeiro poder do sexo. Podia ver por que as pessoas transgrediam as normas de moral mais elementares quando eram vtimas da luxria. 
Mas todo aquele novo conhecimento no tornava sua situao mais fcil. Ainda sentia uma atrao desesperadora por Guilherme Hunter. Um homem que desprezava... E aquele era o xis da questo. 
Se se tratasse de outro qualquer, Christhianne encararia os prprios sentimentos sem medo de perder o respeito por si mesma. Mas como podia sucumbir a algum que seduzira Sarah, gerando e depois abandonando Madelleine? 
O bom senso e a mais simples decncia clamavam para que colocasse de lado um desejo to imenso e, por isso mesmo, desastroso. Contudo, Christhianne era incapaz de tomar aquela atitude. Era uma obsesso que dominava sua mente todo o tempo. 
No sbado, ela e Vernica foram at o parque pela manh, passeando com Madelleine em seu novo carrinho de beb. E ento, resolveram parar em um caf local para um lanche rpido. 
Fora uma bela manh de primavera. O sol, muito brilhante, mas sem ser quente demais. Depois de voltarem para casa, Christhianne dera banho em Madelleine, alimentara-a e colocara-a para dormir, em seguida. 
Mais tarde, juntara-se a Vernica para colher algumas rosas no jardim, e as duas se dedicaram durante horas fazendo arranjos para os vasos de toda a residncia. 
Em vrios momentos daquele fim de semana, Christhianne tinha de admitir, sentira-se muito feliz. Entretanto, por dentro, ainda recriminava-se por no ser capaz de dominar o que lhe ia no ntimo em relao a Guilherme Hunter. 
Cada vez que Vernica trazia o nome do filho  baila, o que era bastante freqente, Christhianne ficava tensa. Evidente que tentava no demonstrar nada, mas era necessrio usar toda sua habilidade de atriz. 
Para ser franca, ela at ficara aliviada quando Vernica sara, depois do jantar do domingo. Uma amiga do clube de bridge tinha telefonado explicando que uma das jogadoras habituais faltara, por no estar passando bem, e precisavam 
de uma quarta jogadora. No comeo Vernica negou-se, mas, como Christhianne insistiu, acabou aceitando. 
Naquele momento, no entanto, arrependia-se de haver insistido para ficar sem companhia. Estar sozinha naquela manso enorme, imersa em suas conjecturas, no era uma boa soluo. 
Levantando-se, caminhou at a janela e observou o cu estrelado. Uma agradvel brisa fazia as folhagens do jardim curvarem-se. No mais, tudo era tranqilo e silencioso. 
Com alguma sorte, alis, no seria obrigada a se confrontar com o objeto de seu tormento at a manh de segunda-feira. Virando-se, dirigiu-se at o quarto ao lado, ligado ao seu por uma porta. Madelleine continuava dormindo como um anjinho. 
Ao instalar Christhianne e Madelleine naqueles aposentos, Vernica confessara que a decorao daquela parte da casa, assim como a porta de comunicao, tinha sido feita tendo em mente a possibilidade de que seu filho mais novo, Mark, e a mulher tivessem logo uma criana. 
Christhianne ouvira em seguida toda a histria de Matk, que parecia ser um sonhador irresponsvel; sobretudo no que dizia respeito ao dinheiro. No era em nada parecido com seu irmo mais velho. 
Pelo visto, havia srios motivos para o comportamento de Guilherme. A morte inesperada do pai, sete anos antes, colocara uma carga enorme sobre seus ombros. Durante todo aquele tempo, ele tivera de tomar para si a responsabilidade por todos os rumos da famlia. 
Guilherme retornara ao lar logo depois de se formar na universidade, apenas para ajudar os entes queridos. E encontrou muita coisa com que se preocupar. 
O pai tambm no tinha sido um grande administrador, e quase todas as propriedades dos Hunter estavam comprometidas com hipotecas. Essa informao fornecia dois motivos para que ele vivesse naquela manso com a me. Em primeiro lugar, porque no havia horas suficientes no dia para que cuidasse de si mesmo. E em segundo, porque assim economizar a quantia que fora usada para quitar todos os dbitos com maior rapidez. 
Era claro que tudo caminhava bem, agora. O atual chefe dos Hunter provara ser um excelente administrador e investidor financeiro. Seguira a trilha de seu av, que tinha feito milhes nos anos ps-guerra. Uma fortuna quase toda perdida pelo filho em investimentos especulativos de alto risco. 
No momento, alis, no existia mais necessidade de Guilherme continuar vivendo naquela casa, Vernica afirmara. Ela suspeitava que o filho continuava ali por sentir que a querida me ficaria sem sua companhia. 
Christhianne, porm, desconfiava que ele fazia isso porque sabia que era mais fcil ter outra pessoa, de preferncia uma mulher, cuidando de todos os pequenos detalhes para lhe dar conforto e sossego. Assim, ficava livre para fazer o que considerava importante de verdade: ganhar dinheiro e seduzir garotas. 
aMais uma vez, olhou para a menina adormecida e sentiu o corao apertar-se. Madelleine era um beb lindssimo. Quando a via, era como se Sarah tivesse ressurgido das cinzas. A menina possua a mesma pele perfeita da me, as longas sobrancelhas e os lbios bem desenhados. Qualquer um podia ver que seria uma mulher linda quando crescesse. Iria precisar tanto da proteo de um pai quanto de uma me.  
- E um pai voc vai ter, minha querida - garantiu, num sussurro. 
Depois de certificar-se de que tudo ali estava em ordem, Christhianne saiu do dormitrio, deixando a porta entreaberta para poder ouvir, caso a criana comeasse a chorar durante a noite. 
De volta a seu prprio quarto, considerou a possibilidade de descer para assistir a um pouco de televiso, mas de imediato descartou a idia. Afinal de contas, j havia tomado banho e estava de camisola. A perspectiva de Guilherme chegar e encontr-la usando lingerie parecia pssima. Decerto ele pensaria que estava se oferecendo. 
"Fique longe do fogo se no quiser sair queimada", advertiu a si mesma. 
E ficar s com Guilherme Hunter poderia ser um verdadeiro incndio. Nem precisava olhar para ver que seus mamilos j haviam intumescidos, como ficavam cada vez que ela se lembrava dele.
No, o melhor mesmo era ir para se deitar. Pegara um livro na biblioteca de Vernica. Era uma novela policial que parecia bastante promissora, e Christhianne tinha a impresso de que ainda estaria lendo quando Vernica cheegasse. O que aconteceria por volta de onze e meia, segundo ela dissera. 
Christhianne acabara de tirar o robe quando o som de uma porta batendo no andar inferior chamou sua ateno. Vernica no teria feito um barulho daquele. Apenas um homem podia ser to desastrado, tendo um beb adormecido por perto. 
Guilherme, ao que parecia, por fim resolvera retornar. Ela o ouviu chamar pela me, sem receber resposta. Percebeu que subia as escadas, e ouviu seus passos dirigindo-se para o aposento. Ento, percebeu que ele voltava logo depois. A pulsao de Christhianne quase parou quando o rudo do caminhar cessou bem na frente de seu quarto. E voltou a acelerar-se quando ouviu as batidas na madeira. 
- Christhianne, voc est a? 
Ela agarrou a maaneta com ambas as mos para impedi-lo de vir-la. Se houvesse uma trava, ela teria usado, mas no existia; nem mesmo chave ou fechadura. 
- Sim, Guilherme. Por qu? 
- No consegui encontrar minha me. - Guilherme parecia nervoso e impaciente. 
- Vernica saiu. Foi jogar bridge. 
- Mas no  a noite de ela jogar bridge! 
- Foi substituir algum. 
- Pelo amor de Deus! Abra logo esta porta e fale comigo direito. Mal posso ouvi-Ia. 
- No posso. No estou vestida. 
- A essa hora? Desde quando mulheres crescidas vo para a cama antes das oito e meia? 
- Passa a ser assim quando elas tm de acordar no meio da madrugada para cuidar de seus filhos. Agora, v embora e me deixe em paz. 
Guilherme hesitou por um instante, e ento partiu. Poucos minutos depois outra porta foi batida, e logo em seguida era possvel ouvir o barulho de gua caindo. 
Quando Christhianne se sentiu segura o suficiente para 
soltar a maaneta, seus joelhos pareciam gelia. Sentia-se indefesa, e lgrimas rolaram por suas faces. Com raiva de si mesma, secou-as e se deitou no leito. 
- No vou chorar por aquele homem - disse, resoluta, apanhando o livro para comear a ler. Entretanto, ainda estava na primeira pgina, muitos mi- nutos mais tarde, quando o chuveiro, afinal, foi desligado. Sentia-se tensa, e ouvia cada movimento de Guilherme. 
Depois de respirar fundo vrias vezes comeou a relaxar, e voltou  leitura. E foi a que o som de uma porta se  abrindo e se fechando fez seus nervos ficarem em estado de alerta total mais uma vez. 
Guilherme andava em direo a seu quarto, de novo, aproximando-se cada vez mais. Christhianne rezou para que ele passasse direto, indo descer os degraus, mas, por instinto, soube que no. Guilherme no ia fazer aquilo. 
E estava certa. Ouviu-o parar diante de seu dormitrio. 
A batida abrupta fez seu corpo retesar-se. 
- Christhianne? - ele chamou num murmrio rouco. 
Ela no respondeu, e sua respirao congelou ao mesmo tempo que o corao se ps a bater descompassado. Como se no ntimo desejasse que Guilherme apenas entrasse ali, sem pedir permisso. 
- Sua luz ainda est acesa - Guilherme insistiu. 
- Eu... estou lendo. 
- Ns temos de conversar. 
- No temos, no - retrucou, num tom incapaz de esconder o pnico que sentia. 
- Tenho coisas a lhe dizer. 
- Diga-me de manh. 
- No, preciso falar agora... ou no conseguirei dormir. 
Quando viu a maaneta girar, Christhianne pulou da cama como uma gata, e colidiu: com Guilherme, que acabara de entrar. 
Suas mos ergueram-se num gesto de defesa, para encontrar a pele nua e coberta de plos negros. 
- Oh! - ela exclamou, e seus olhos faiscantes focalizaram aquele trax musculoso por um instante, antes de se erguerem para encar-lo. 
Guilherme vestia um pijama de seda preto, recoberto por um roupo aberto. Os ps estavam descalos, e a epiderme que ela sentia sob as palmas era fria, quase glida. 
Christhianne tentava no olhar ou sentir, mas ambas as coisas pareciam impossveis de se evitar naquele momento. 
Seus olhos no obedeciam seus comandos mentais. E quanto a suas mos, pareciam ter se congelado sobre o peito musculoso: Como se toda aquela masculinidade a atrasse como um m. 
Sua cabea parecia prestes a explodir por causa do desejo. De sbito, o tamanho de Guilherme no a intimidou mais. Na verdade, a atraa de maneira irresistve1. Queria tocar cada milmetro dele. Descobrir do que era feito aquele homem. 
Era como se estivesse possuda, percebeu com amargura, incapaz de se desviar de Guilherme. Como se algum, uma estranha completa, tivesse se apossado dela. Uma que era imprudente e muito tola, que estava prestes a ignorar o fato de que aquele era o ltimo ser do planeta por quem deveria deixar-se seduzir. 
Seu crebro parecia gritar, dizendo que no era tarde demais para interromper aquilo. Mas ele no tinha poder algum contra os comandos de sua recm despertada sexualidade. Com todos os seus desejos urgentes e seus apelos lascivos, cheios de promessas... 


CAPTULO 17 

Guilherme apenas queria dizer a Christhianne que encontrara o verdadeiro pai de Maadelleine. Afinal, passara todo o fim de semana procurando por ele. 
Voltara correndo para casa, ansioso para dizer a verdade tanto para sua me quanto para Christhianne, colocando fim quele mal-entendido. Tambm planejava oferecer uma generosa quantia de dinheiro para Christhianne e a criana. Assim, sua conscincia no viria a incomod-lo mais tarde. 
Chegara  manso desesperado para fazer tudo isso antes de ir para a cama, para tentar ter uma noite de sono decente, talvez a primeira desde a sexta-feira. E o que tinha acontecido? Vernica tinha sado, e Christhianne no queria falar com ele. 
Aonde tanta impacincia o levara?! Agora estava no quarto, com uma quase nua Christhianne olhando-o de uma maneira como nunca o olhara antes. Pior, ela na verdade estava tocando com suas mos quentes a pele que Guilherme tentara, desesperado, acalmar e manter sob controle com um banho gelado. 
Por poucos segundos, Guilherme tentou lutar contra a nuvem de desejo que obscureceu suas idias. Mas era difcil conseguir aquilo quando hristhianne era to desejvel. 
Seus vistosos cabelos negros caindo de forma selvagem sobre os ombros nus, os mamilos rgidos projetando-se atravs do fino tecido de seda azul, os lbios carnudos e sensuais, abertos da maneira mais provocante que existia... 
O que devia fazer? Parar e procurar compreender o que estava acontecendo? Recusar-se a toc-la at que Christhianne ouvisse e acreditasse que ele no era o rato que ela acreditava que fosse? 
Com qualquer outra mulher Guilherme teria sabido como agir, com a maior facilidade. Mas com aquela, ele no podia sequer pensar com clareza. Tinha de toc-la de imediato, necessitava fazer amor com ela. Precisava disso! 
Tais sentimentos impulsivos no eram aceitos com facilidade por Guilherme. Ele ainda no gostava daquela perda das rdeas no que dizia respeito a Christhianne. Ou da confuso que ela provocava nele. Mesmo rendendo-se ao inevitvel, sentia-se irritado consigo mesmo. 
E com ela. 
Christhianne viu os olhos de Guilherme estreitarem-se, brilhantes. Sabia o que iria acontecer; O ar que os cercava parecia carregado de eletricidade. 
"Sim, beije-me", ela pensou, disposta a se entregar quela volpia selvagem. "Beije-me, toque-me. Faa qualquer coisa que voc quiser comigo." 
Fechando a porta com um chute, Guilherme segurou Christhianne pelos pulsos e colocou seus braos para trs. Seu corpo arqueou-se, e ela suspirou, observando quando a cabea dele inclinou-se, no para capturar seus lbios, mas indo direto para o fino tecido que cobria seus seios. 
A boca de Guilherme se apossou do mamilo j intumescido e comeou a sug- lo com fora e nsia surpreendentes, que fizeram Christhianne deixar escapar pequenos gemidos de prazer. 
Ele parou por um instante, e a observou. Era um homem selvagem, com olhar selvagem. 
Guilherme largou os pulsos de Christhianne e ento, num gesto abrupto, livrou-a da camisola, retirando as alas dos ombros e deixando a pea cair ao cho. 
Christhianne retesou-se, mas no se moveu. Ficou ali, nua, enfeitiada. 
Guilherme examinou-a por um longo momento antes de despir-se rpido. Houve pouco tempo, apenas um breve laivo, para que Christhianne contemplasse o impressionante corpo de Guilherme antes que ele a tomasse nos braos e a carregasse para a cama. 
E ento, l estavam eles, beijando e abraando um ao outro. 
Suas lnguas se tocavam, suas pernas se entrelaavam. As mos se exploravam, frenticas. 
Guilherme gemeu quando os dedos dela roaram o ponto mximo de sua virilidade, e voltou a fazer isso quando a carcia tomou-se ainda mais ntima. 
Ele murmurou algum tipo de protesto e tomou-a pelos braos, segurando-os logo acima da cabea de Christhianne, com uma mo que mais parecia uma tenaz. A outra escorregou por todas as curvas de Christhianne, e ento insinuou-se entre suas pernas. 
Em toda sua vida, Christhianne jamais experimentara algo mais excitante ou eltrico. Movimentava-se, enlouquecida, de l para c, querendo mais e mais. Seu corao batia cada vez mais forte. As sensaes se sucediam, enquanto aqueles dedos impiedosos a exploravam e excitavam. 
- Oh, por favor, Guilherme! Por favor! 
Cada fibra de Christhianne implorava por ser satisfeita. 
Queria ele, no suas mos. Suas pernas se moveram, separando-se de forma convidativa. 
E ento l estava Guilherme, insinuando-se, obedecendo sua necessidade de se dar por inteiro. 
Ao sentir a fora e o poder da possesso dele, Christhianne deixou escapar um suspiro, e ento gemeu quando Guilherme comeou a se mover. Inspirada por um instinto primal, ela acompanhava o movimento balanando os quadris. No demorou muito tempo e uma presso comeou a se formar dentro dela. Sua mente rodopiava, e o ar parecia mais denso do que o normal. 
Christhianne comeava a pensar que poderia ter um ataque cardaco, quando, de sbito, algo pareceu explodir dentro de seu corpo. Ondas de espasmos sucederam-se com violncia, trazendo consigo uma sensao atordoante de prazer. 
Gemendo, afundou o rosto no travesseiro e fechou os olhos com fora. Mas o grito torturado de Guilherme fez com que tornasse a abri-los, e Christhianne observou-o chegar ao xtase, arqueando as costas e se dobrando para trs. 
Sentia-o inteiro dentro de si. Apreciava seu calor, e uma satisfao to absoluta a invadiu que a fez temer o desejo de experimentar aquilo de novo, e repetir sempre. 
Foi ento que um pensamento sombrio e amargurado a acometeu. 
Guilherme fizera Sarah de tola. E agora, faria dela uma tola. Se ela deixasse.


CAPTULO 18 


Guilherme desabou sobre Christhianne, exausto. Por um breve momento, no pde raciocinar, tomado que estava pela delcia que ainda experimentava. Levando em conta toda sua experincia sexual,  nada podia se comparar ao que ele e Christhianne haviam experienciado. 
Santo Deus! Onde fora parar seu juramento de evitar Christhianne a todo custo? 
Pouco a pouco, Guilherme ergueu-se sobre os cotovelos e encarou-a. Quando, porm, percebeu a frieza dos olhos negros, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. 
- Fico feliz em saber que voc sempre usa preservativos - ela disparou. 
Um murmrio escapou dos lbios de Guilherme. Sua credibilidade estava ainda mais abalada. Qualquer coisa que dissesse sobre o misterioso namorado de Sarah no seria aceita naquele momento. E o pior  que agora existia a possibilidade de que ele realmente tivesse concebido uma criana sem querer. 
Desde que encontrara Christhianne, sua vida tornara-se bastante complicada... 
- Isso significa que estamos com um grande problema? 
- ele perguntou, parecendo calmo. 
- Por sorte... no.  
Guilherme no conseguiu esconder seu alvio. 
- Isso  timo! Est tomando plulas, eu presumo... 
Christhianne lanou-lhe outro longo e frio olhar. - Certo. Ao contrrio da pobre Sarah. 
A princpio, Guilherme pensou em dizer algo em sua defesa, mas concluiu que no valia a pena se incomodar. Aquela questo em particular seria respondida quando o resultado do teste de DNA chegasse. Sabia que s a poderia contar-lhe a verdade. 
Mas, nesse meio tempo, o que fazer sobre o que tinha acabado de acontecer? - Ns precisamos mesmo conversar, Christhianne - ele observou, com seriedade. 
- No, no precisamos. - Ela o empurrou para o lado e rolou para a ponta do colcho. Sua expresso era desafiadora, e as pupilas cintilavam. - Falar sobre-o qu? Que ns fizemos sexo? Grande coisa... Voc queria, eu tambm. Resolvemos fazer, e fim da histria. 
Guilherme ficou chocado por perceber que a atitude dela o feria demais. Se Shani tivesse dito a mesma coisa, no teria se sentido ofendido. Teria dado risada. 
Mas aquela atitude fez com que um fino ressentimento queimasse seu peito. 
Como Christhianne ousava reduzir de tal modo aquilo que haviam experimentado? Nada alm de sexo? Podia no ter sido amor, mas fora mais do que dois animais acasalando-se. Havia algo emocional acontecendo ali. Algo complexo e muito, muito humano. 
- No fale uma bobagem dessas Christhianne! Se essa  mesmo sua opinio, devia ter me deixado fazer sexo com voc na cama de Sarah, na sexta-feira, porque l tambm queria tanto quanto eu. Em vez disso, me impediu, e acho que estava certa. Aquilo no teria sido de muito bom gosto. 
- E creio que no  de muito bom gosto de sua parte dormir comigo depois de passar o fim de semana na cama de outra mulher, no acha?! 
- Eu no fiz isso, mocinha. Fui ao apartamento de Shani, na noite de sexta, mas sa em seguida. Para ser franco, Shani e eu concordamos em terminar tudo. Passei o fim de semana num hotel. Descobri que no podia fazer amor com outra garota quando era voc que eu desejava. S voc, Christhianne. 
Por um segundo, Guilherme vislumbrou algo maravilhoso no olhar dela. As ris negras brilhavam de surpresa, prazer e... 

Mas ento aquela luz morreu, sendo substituda por uma fleuma implacvel. 
- Sinto muito, Guilherme, mas no acredito em voc. Assim como no acredito que usou preservativos com Sarah. A nica coisa que posso fazer  rezar para que no tenha o hbito de praticar sexo inseguro, como hoje. Agora, se no se importa, vou at o banheiro. 
Guilherme ficou estendido no leito, esperando pelo retorno de Christhianne, furioso por se importar tanto com a opinio dela. 
Enquanto os minutos passavam, sentia-se cada vez mais tentado a revelar os fatos que descobrira havia pouco. Mesmo sem ter prova nenhuma. 
Ainda iria convencer Christhianne de que ele no podia ser o pai de Madelleine e que Sarah no tinha pedido sua ajuda. E a talvez... bem, podia ser que... 
"Talvez o qu?", uma voz interior perguntou. "Voc, na certa, no pretende chegar a lugar nenhum com isso, no ?" A irritao dominou-o por inteiro. 
Quando Guilherme ouviu o barulho do chuveiro, uma forma diferente de frustrao feriu seu ego. Era como se Christhianne no pudesse esperar para lav-lo do prprio corpo. Como se estivesse se sentindo suja, ou algo do gnero. 
Em sua opinio, nada de errado acontecera ali, naquela cama. Fora uma experincia muito especial para ambos, e seria melhor que Christhianne reconhecesse isso logo. Melhor ainda se reconhecesse que Guilherme no era um canalha sem sentimentos. 
Christhianne demorou muito no banheiro, mesmo depois que o chuveiro foi desligado. De fato, demorou tanto que Guilherme ficou tentado a ir at l e escancarar a porta. 
Estava prestes a fazer isso quando ela voltou ao aposento, com uma expresso zangada, carregando o beb nos braos. 
- Acho que o barulho do chuveiro a acordou - explicou, corando um pouco.  - Droga! Vou ter de fazer uma mamadeira, agora. Incomoda-se de segur-la por um momento enquanto vou at l embaixo? 
Lembrando-se da ltima vez em que segurara Madelleine, Guilherme experimentou um breve momento de pnico, mas conseguiu escond-lo, tentando redimir-se aos perante Christhianne. 
- Claro - assentiu, fingindo casualidade e ajeitando-se de maneira confortvel, ao mesmo tempo que arrumava os travesseiros. - Traga-a aqui. 
- Voc se incomodaria de colocar alguma roupa primeiro, por favor? - Christhianne pediu, encarando-o. 
Guilherme duvidava que um beb de trs meses se incomodasse com sua nudez, mas era melhor no discutir. 
Saindo do leito, pegou a cala do pijama e vestiu-a. Achando que j havia satisfeito o pudor de Christhianne, voltou a sua posio anterior. 
- Pronto. 
Christhianne fitou de relance seu peito nu, mas no disse nada, limitando-se a suspirar. Avanou e entregou-lhe a criana. - Vou tentar no demorar muito. Se Madelleine chorar, embale-a ou ande devagar pelo quarto. E cante para ela. - Certo. 
Muito embora Guilherme tivesse se lembrando de como sua voz grave assustara a criana, da ltima vez. 
Com um pouco de sorte, no precisaria fazer nenhuma daquelas coisas, muito menos cantar. Na verdade, era to desafinado que no fora nem mesmo aceito no coro da escola. 
Mas, como se fosse uma coisa do destino, bastou Christhianne partir para que o beb desse uma boa olhada no homem a seu lado, pondo-se a chorar no mesmo instante. 
Mais uma vez, Guilherme tentou de tudo, embalando-a, andando pelo aposento e tomando cuidado para no fazer movimentos muito bruscos. Aquilo funcionou um pouco, at que a pequenina criana percebesse quem a estava embalando e comeasse a chorar de novo. 
- No adianta, Madelleine, eu no vou cantar de jeito nenhum. Tambm no sou muito bem em contar histrias... Ei, lembrei-me de uma coisa! Dizem que nessas horas  bom falarmos sobre algo que conhecemos. Muito bem, ento l vai. 

Guilherme comeou a fazer uma descrio de seu trabalho, fazendo uma pausa para respirar, logo depois. S a se deu conta de que Madelleine havia se aquietado. Na verdade, seus grandes olhos azuis estavam fixos nele, como se prestasse ateno. Quase como se pudesse entender aquilo que ele dizia e esperasse por mais. 
- Ora, ora, quem diria? - Guilherme sussurrou, aliviado. _ Ela gosta de me ouvir falar sobre negcios... Mas que garota esperta voc ! - elogiou-a, contentssimo por ter encontrado uma maneira de aquiet-la. - Veja bem continuou, voltando a sentar-se na cama com a criana nos braos - a rea de comrcio exterior  como uma grande arena internacional de esportes.  um jogo muito complexo, disputado vinte e quatro horas por dia. Tem milhares de regras diferentes, e muitas armadilhas. Mas, quando nos tornamos mestres nesse jogo, passamos a saber como evit-las. No h nada mais excitante que isso! Sei que tem muito para aprender, Madelleine, mas, se quiser se dedicar a isso em particular, minha menina... Bem, por onde eu comeo? 


CAPTULO 19 



Christhianne ouviu Madelleine comear a chorar quando estava descendo a escada, mas no voltou porque sua necessidade de estar longe de Guilherme era maior do que a preocupao com o beb. 
Madelleine no ia morrer por chorar um pouco. Mas, se Christhianne continuasse no mesmo quarto que Guilherme Hunter, tinha a impresso de que poderia esgan-lo. 
Quanta petulncia a daquele homem! E a arrogncia e falta de sensibilidade, ento? 
Ser que Guilherme conseguiria entender como o fato de ter ido para a cama com ele a estava afetando? Como aquilo feria seu orgulho, seu respeito prprio? 
"Claro que no", Christhianne concluiu, irritada. Homens como Guilherme no pensavam em nada disso. Mulheres eram apenas objetos sexuais para se brincar. 
Que mentiroso! Dizer que no tinha ido para a cama com a namorada no fim de semana... e ainda mais, que rompera com a tal Shani por causa dela. 
A prxima coisa que Guilherme iria dizer era que ainda acreditava em Papai Noel. 
E ainda havia mais: ele no usara preservativo. Algo que assegurara nunca fazer. Certo. Talvez costumasse usar para se proteger, a maior parte do tempo. Mas naquela noite provara ser to fraco quanto qualquer um. 
Christhianne perguntava-se o que teria acontecido se ela lhe dissesse a verdade, que no estava usando plulas. No sabia por que mentira sobre o assunto. Seria divertido ver a expresso no rosto dele!  
No contara nada, para deix-lo tranqilo, mas no sentia necessidade de explicar que conhecia seu corpo como um relgio, e sabia que estava em uma poca segura. Graas a Deus, no haveria nenhum beb como resultado do que acontecera no quarto. 
Depois de soltar um suspiro, decidiu que o verdadeiro motivo que a fizera mentir sobre a plula era seu desejo de faz-lo achar que era uma mulher sexualmente ativa. No queria que Guilherme desconfiasse que alguns anos j se haviam passado desde seu ltimo encontro sexual. 
Assim seria mais fcil faz-lo acreditar que o que acontecera entre os dois fora apenas sexo. Uma coisa nada especial para ela... 
Porque Guilherme era apenas uma... uma aberrao. 
Gente assim gostava de ter poder sobre o sexo oposto. Lembrava-se muito bem do brilho triunfante nos olhos azuis de Guilherme ao v-la atingir o clmax. Ele tambm gostara de v-Ia implorar por mais, e s ficara um pouco aborrecido quando Christhianne deixara a cama to de repente. 
Bem, ela no iria implorar da prxima vez. Christhianne respirou fundo. A prxima vez... J estava pensando nisso?! Cus! O que acontecia com ela? 
Com a mo trmula, apanhou a mamadeira do banho-maria e testou sua temperatura no pulso. Hora de subir, tirar Madelleine dos braos tentadores de Guilherme e escapar para o santurio do quarto do nen. 
Ps-se a subir os degraus, apressada, quando o silncio a surpreendeu. No havia um nico som vindo do andar superior. Arqueando as sobrancelhas, apurou a audio. Nenhum sinal de choro de criana. 
Quando atingiu o corredor, pde escutar uma voz grave insinuando-se pela fresta da porta. Guilherme falava de maneira firme, como se estivesse lendo uma histria para Madelleine. Christhianne aproximou-se e ouviu, arregalando os olhos ao distinguir o que ele dizia. 

No era Alice no Pas das Maravilhas, Branca de Neve e os Sete Anes ou Cinderela. Guilherme contava para Madelleine tudo sobre comrcio exterior! 
Aturdida, Christhianne aproximou-se, p ante p, da soleira, e observou a cena. Guilherme continuava sentado na cama, com os joelhos um pouco erguidos. Madelleine encaixara-se com perfeio em seu colo, e ele segurava a menina com ambas as mos. O contraste entre o tamanho de ambos o fazia parecer ainda mais um urso enorme. 
Madelleine o encarava, fascinada, corno se estivesse diante de um dos deuses do Olimpo. Corno a me, a pequena menina se deixava cativar com toda a facilidade por um homem. 
Muito zangada, Christhianne entrou, parando no meio do aposento para enfrentar Guilherme. Ele a ignorou, e continuou a educar sua filha sobre os vrios truques que aprendera no mercado internacional nos ltimos anos. 
- Os espertos sempre vem QS sinais, Madelleine. Nunca podemos esquecer a Bolsa de Valores. Falarei sobre isso em detalhes outro dia, porm, pois sua mame j chegou com a mamadeira. Vou ter de deixar o resto para depois, doura. 
Christhianne percebeu urna estranha sensao na boca do estmago ao ouvir Guilherme cham-la de "mame" e Madelleine de "doura". O mesmo ocorreu quando o viu retirar a pequena Madelleine de seu colo e ajeit-la com todo o carinho entre seus braos. 
- Posso aliment-la, se voc quiser, Christhianne - ele  se ofereceu, estendendo o brao. - Assim, voc poder descansar um pouco. 
Christhianne engoliu em seco. E, com relutncia, entregou-lhe a mamadeira. 
Sentia-se confusa. Sonhara ver Guilherme aceitando seu papel de pai, e, agora que aquilo parecia acontecer, por que ser que a incomodava tanto? 
Como continuar a odi-lo vendo que era capaz de tanta ternura? 
A criana comeou a mamar e levou sua pequena mozinha at o rosto dele, num gesto afetuoso. A viso era muito comovente. 
Guilherme ergueu a cabea, com urna estranha expresso no semblante. 
- Sabe, Christhianne, eu jamais negaria ser o pai de Madelleine se eu imaginasse que era. Voc precisa acreditar nisso. 
Pela primeira vez, ela sentiu uma dvida real, e Christhianne sentiu-se enjoada. 
Guilherme voltou a olhar para Madelleine mas continuou falando, numa entonao grave e controlada: - Acho que sei quem  o pai. Passei todo o fim de semana tentando descobrir. 
- Voc fez isso? - ela indagou, num murmrio. 
Mais uma vez ele a fitou. 
- Sim, eu lhe disse que no fiquei com Shani. Santo Deus! O que tenho de fazer para voc acreditar em mim? Raciocine, mulher! Que motivo eu teria para mentir? Concordei em fazer o teste de DNA amanh, mas j sei qual ser o resultado. Sei tambm que voc acha que o que aconteceu aqui hoje prova que sou irresponsvel, mas juro, Christhianne: essa foi a primeira vez em doze anos que me esqueci de usar preservativos. Isso  um ponto de honra para mim. 
Christhianne estava inclinada a crer. Pelo menos quanto aos preservativos. 
- Comigo sempre foi assim, tambm. At ento, nunca havia me descuidado. 
- Acho que foi a primeira vez para ns dois em vrios sentidos, no ? - Guilherme perguntou, com suavidade. 
- O que voc quer dizer? 
- Que foi algo muito especial, Christhianne. Algo nico. No sei sobre voc, mas eu nunca me senti assim com outra mulher. Para ser honesto, nem sei se estou gostando da sensao. Vivi minha vida de forma bastante ordenada. Gosto de estar no controle de tudo. Uma paixo maluca no estava nos meus planos. Mas no sou o nico a... 
- No  amor - interrompeu-o com firmeza, atordoada com o rumo que aquela conversa comeava a tomar. - Foi apenas luxria. 
- Voc parece certa disso. 
- Tenho certeza absoluta. J experimentei a mesma coisa vrias vezes. 
Guilherme parecia surpreso. 
- Quer dizer que o que houve no teve significado para voc? J havia sentido a mesma paixo antes? 
-  sempre muito excitante; na primeira. 
Guilherme apenas encarou-a, e naquele momento Christhianne sentiu-se a pior entre as piores: barata e envergonhada. 
- Pode terminar isso? - Guilherme pediu, erguendo-se e estendendo o beb para ela. - Estou perdendo meu tempo aqui com vocs duas. 
- Mas no ia me dizer o que descobriu? 
Os olhos azuis estavam turvos pelo desgosto. 
- De que adiantaria? No tenho nenhuma prova, apenas evidncias. S espero que, quando o resultado do teste de DNA chegar, minha me no esteja muito ligada a essa doce menina, porque ela no merece ser ferida. J passou por muito sofrimento. A meu ver, seria bom se voc pensasse nisso um pouco, em vez de ficar apenas com seus preconceitos e hipocrisias. E eu realmente espero que tenha gostado de sua primeira vez comigo, doura, porque ela tambm foi a ltima!  
Apanhando o roupo do cho, Guilherme saiu do quarto, batendo a porta atrs de si. Assustada com o barulho, Madelleine comeou a chorar. 



CAPTULO 20 

Guilherme resmungou algo para si mesmo assim que ouviu a batida da porta, e entrou em seus aposentos. Nunca fora um homem de extremos at encontrar a srta. Christhianne Highsmith, e aquela exploso emocional o incomodava. 
-  sempre muito excitante da primeira vez - ele imitou-a, cerrando os dentes. 
Christhianne conseguira atingi-lo em cheio. Ento, ela sempre experimentara grande prazer no sexo... Bem, assim como ele! 
Mas o que acontecera entre os dois no fora apenas isso, mas sim uma grande experincia, uma combinao de algo emocional e fsico. Pelo menos era o que sentia. 
Era bvio que Christhianne no tinha sensibilidade o bastante para notar a diferena. 
Caminhou irritado pelo quarto, de um lado para o outro. Chamou-a de todos os nomes impronunciveis que conhecia. Quando no conseguiu pensar em mais nada, sentou-se na beira da cama. Nem adiantava tentar dormir, ele sabia. Sendo assim, levantou-se e foi at o computador, que mantinha no dormitrio. 
- O melhor mesmo  trabalhar - murmurou, sentando-se. Sua mente, porm, parecia incapaz de fugir dos devaneios. Primeiro, lembrou-se de Christhianne, o que o fez olhar para o leito e examinar todo o amplo aposento. Aquele sempre fora o quarto principal da casa. Mas, depois que seu pai morrera e Guilherme voltara a viver com a me, Vernica insistira para que se instalasse l. Aps muito discutir, Guilherme acabara concordando.  
Tinha de admitir que era o nico quarto da manso que possua espao suficiente para instalar um pequeno escritrio, alm de toda a moblia habitual. 
Mas a idia de dormir na cama de seus pais havia sido muito desconfortvel. Por trs da porta, Guilherme ouvira muitas discusses naquele lugar. E conhecera uma jovem arrumadeira que se tornara amante de seu pai sob aquele mesmo teto. 
S Deus podia saber quantas outras ele tivera... 
Para sepultar tais recordaes, e com a permisso de Vernica, Guilherme doou toda a moblia para caridade, e comprou um leito novo, que mandou fazer sob medida numa carpintaria local. Agora, uma das paredes tinha prticos armrios embutidos. A outra servira para que instalasse seu escritrio compacto, com um computador ligado ao sistema da empresa. Completava o conjunto eletrnico um televisor, o videocassete e o aparelho de som. 
No que Guilherme usasse muito aquelas coisas. Mas elas estavam l, para um caso de necessidade. 
O aposento de Vernica ficava no andar de baixo, onde no passado fora o escritrio de Henry, seu pai. Ela quase nunca subia para os quartos, e Guilherme pagava uma faxineira, que aparecia todas as segundas e sextas-feiras para fazer a limpeza pesada, bem como lavar a roupa. 
A cozinheira, June, vinha todas as tardes por algumas horas. Aquele era um dinheiro bem gasto, em sua opinio. Assim, Vernica ficava com tempo livre para praticar jardinagem, que tanto adorava.  
Ao pensar na me, sua memria voltou ao que descobrira no fim de semana. No pretendia contar nada a Christhianne, por enquanto, mesmo que fosse s por teimosia. Mas  desejava muito que Vernica soubesse. Por isso, desceu as escadas, minutos depois, servindo-se de um clice de vinho do Porto e sentando-se em frente  tev da sala de estar, esperando pela chegada dela. 
Pouco depois das onze, Guilherme ouviu o barulho da chave virando na porta da frente. Permaneceu onde estava, sabendo que a curiosidade de Vernica a levaria at ele. _ Oh,  voc, querido... - Vernica sorriu, parecendo um tanto decpcionada como se preferisse encontrar Christhianne. - Sim, mame. - Guilherme ficou amuado. - Seu filho adorado. 
- Onde est Christhianne? Por acaso foi incomod-la em seu quarto? 
- Lgico! Afinal, sou Guilherme, o Inconveniente, no ? Isso, sem mencionar os rtulos de sedutor implacvel e canalha que abandona mulheres grvidas. Mas, respondendo a sua pergunta, Christhianne est l em cima. Por sorte, esta casa  grande o bastante para que no tenhamos de suportar a presena um do outro. 
Vernica suspirou. - Vocs discutiram de novo... 
Guilherme quase sorriu. Se ela soubesse!  Pode-se dizer que sim.
- E sobre o que foi, agora? 
- Digamos apenas que Christhianne e eu no podemos concordar em nada, mesmo que nossas vidas dependam disso. 
- Madelleine est dormindo? 
- Imagino que sim. J faz algum tempo que tudo est muito quieto por aqui. 
- Acho que tambm vou me deitar. Estou exausta. 
- Antes que faa isso, mame, tenho algo para lhe contar. 
Vernica encarou-o com um olhar questionador.  
-  um pouco tarde para confessar tudo, voc no acha? J sei que  o pai de Madelleine. 
-  justo sobre isso, me: no sou eu. O verdadeiro pai  Gunter Parsons. Andei investigando, no fim de semana, e descobri que Sarah teve um caso com ele. 
- Oh, Guilherme, Guilherme... - Vernica meneou a cabea. - Colocar a culpa num homem morto  uma coisa muito feia de se fazer. 
Guilherme mal podia acreditar no que ouvia. O que havia de errado com aquelas mulheres? 
- Mas, mame, Sarah dormiu com ele! Tenho certeza disso. 
- E tambm com voc, correto? Madelleine  sua filha, querido. Acredite nisso. 
- Mas ela nem mesmo se parece comigo. 
- No seja ridculo! Evidente que parece! Mas Madelleine  apenas um beb, e voc est cego demais para enxergar alguma semelhana. 
Guilherme fitou o teto. No havia nenhuma esperana de convenc-la. Levantando-se da cadeira, dirigiu-se at Vernica e colocou a mo em seu ombro. 
- Me, apenas no quero que saia magoada disso tudo. 
- Mas como isso poderia acontecer? Christhianne  uma garota adorvel e generosa, com um excelente corao. Ela  quer que eu e voc faamos parte da vida de Madelleine. 
- Mame, pelo amor de Deus! Ser que no est me 
escutando?!  
Guilherme encarou Vernica muito preocupado, mas podia ver nos grandes olhos azuis dela que aquele assunto j fora colocado de lado. 
- Sabe de uma coisa, meu filho? Quando deparei com Christhianne, parada  soleira de nossa manso, percebi que  Seu tipo de garota. Voc sempre gostou de mulheres voluptuosas. Os dois, alis, so to honitos... Por isso, achei que a atrao seria irresistvel. Porm, creio que estava esperando demais por pensar que podiam acabar se apaixonando e se casando. 
- Casamento! Pai Eterno! Ser que todos por aqui ficaram malucos! 
- Todos? De quem mais voc est falando? 
- De mim, mame. - Guilherme deu-lhe as costas, passando por ela em direo  escadaria. - De mim! 

CAPTULO 21 


No est se sentindo bem, Christhianne? - Vernica quis saber, quando saram do consultrio. 
Guilherme se fora antes, sem se despedir, rumando para o escritrio em seu prprio carro, e por isso Christhianne suspirara com alvio ao ver se sozinha com Vernica. 
O desjejum havia sido um pesadelo, assim como ter de sentar-se na sala de espera da clnica junto dele, esperando pela chamada do mdico. 
Guilherme no dissera uma s palavra durante toda a manh, nem mesmo enquanto a enfermeira tirava seu sangue e o de Madelleine. Apenas um pouco mais tarde perguntara com frieza se o resultado poderia ser apressado, e o doutor respondera que faria o possvel, mas duvidava que conseguiria algo antes de duas semanas. 
Christhianne, ento, vira os lbios de Guilherme curvarem-se, com desnimo, e soube que ele estava passando por maus pedaos, tanto quanto ela. 
- Estou tima, Vernica - mentiu. - Apenas um pouco tensa. Fiquei preocupada com a possibilidade de Madelleine estranhar a clnica. 
- Isso  compreensvel, mas ela s chorou um pouquinho. Veja! - Acenou na direo do carrinho do beb. - O anjo j voltou a dormir. 
- Sim, ela  uma boa menina... E bem dorminhoca. 
- Para mim, parece que  voc quem precisa de um bom sono. 
- Sim - Christhianne admitiu, num sussurro. - No dormi muito esta noite. 
- E eu sei por qu! Guilherme me contou. Christhianne gelou, e ento encarou Vernica. - Ele contou o qu? 
- Que vocs discutiram outra vez. 
- Oh... sim... Temo que isso seja verdade. 
- Posso entender quo irritada deve ter ficado sobre aquela histria de Gunter Parsons, querida. - Gunter Parsons? - repetiu, confusa. 
- O homem com quem Sarah teve um caso, de acordo com Guilherme. Ele era o contador-chefe da Hunter & Asssociados. Casado,  claro. No que isso impedisse Gunter de dormir com algum. Ele era um verdadeiro mulherengo, alem de ser muito bonito. Um tipo de fala mansa, sabe como . 
Christhianne arqueou as sobrancelhas. A descrio enncaixava-se  perfeio no tipo que Sarah sempre escolhia para se envolver. Mas por que aquele nome, Parsons, a deixara sobressaltada? 
- Pobre Joanna... - Vernica murmurou, fazendo Christhianne compreender tudo. 
Gunter devia ser o marido de Joanna, a mulher que fora convidada para jantar, na sexta-feira. 
Christhianne mordiscou o lbio inferior e comeou a avaliar as possibilidades. O fato de o tal Gunter ser casado podia explicar por que Sarah no queria revelar a identidaqe de seu amante. Talvez apenas tivesse usado Guilherme como um libi perfeito. 
- Voc disse que Joanna  viva, no, Vernica? 
- Sim, Christhianne, Gunter morreu num acidente de carro, no comeo do ano. Foi culpa dele. Tinha bebido demais antes de dirigir, perdeu o controle do veculo numa noite chuvosa e acabou batendo num poste. 
Por um instante, Christhianne tentou organizar todas aquelas informaes. Quando, de sbito, percebeu algo mais: o nome Gunter tambm comeava com a letra G. Todo o sangue desapareceu de seu rosto. "Santo Deus... o que foi que eu fiz?!" 
- Mas nada disso interessa, voc sabe - Vernica continuava. - Fui bem direta com Guilherme. A pequena Madelleine  filha dele, no adianta ficar apontando o dedo para outro sujeito.  melhor encarar a paternidade como um homem. 
Uma estranha fraqueza fez os joelhos de Christhianne fraquejarem. 
- Eu... acho que  melhor me sentar um pouco, Vernica. Encostou-se em um muro ao lado da calada. 
- Querida! - A sra. Hunter a encarou preocupada. - Voc est branca como papel! Devemos ir logo para o carro. O ar-condicionado vai faz-la sentir-se melhor. Est muito quente aqui fora. Deixe-me empurrar o carrinho de Madelleine. E, depois que chegarmos em casa,  melhor voc descansar um pouco. Cuidarei de Madelleine, no se preocupe. 
- Voc  muito gentil. - Christhianne, a muito custo,lutava para controlar as lgrimas. Era aquilo o que Guilherme ia lhe contar? Ele dissera que no queria que sua me ficasse magoada, pois j sofrera muito na vida. 
Christhianne supusera que ele se referia ao fato de Vernica ter perdido o marido, alm de seu filho mais novo ter abandonado a famlia para viver como um monge. E agora Christhianne aparecera, e alimentara as esperanas da pobre senhora sobre a neta que sempre desejara ter. Ela sentiu-se terrvel. Simplesmente terrvel! 
Guilherme caminhava de um lado para o outro no escritrio. Sua auto-estima estava em frangalhos. No conseguia nem se olhar no espelho. Comportara-se como um completo imbecil,naquela manh. Tratara a todas com absoluta frieza, agindo cama uma criana mimada. E depois sara da clnica sem trocar uma palavra at mesma com sua me. No era de estranhar que Vernica o tivesse encarado com tanto desapontamento. 
E quanto a Christhianne? Ela nem parecia a garota que tinha entrado em sua vida, na semana anterior, cheia de fogo e determinao. Naquela ocasio, parecera plida e frgil, com fundas olheiras. 
No caminho para o escritrio, Guilherme tentara entender todas as nuances do compartamento daquela mulher. Algum detalhe parecia estar fora da lugar. 
Por algum estranho motivo, ele no acreditava que Christhianne tivesse tanta experincia sexual quanto dera a entender. Afinal de contas, isso no combinava com a jovem que entrara em sua sala, acusando-o de ser imoral. 
Talvez ela estivesse representando. Era uma atriz, no devia se esquecer disso. Poderia estar evitando-o tanto porque tinha medo de ficar a seu lado. Temendo o que poderia dizer, sentir ou fazer. 
No tinha, sido apenas sexo para Christhianne, Guilherme conclura, enfim, quando atingira o pedgio da ponte. Claro, essa era a resposta! 
Quase passara direto pela cabine sem pagar, freando no ltimo segundo. O coletar examinou-o com um olhar estranho, e Guilherme se indagara se a homem o reconhecera da vez anterior, quando Christhianne estivera sentada a seu lado, chorando. 
Ela realmente possua muitas razes para odi-lo. Aceitou aquilo, deixando escapar um suspiro. Fora brutal desde o comeo, primeiro colocando-a para fora do prdio, depois acusando-a de ser uma vigarista. Comportara-se de maneira rude e hostil, e criara todo tipo de dificuldade. 
Para coroar tudo, quando achava que o que sentia no passava de um ataque inconveniente de luxria, tentara aproveitar-se dela num momento de vulnerabilidade, e ento, na ltima noite, ao perceber que a atrao era mtua, 

fizera amor com Christhianne como se fosse um homem possudo, sem nem mesmo proteg-la. 
No era de se estranhar que ela agora estivesse desesperada para se manter longe, a uma distncia segura. Na verdade, Christhianne fechara-se como uma concha. 
E agora ela no lhe daria mais nenhuma chance. Em duas semanas, aquela maa linda estaria fora de seu caminho, e para sempre. Bastaria que o resultado do teste chegasse, e os dois nunca mais tornariam a se ver. Nunca mais. 
A no ser... 
Guilherme sentou-se  mesa e comeou a elaborar um plano de ao. Como tinha pouco tempo, era melhor se apressar, e muita! 
Christhianne rolava na cama, trancada em seu quarto, sem conseguir conciliar a sana. Por mais cansada que estivesse, no podia ficar ali sem fazer nada. Precisava ir at Guilherme, falar com ele... se desculpar... se explicar. 
Atormentava-se questianando o que deveria fazer. Ser que a viva de Gunter, Joanna, merecia que algum se aproximasse naquele momento e revelasse que seu marido tinha uma filha ilegtima? 
Christhianne decidiu que no podia fazer aquilo. No era certo se intrometer no destino de outra famlia e causar a mesma confuso que provocara na casa das Hunter. No tinha nem estmago nem vontade para fazer tudo aquilo. 
Ergueu a cabea e respirou fundo. Qualquer que fosse o rumo dos acontecimentos, precisava ponderar com calma para reordenar todos os passos a tomar. Mas primeiro tinha de ir at Guilherme, tentando esclarecer algumas coisas. 
Guilherme estava fazenda uma lista de como solucionar o problema do teste de DNA quando o telefone tocou. Com o olhar fixo na tela do computadar, pegou o aparelho. 
- Sim, Dris? - atendeu, ao mesmo tempo que acabava de escrever: "Se tudo o mais falhar, suborne o patologista". 
Essa era a terceira de suas estratgias. A primeira era conquistar o amor de Christhianne e, assim, com alguma sorte, apenas ligar para o doutor e cancelar o teste. A segunda era instruir o mdico para que mandasse o resultado para ele primeiro. Dessa forma, poderia escanear a pgina no computador, mudar os resultados e imprimir um novo relatrio. 
- Tenho aqui uma jovem que quer v-lo, sr. Hunter - Dris sussurrou num tom conspiratrio. -  ela! 
- "Ela"? 
- A mesma de sexta-feira, aquela que veio com o beb. S que dessa vez est sozinha. Quer que chame a segurana para coloc-la para fora?  
Guilherme soltou sua caneta. 
- Santo Deus, Dris, no faa isso! 
- Mas, sr. Hunter, na sexta-feira o senhor me instruiu para que eu chamasse a segurana assim que ela cruzasse a soleira! 
Ele meneou a cabea. Fazia apenas trs dias que tudo aquilo comeara? Para Guilherme, era como se uma eternidade tivesse se passado. 
- Cometi um erro, Dris. A garota no  quem eu pensava, e aquela criana  linda  minha filha, se quer mesmo saber. J irei at a. 
Christhianne observou a secretria suspirar logo depois de v-la. 
- Ele no vai me mandar embora de novo, vai? - ela murmurou para si mesma. 
Dris cobrira o fone com a mo, por isso no pde ouvir o que foi dito. Entretanto, a palavra "segurana" destacou-se das demais. Com a boca aberta numa atitude de completo espanto, a secretria permaneceu sentada, segurando o fone, enquanto o prprio Guilherme abria a porta de seu escritrio. Ficou parado por um instante, encarando Christhianne. 
Era estranho, mas ela sentia-se como se o visse pela primeira vez. De certa forma, era isso o que acontecia. Nunca, at ento, o olhara despida de preconceitos. E era forada a admitir que Guilherme era muito diferente do tipo de homem com quem Sarah costumava se envolver. 
Christhianne agora era capaz de enxergar mais do que seu fsico msculo. Conseguia perceber o bom carter em  seu rosto, e um toque de ternura em seu olhar. 
Guilherme no era feito do mesmo material que os sedutores de sangue-frio 
- Eu... tenho de falar com voc - ela balbuciou, passando por ele ao entrar no escritrio. 
Caminhou direto at a escrivaninha, onde colocou a bolsa, sentindo um forte tremor nas mos. Quando Guilherme se aproximou, ainda a fitava de uma forma penetrante, como se estivesse curioso. 
Christhianne ajeitara os cabelos e mudara de roupa depois do frio encontro dos dois, na clnica. O calor daquele dia exigia uma roupa mais fresca do que jeans e camiseta, e por isso ela escolhera um vestido leve, com motivos florais. Embora deixasse suas pernas  mostra, no era um modelo provocante, mas muito feminino e bastante delicado. 
E com a ateno de Guilherme fixa nela, Christhianne sentia-se muito feminina. 
Ele se acomodou na poltrona de couro sem desviar-se por um segundo sequer. 
"Comece a dizer alguma coisa antes que faa uma completa confuso, Christhianne." 
- Vim me desculpar - ela comeou, querendo desviar o olhar. No entanto, era incapaz de faz-lo, como se estivesse enfeitiada. 
Guilherme inclinou-se para a frente ao ouvir aquilo. 
Suas ris azuis brilhavam numa mistura de surpresa e antecipao. 
- Estive muito errada sobre voc, Guilherme. Posso ver isso agora. Depois que deixou-nos, no consultrio, Vernica me contou sobre Gunter Parsons, sobre o homem que ele ... ou era. Quero dizer, percebi na hora que ele era um malandro, e na certa, o objeto do amor de Sarah, pois era idntico a seus namorados anteriores. Voc nem mesmo  o tipo dela, para ser franca. Mas... bem, descobri a verdade quando percebi que o nome dele comeava com G. 
Guilherme inclinou-se ainda mais em sua cadeira, surpreso e intrigado. 
- Com G? 
- Sim. - Apressada, Christhianne abriu a bolsa e tirou de l diversos cartes. - Encontrei isto entre os pertences, de Sarah. Todos dizem a mesma coisa; so bilhetes de amor. E esto assinados com um G. 
- Que voc logo imaginou ser de "Guilherme" _ concluiu, examinando alguns.
- Sim - Christhianne confirmou, num fio de voz. Guilherme levantou a cabea, e seus olhares se encontraram. Lgrimas corriam pelo rosto dela: 
- Eu lamento tanto, Guilherme! Acabei tirando concluses equivocadas, e me recusei a ouvir o que voc falava. Estava certo quando afirmava que Sarah havia mentido a seu respeito. Acertou na mosca quando me chamou de preconceituosa. Eu era, e aceito agora que voc no  o pai de Madelleine. Gunter Parsons, sim. Entretanto, o dano j foi feito, no ? Feri voc, e agora vou magoar sua me. Vernica no merece... 
Mais lgrimas correram dos olhos de Christhianne, mas ela estava determinada a no sucumbir a um ataque de choro. De que aquilo serviria? 
- Nem posso lhe dizer o quanto me sinto mal, Guilherme. E entendo que me odeie. Eu mesma estou me odiando, pode acreditar; mas... No sei o que fazer agora. No quero ferir mais ningum, muito menos a viva de Gunter e Sua famlia. Sabe se os pais de Gunter ainda esto vivos? 
- No esto. 
Christhianne suspirou. 
- Menos mal. Teria sido difcil no dar a Madelleine a  chance de conhecer seus avs, mas eu no queria alarmar ningum. Tambm tinha medo de que eles no quisessem conhec-la. No ia gostar disso, tampouco. 
Guilherme sorriu, compreensivo. - No, eu posso imaginar. 
- E quanto  viva? Suponho que ela no queira conhecer Madelleine tambm. 
- Duvido que quisesse - considerou, com seriedade. Olhe, Christhianne, no posso deix-la prosseguir sem dizer que est enganada. 
Ela piscou, confusa. 
- Enganada? Como assim. 
- Em primeiro lugar, eu no a odeio. Longe disso. 
- Oh! 
- Em segundo, e talvez o mais importante: voc est equivocada em relao a Gunter Parsons ser o pai de Madelleine. 
- Mas... mas... voc disse. Quero dizer... 
- Bem, ele e Sarah tiveram um caso. Essa parte est correta. Sarah, decerto, pensava que ele era o pai. Estou convencido de que procurou-o para contar da gravidez. E sei que nunca mencionou meu nome para aquela vizinha. Voltei para aquele prdio em Lewisham ontem, e confirmei a histria com a tal Betty. Sarah apenas comentou que tinha ido ver o pai de sua filha, seu ex-chefe, mas ela no citou nomes.  
Christhianne no estava acompanhando o raciocnio. Guilherme parecia estar provando cada vez mais conclusivamente que Gunter era o pai de Madelleine. 
- E da? - indagou, confusa. 
- Acredito que, quando Gunter negou a paternidade e deu a Sarah dinheiro para o aborto,no explicou a verdadeira razo pela qual no podia ser o pai de Madelleine. Talvez sua atitude tivesse feito Sarah pensar que a considerava uma -toa que dormia com qualquer um. Ou quisesse manter a verdade em segredo. 
- A verdade? 
- Gunter fez uma vasectomia alguns anos antes, porque no queria ter filhos. Ele no podia conceber nenhuma criana, portanto. 
Christhianne no poderia estar mais chocada. - Quando descobriu isso, Guilherme? 
- Apenas esta manh. 
- Quem lhe contou? 
- No posso lhe dizer.  uma informao muito confidencial. 
- E a pobre esposa desse homem? Acha que ela sabia? 
- No desperdice sua simpatia com Joanna Parsons 
- Guilherme avisou-a, ainda srio. - Ela era to infiel quanto Gunter. Os dois tinham um daqueles... casamentos modernos. 
Christhianne no foi capaz de esconder sua desaprovao. - Bem,  isso. - Guilherme meneou as mos. Christhianne notou o ar de reprovao de Guilherme. 
Estava claro que era bastante antiquado. Bem, de certa forma. Ter uma parceira aps a outra no significava um grande problema para ele. Mas o casamento representava lealdade e compromisso com outra pessoa. Talvez sempre tivesse evitado aquilo por no se sentir capaz de amar uma nica mulher pelo resto de seus dias. 
O que era bastante honesto. Melhor ficar solteiro do que terminar num tribunal de divrcios. Processos eram to tristes para as crianas e... 
- Cus! - ela gritou, estreitando os olhos. - Mas se Gunter no  o pai de Madelleine, ento isso apenas nos deixa... 
- Isso mesmo - ele terminou por ela, com seus lbios curvando-se num sorriso. - Voc estava certa desde o comeo. 
- Mas... mas... por que est sorrindo desse jeito? No est nervoso? Sei que no queria Madelleine. 
- Quem lhe disse isso? - Guilherme soou indignado. 
- Ora... voc! 
- Foi num momento de raiva, Christhianne, quando fui pego de surpresa. Fiquei ressentido por ser acusado de algo que no tinha feito. Quero dizer, ter seduzido Sarah para depois abandon-la grvida e sem um tosto. Nunca faria algo desse gnero, Christhianne. Jamais! 
- Sei disso agora - admitiu, embevecida, sentindo o corao aquecer-se. 
Guilherme era o pai de Madelleine, e tudo ia dar certo. 
Vernica no ficaria magoada, a menina teria uma tima famlia. E ela... bem, sobreviveria; e pelo menos poderia ver o beb algumas vezes. Quem sabe parasse de sentir-se to atrada por ele. Podia ser at que terminassem como bons amigos. 
Guilherme levantou-se e comeou a caminhar de l para c. Mantinha as mos s costas e a expresso sria. 
- No sou um homem que tem medo se assumir suas responsabilidades, Christhianne. Agora que j me acostumei com a idia de ter uma filha, creio que vou gostar muito disso. Madelleine  linda, e esperta tambm. Qualquer um pode constatar. E tenho duas boas mulheres para me ajudar a criar minha pequena. - Fez uma pausa, sorrindo com gratido para Christhianne. - O que mais um homem pode querer? 
- Isso...  bom de,mais para ser verdade! - Christhianne comemorou. 
Guilherme pareceu embaraado por um momento. Mas apenas por um momento. 
Seu olhar se tornou diferente quando caminhou na direo dela. Brilhava com tanta intensidade que quase a fazia tremer. 
- E tambm no posso esquecer, lgico... - disse, com suavidade, segurando-a pelos ombros com suas mos fortes - que ainda tive a sorte de a guardi de minha filha ter me provocado uma emoo que jamais sentira antes. 
Seus dedos apertaram-na, e ele puxou Christhianne para junto de si. 
- Ela est fazendo isso comigo neste instante, olhando para mim com seus grandes e ser:suais olhos negros, que me dizem o que quer que eu faa. Forando-me a obedecer a seus comandos silenciosos. 
Inclinando-se, Guilherme comeou a se aproximar ainda mais. Os lbios de Christhianne estavam abertos, como se estivesse prestes a fazer algum protesto. Contudo, nenhuma palavra foi emitida, apenas um pequeno gemido quando as bocas se encontraram. 
Foi um beijo da mais apaixonada persuaso. As mos de Guilherme tomaram o rosto de Christhianne, no lhe deixando nenhuma opo a no ser corresponder a tanto ardor. 
Menos de vinte minutos depois, Christhianne emergiu daquele furaco de sensaes para encontrar-se sentada na beira da mesa de Guilherme, com as pernas ainda enlaando a cintura mscula. Sentia os lbios inchados e a respirao ofegante. 
Aturdida, deixou os braos soltarem o pescoo dele, usando-os para se apoiar no tampo. Caso contrrio, decerto desabaria de exausto. Ao mesmo tempo, seus ps escorregaram para o cho. Foi a que deixou escapar um suspiro que mais parecia um gemer deliciado. 
Os olhos azuis procuraram os dela, quando Guilherme se abaixou para apanhar as roupas; 
- Voc est bem? - Guilherme perguntou, um pouco preocupado. 
- No sei dizer... 
Mas Christhianne sabia o que o que ele queria dizer. 
Guilherme no tinha sido nada gentil ao coloc-la em cima da escrivaninha, rasgando sua lingerie e separando suas coxas antes de insinuar-se dentro dela como um selvagem enlouquecido. 
No que o culpasse por aquilo. Ela mesma o ajudara a livrar-se da cala enquanto era beijada, e o excitara com os lbios e as mos das maneiras mais irresistveis. 
Christhianne podia apenas arregalar os olhos, espantada, com a viso nublada, em parte por embarao, em parte por confuso. 
	Ser que ela era a mesma jovem que pensava que o sexo era uma coisa tediosa e desagradavel? Que ele no trazia nada alm de desgosto para as mulheres que se deixavam levar por seus encantos? 
Nenhuma moa que conhecia parecia mais vida por cama do que ela naquele momento! Entretanto, continuava sentindo-se confusa. A sensao que a dominava era a vergonha? Ou ser que ainda estava excitada? 
Evidente que no poderia querer mais... 
- Venha. - Guilherme ergueu-a com gentileza e colocou-a de p. - O banheiro  logo ali. 
Indicou-lhe uma porta lateral, ao mesmo tempo que com os dedos ajeitava os cabelos dela. 
- Vou chamar um txi, enquanto voc... bem... se arruma. Deve voltar para a manso. Parece estar precisando de um pouco de sono. Poderemos retomar isso mais tarde, hoje  noite. Na hora em que os bebs esto todos adormecidos. 
Um murmrio espantado escapou dos lbios de Christhianne, e Guilherme sorriu de maneira muitssimo sexy. 
- Voc no achou que eu ia deixar isso assim, no , Christhianne? Sei que foi fantstico, mas muito rpido. Isso apenas abriu meu apetite. Quero uma oportunidade de fazer amor de forma completa e apropriada.  isso o que quer tambm, no ? 
Ela engoliu em seco. Cus! O que Guilherme queria dizer com "forma completa e apropriada"? No devia estar se referindo a todas aquelas intimidades sobre as quais ela lera. Aquelas que acreditava que qualquer mulher adoraria experimentar. 
Sim, claro que era a isso que Guilherme se referia. Ele era um homem do mundo. E depois da forma como Christhianne representara, na vspera, devia estar achando que ela tambm tinha uma vivncia incrvel. 
O pensamento a fez morder o lbio inferior, com nervosismo. - Posso ver que voc quer... - Guilherme interpretou-a mal, inclinando-se para beij-la outra vez. - Vai ser muito duro tentar trabalhar pelo resto do dia. Vou pensar em hoje  noite... em voc... e nisto. 
E ento, beijou-a de novo, com uma paixo redobrada. 

CAPTULO 22 

O txi deixou Christhianne no porto, onde Vernica a esperava. No colo da senhora, Madelleine remexia os bracinhos, feliz e sorridente. 
- Como foram as coisas? - Vernica quis saber, com seus expressivos olhos azuis examinando com curiosidade uma ainda aturdida Christhianne. - Voc no me parece muito contente... Discutiu o que precisava com Guilherme? 
A pergunta fez a mente de Christhianne voltar  realidade. Qualquer problema pessoal que tivera com Guilherme era irrelevante no momento, j que agora o futuro de Madelleine e a felicidade de Vernica estavam assegurados. 
- Sim, conversamos - confirmou, sorrindo, ao estender os braos para pegar a criana. - Dessa vez, ns tivemos uma conversa de verdade, e seu filho concordou que a possibilidade de ele ser o pai de Madelleine, em vez de Gunter,  bem grande. Parece que Gunter s apareceu na vida de Sarah depois que Madelleine j fora concebida - Christhianne improvisou, visto que no tinha permisso para mencionar a vasectomia. 
Vernica meneou a cabea, impaciente. 
- Ora, ora... Basta fitar de relance a pequena Madelleine para ver que ela  filha de Guilherme. A menina parece ter os genes dos Hunter estampados na testa. 
No fundo, Christhianne ainda achava que Madelleine no era nada parecida com Guilherme. A semelhana fsica mais marcante era com Sarah. Mas quem era ela para empanar o prazer daquela av em potencial? 
- Se meu filho fosse razovel, eu poderia ter apontado todas as evidncias, para que enxergasse de vez. Porm, Guilherme estava insistindo em agir como um o tolo o sem corao. 
- No posso imaginar Guilherme agindo como um tolo 
- Christhianne murmurou, enquanto o caminhavam para a residncia. 
- Ele decerto fez isso na sexta-feira - a sra. Hunter relembrou-a. - Mas voc o enfrentou como uma herona. 
Aquela frase fez Christhianne conter um suspiro. Sim, com certeza ela o enfrentara. E como... 
- Guilherme cultiva essa determinao ingrata de controlar tudo em sua vida, Christhianne. No tenho dvida de que essa mudana de atitude nele significa que ainda tenta fazer isso. Hoje, na clnica, deve ter percebido que no adiantava continuar fingindo que no era o pai, j que o teste provar a realidade. Aposto que decidiu admitir isso primeiro; para sentir-se por cima, como sempre. Guilherme Hunter tem de ser o chefe de tudo, entende? E quanto mais gentil e razovel ele parece, mais perigoso est sendo. Meu filho pareceu gentil e razovel hoje  tarde? 
- Bem... eu... suponho que sim. De certo modo... 
- Ento, concentre toda sua ateno. Meu filho deve estar planejando como faz-la agir exatamente como ele quer. 
Os lbios de Christhianne ressecaram-se assim que pensou no que Guilherme queria naquela noite. 
Vernica abriu a porta da frente sem parar de falar: - Posso apostar que est tentando organizar sua vida de forma que Madelleine no provoque nenhum incmodo na rotina. Logo vai pedir para que voc se mude para c de uma vez por todas, pois assim ter duas mulheres para cuidar do beb. Guilherme ser um pai responsvel, mas no ter tempo disponvel. Isso interferiria em seu trabalho. 

Foi necessrio algum esforo para que Christhianne se concentrasse no que Vernica estava dizendo. 
- Nada pode interferir nos negcios de meu filho. Nem mesmo suas atividades "extracurriculares". Por que acha que eu no sabia nada sobre aquela tal Shani? O motivo  que Guilherme trata o sexo como se estivesse marcando visitas ao dentista... S pode acontecer depois do horrio de expediente, ou durante o almoo. Sim, voc pode parecer chocada, mas j vi a fatura do carto de crdito dele. O que mais poderia explicar contas em o quartos de hotel da cidade quando sei muito bem que Guilherme vem para casa todas as noites e trabalha no escritrio o dia inteiro? 
As duas estavam paradas no hall, diante das escadas. 
Os olhos de Christhianne estavam arregalados, e seu corao, acelerado. Se o que a me de Guilherme estava dizendo era verdade; ento ela se encaixaria na vida dele com mais convenincia do que Shani. Afinal de contas, ele no teria nem mesmo de sair de  casa para fazer sexo! 
- Por acaso Guilherme j lhe pediu para se mudar para c? - Vernica indagou. 
- No. 
A senhora fez um gesto afirmativo. 
- Mas far isso querida, pode esperar. E, quando fizer, qual ser sua resposta? 
Christhianne concluiu que, a despeito da atitude crtica de Vernica em relao ao filho, estava tentada a dizer "sim". E seria uma soluo perfeita, tinha de admitir. Comeava a apreciar aquele jogo de seduo, embora no quisesse admiti-lo em voz alta. 
Recusava-se a chamar aquilo de amor. Sarah sempre se referia a seus romances como "casos de amor", mas o tempo sempre provara que estava errada. 
- O que eu diria? - sussurrou, suspirando diante da fraqueza da prpria carne. - Aceitaria, acho. 
Os lbios de Vernica curvaram-se num sorriso. 
- Era essa a resposta que eu esperava ouvir. Agora, me d Madelleine e v l para cima dormir um pouco. Voc o parece cansadssima, querida. 
- E estou, Vernica.  
Guilherme sentiu-se alarmado quando voltou para a residncia, naquela noite. Christhianne se comportava de maneira estranha, ficando tensa a cada vez que ele tentava se aproximar. Parecia evitar de propsito ficar a ss com ele, usando o beb ou Vernica como escudo e impedindo-o de falar-lhe, ou mesmo trocar um simples beijo. 
E Guilherme queria beij-la. Queria muito! 
Os trs se sentaram para jantar s sete e trinta, com o carrinho de beb ao lado da mesa. Ele mesmo insistira naquilo, tentando impressionar Christhianne com aquele sbito ataque de ateno paternal. 
Mas ela no parecia impressionada, permanecendo distrada e tensa durante toda a refeio. 
- Conseguiu repousar, hoje  tarde? - Guilherme quis saber, quando Vernica se levantou para apanhar o caf. 
De imediato os ombros de Christhianne se encolheram, e ela desviou o olhar. 
- S um pouco... 
- Christhianne, - o que est acontecendo? - ele inquiriu, e s escutou o silncio. - Foi algo que eu fiz? Ou ento, algo que no fiz? 
Ela meneou a cabea. 
- Por acaso essa  sua forma de dizer que no quer ir a meu quarto mais tarde? 
Ao virar-se para encar-lo, Christhianne tinha os olhos arregalados e brilhantes. 
- Seu quarto? - perguntou com voz rouca. 
Qualquer medo que Guilherme sentira de no ser mais desejado foi afastado de imediato. A expresso naquele rosto adorvel lhe informava que Christhianne estava to excitada quanto ele. 
Guilherme suspeitava que Christhianne era, na essncia, uma garota tmida, com poucos amantes no passado e quase nenhuma confiana nos homens. Teria de ser cuidadoso para no espant-la, o que com certeza a afastaria. Sobretudo agora, que ele no a procurava apenas por sexo. Pretendia muito mais do que isso. 
-  o mais afastado da escadaria - ele explicou, suave. - E tem uma tranca na porta.  
- Mas assim no poderei ouvir Madelleine, se ela chorar. Incrvel! Christhianne estava tremendo de volpia, mas ainda assim pensava no beb. Que poder aquele pequeno ser tinha! 
Claro, Madelleine era maravilhosa, linda e cativante. Qualquer um sucumbiria diante de um de seus deliciosos sorrisos. 
- Vou pedir para mame manter Madelleine no andar de baixo com ela, hoje. - Guilherme afirmou para uma atnita Christhianne. - Ela me disse mesmo que ia sugerir isso. Est preocupada, pois acha que voc precisa de uma boa noite de sono. E eu,  evidente, concordei. 
Christhianne sentiu um forte tremor diante das artimanhas de Guilherme. Ele pensara em tudo, no ? Tudo planejado, como Vernica havia falado. Nada poderia interromper seu momento de prazer. 
"Ou o meu", pensou, sentindo-se corrompida. 
Era perigoso, como Vernica o chamara, e estava certa. Guilherme queria o que queria, e quando queria. 
O problema era que ela aceitava de bom grado os desejos dele, naquele momento. Mas o que aconteceria quando Guilherme se cansasse dela? Quando o sexo se tornasse tedioso e  aparecesse uma nova mulher, mais excitante, em seu caminho? 
Devia lembrar que ela suplantara Shani. Chegaria o dia em que algum poderia suplant-la.  
Quem seria a prxima? Joanna Parsons, talvez? Ou ser que Guilherme j	 experimentara aquele prato? No, ele no seduziria a mulher de outro homem. No era o estilo de Guilherme, que tinha seu prprio cdigo de moral quando se tratava de seduo, e isso no inclua adultrio. 
- Por que est to pensativa? - ele perguntou, um tanto irritado, ao mesmo tempo que Vernica voltava, carregando uma bandeja. 
Christhianne decidiu retomar as rdeas a situao. Pelo menos superficialmente. 
- Estava pensando que poderia ser uma boa idia se eu me mudasse para c, trazendo o resto de minhas coisas - ela disse, antes que Guilherme tivesse a chance de pedir, ou coagi-Ia. -0 que acha, Vernica?  a voc que devo perguntar, visto que esta  sua casa. 
Vernica lanou-lhe um olhar admirado. 
- Essa  uma sugesto esplndida, meu bem. Dessa maneira, todos ns poderemos cuidar do beb. Ns trs. 
A frase pareceu atingir Guilherme. 
- Ns trs? - ele repetiu, arqueando as sobrancelhas. 
- Sim,  lgico - a sra. Hunter confirmou, ao servir o caf. - Voc  o pai de Madelleine, certo? Vai ter de fazer a sua parte. 
- Bem... no tenho tempo para servir de bab, minha me. Trabalho muito. 
Vernica e Christhianne trocaram olhares cmplices. -  mesmo? Ora, talvez voc tenha de trabalhar um pouco menos no futuro. 
De repente, um sorriso inesperado surgiu nos lbios de Guilherme. 
- Voc est certssima, mame. Farei isso. Mas temo que no possa comear esta noite. Trouxe um servio importante, que requer minha ateno urgente. De qualquer forma, amanh serei todo de vocs. Boa noite, doura. 
Ele inclinou-se para dar um beijo em Madelleine, antes de se levantar. 
- Se alguma de vocs precisar muito de mim, estarei em meus aposentos. 
O estmago de Christhianne contraiu-se diante daquele jogo de palavras, e evitou encar-lo quando Guilherme saiu da sala com sua xcara na mo. No momento, alis, ocupava-se de adicionar acar e creme ao prprio caf. 
- Parece-me que voc estava errada, Verriica - coomentou Christhianne, num tom casual. - Seu filho parece disposto a fazer sua parte. 
- Acha mesmo isso? Lembre-se do que eu disse, Christhianne. Quando Guilherme est sendo gentil e cooperativo,  porque planeja alguma coisa. Nunca  o subestime. 
No era essa a inteno de Christhianne. Mas ela pensava, mesmo assim, que Vernica estava sendo um pouco dura. Guilherme, afinal, se comportava como um verdadeiro cavalheiro desde que descobrira que era o pai de Madelleine. 
Pensando melhor, essa no era a expresso correta. Um cavalheiro no teria se comportado como um brbaro, fazendo amor com uma mulher sobre a mesa de seu escritrio. E decerto no manipularia a prpria me para poder passar a noite com a tutora de sua filha. 
E girando devagar a colherinha mergulhada no lquido fumegante, Christhianne perguntou-se quanto tempo levaria antes que Guilherme fosse at seu quarto naquela noite, arrastando-a para o dele. 

CAPTULO 23

O relgio na cabeceira da cama informava que eram onze e meia. Christhianne havia ficado no andar de baixo, assistindo  televiso com Vernica at as dez e meia, quando a senhora dissera que iria dormir. Madelleine mamara s nove e meia, e s acordaria de novo em duas ou trs horas. 
Quando Christhianne prometera estar l embaixo para dar a mamadeira da manh, Vernica lhe disse para deixar de ser tola. 
- No sou to velha assim que no me lembre de como preparar a refeio de um beb. Pode dormir at mais tarde. Se eu ficar desesperada por ajuda, acordarei o pai de Madelleine. Ele, sem dvida, ficar muito entusiasmado - zombou. 
Christhianne no ousara dizer nada, sobre o assunto, mas jurou a si mesma no passar toda a noite na cama de Guiilherme, para no correr o risco de ser surpreendida. 
Isso se ele a procurasse... Naquele momento, estava sentada na beira de seu leito, de banho tomado e perfumada. 
Durante todas as preparaes erticas, sentira-se estranhamente nervosa, com as mos tremendo tanto enquanto depilava as pernas que s por sorte no se ferira. 
E agora sentia-se enjoada. 
O ponteiro se aproximava da meia-noite, o que parecia ser o prazo limite para que ficasse em seu dormitrio. Guilherme, na certa, apareceria depois daquele horrio. E, quando ele fizesse isso, a humilhao seria maior do que a que teria de suportar se fosse para o quarto dele primeiro. 
Engolindo em seco, Christhianne levantou-se e caminhou para a porta. 
Guilherme tentou no consultar o relgio. Depois de seu segundo banho gelado, sentou-se ao computador, fingindo trabalhar, quando na verdade tudo o que fazia era esperar por Christhianne. 
J era quase meia-noite! Decerto ela estava vindo. 
E ento ele ouviu algo. O rudo suave de uma porta sendo aberta e fechada. Apurou a audio e pde ouvir os passos aproximando-se pelo corredor, e no conseguiu mais ficar sentado. Foi at a soleira, e um instante depois estava olhando para aqueles grandes olhos negros, midos pelas lgrimas. 
Guilherme aproximou-se com um gemido, segurando aquele rosto apavorado entre as mos. Em seguida, puxou-a para si, at que seus lbios estivessem quase se tocando. - Voc no deve temer nada, minha querida. Nada, mesmo... 
Christhianne tinha de lhe dar o crdito. Guilherme sabia fazer os movimentos certos, assim como escolher as melhores palavras. 
Diante de seu toque carinhoso e as frases doces, seus medos se dissiparam. Tudo o que ela queria era recostar-se naquele corpo forte, rendendo-se a seu poder. 
E foi isso o que fez. Como Guilherme parecia maravilhoso! Seu aroma, o toque de sua pele... Tudo era como um sonho. 
O primeiro beijo foi vido e longo, e suas bocas permaneceram coladas at que Guilherme fechasse a porta atrs de si. J o segundo foi mais suave, e por isso mesmo mais sedutor. Ao mesmo tempo, os dedos de Guilherme livravam Christhianne de sua camisola sem perder um segundo. 
Nua, Christhianne sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, e ergueu a cabea para encar-lo. 
- No me diga que voc no gosta de mostrar este corpo perfeito - ele murmurou, extasiado. 
Christhianne nunca pensara no prprio corpo como perfeito. Na verdade, seu parmetro sempre fora Sarah, que lhe parecera o modelo feminino ideal. Embora talvez a bela figura de Sarah tivesse representado mais uma maldio do que uma bno. 
- Voc gosta de minhas formas? 
- Eu adoro! - Guilherme enlaou-a, cheio de carinho. - Seus seios so lindos, e sua cintura, adorvel. E essas pernas longas... Nossa! Adoro tudo em voc, mulher! Achei que soubesse disso. 
Ele a pegou no colo e carregou-a para a cama, colocando-a com cuidado sobre os lenis. Em seguida, tirou seu robe de seda preta com um gesto brusco, e teria se juntado a Christhianne no leito ainda vestindo seu pijama se ela no tivesse protestado. 
- No! - interrompeu-o, com uma ansiedade que a deixou chocada e excitada. - Quero v-lo nu tambm. 
As sobrancelhas dele arquearam-se, mas Guilherme no pareceu nada incomodado por ter de fazer o que ela pedia. 
E por que deveria? Afinal, era um homem magnfico. - Voc... faz muita ginstica? - Christhianne o admirou ao v-lo se deitar a seu lado. 
- S um pouco. Ajuda a aliviar o stress. H uma academia instalada no subsolo do edifcio da empresa.  bem conveniente. 
- E quanto ao seu bronzeado? 
-  artificial. 
Guilherme sorriu. 
- O que h de to engraado, Guilherme? 
- Eu no costumo gostar de falar quando estou na cama com uma mulher. 
- Oh! - Christhianne sentiu-se tola e envergonhada. 
- Mas aprecio muito conversar com voc, querida. - E se ps a acariciar-lhe o brao, e depois a coxa. 
Christhianne no conseguia acreditar no quanto aquele simples gesto a excitava. 
- Gosto tanto que poderia conversar e tocar cada centmetro do seu corpo por toda a noite. - A grande mo continuava movendo-se com mestria. - Voc gosta disto, anjo? 
O tom de voz de Guilherme era quase to encantador quanto seus afagos, que, naquele momento, se dirigiram aos seios dela. 
- Voc no precisa fazer nada, Christhianne. Apenas fique deitada, feche os olhos e se delicie... 
E aquilo era exatamente o que Christhianne estava fazendo. Apreciava as carcias mais ntimas e deliciosas que j experimentara em toda sua vida. 
Com seus sussurros e atenes, Guilherme fizera com que ela perdesse todo vestgio de controle, temor ou inibio. E quando os dedos pararam, sendo substitudos pelos lbios de Guilherme, no houve nenhum protesto de sua parte. 

CAPTULO 24

Assim - os dois passaram as horas seguintes. Guilherme fez amor com ela vrias vezes, surpreendendo Christhianne com sua gentileza, assim como seu vigor. Ele parecia no cansar de suas curvas, tocando-as, experimentando-as, tomando-as mais e mais. 
Algumas vezes eles conversaram, contando um ao outro as coisas mais tolas. Compartilharam experincias de infncia. 
Conversa de amantes, Christhianne supunha, mas era timo. Por um instante, chegou at mesmo a imaginar que Guilherme se importava mesmo com ela, que apreciava passar o tempo em sua companhia, ainda que no fizessem amor. 
Quando Guilherme, por fim, adormeceu, Christhianne permaneceu inerte no leito por alguns instantes. Tentava compreender tudo o que acontecera. 
Seria aquilo apenas sexo? 
"No para mim", foi a resposta do fundo de sua alma. Mas, na certa, fora assim para ele. Caso contrrio, por que um encontro furtivo como aquele, na calada da noite? No, Guilherme no estava apaixonado. Christhianne era apenas sua ltima conquista. 
Suspirando, Christhianne escorregou para fora dos lenis, vestiu-se e saiu do quarto, sem fazer rudo. 
Ao chegar a sua prpria cama, adormeceu logo que colocou a cabea no travesseiro. 
No dia seguinte, quando Christhianne desceu as escadas, por volta de meio-dia, ficou surpresa ao saber que Guilherme tinha acordado s sete, como sempre. 
- Ele estava de bom humor -- Vernica disse: - At mesmo insistiu para dar a mamadeira para Madelleine. E depois me perguntou como devia fazer para trocar a fralda. Saiu-se muito bem nisso, e parecia satisfeito consigo mesmo. Se no o conhecesse to bem, diria que est gostando de ser pai. 
Christhianne limitou-se a menear a cabea. Guilherme era mesmo um enigma, e no sabia o que fazer a seu respeito. 
- E tem outra coisa, minha querida. Voc sabe que o mdico falou que Madelleine precisa tomar a vacina, no ? - Sim, Vernica. 
- Sendo assim, marquei consulta na clnica para quinta de manh, e adivinhe o que aconteceu?! 
- O qu? 
- Guilherme quer levar voc e Madelleine at l. Christhianne arregalou os olhos. 
- Mas assim ele vai se atrasar para o trabalho. 
- Foi o que eu disse, mas meu filho respondeu que isso no tinha importncia, pois voc podia precisar dele. Comentou que notou como ficou irritada e tensa ao ver a enfermeira tirando o sangue de Madelleine ontem. 
Christhianne tinha de admitir que se sentira muito ansiosa por acompanhar Madelleine ao consultrio. Preferia tomar cinqenta injees do que ver sua pequena boneca tomar uma que fosse. Mesmo assim, estava surpresa por Guilherme ter notado aquele detalhe. 
- Isso foi muito... gentil da parte dele - murmurou, perguntando-se se fizera um mau juzo dele, afinal. 
- Sim, tem razo. - Ento, Vernica pareceu cismada. 
- Gostaria de saber o que meu filho est tramando. 
- Pode no ser nada disso, Vernica. Talvez Guilherme se importe de verdade, com Madelleine, agora que sabe quem ela . 
-  possVel, eu acho. Sempre acreditei que Guilherme daria ,um bom pai. 
S restava a Christhianne torcer para a bondosa senhora estar certa. 
Guilherme percebeu o mal-estar de Madelleine no momento em que a agulha comeou a entrar em sua delicada carne. 
Droga! Ele mesmo no gostaria de senti-la sendo enfiada  em sua pele. Seu corao apertou-se quando a menina agarrou seu dedo e comeou a chorar. 
Santo Deus! Sentia-se como um monstro cruel, segurando-a para ser torturada. Sabia que era uma reao ilgica, levando-se em considerao que a vacinao era essencial para a sade de qualquer criana. Sem ela, Madelleine poderia sucumbir a uma das numerosas doenas infantis. 
- Calma, querida, no chore! Papai est aqui. Ao perceber o que acabara de dizer, Guilherme respirou fundo. 
Papai? Ele tinha mesmo dito aquilo? 
Papai... Seus lbios curvaram-se num sorriso, ao se pr a massagear o traseiro do beb. 
A simples palavra lhe provocava uma reao estranha, fazendo-o sentir-se ao mesmo tempo suave e poderoso.  - Sinto muito por isso - o mdico se desculpou assim que os soluos de Madelleine comearam a diminuir. - Mas  para o bem dela. 
-  fcil dizer isso quando voc est do outro lado da agulha - Guilherme resmungou. 
- Acho que sim. - O doutor fitou-o de relance. - Pelo que vejo, presumo que voc no est mais questionando a paternidade da menina, no ? 
Guilherme estava prestes a dizer ao homem que ele podia cancelar o teste quando Christhianne irrompeu pela sala, com uma expresso agitada. 
- Quase no pude suportar ouvi-la gritar daquele jeito. Madelleine est bem? 
- Est tima - o doutor garantiu. - O pai dela tem tudo sob controle. 
Entretanto, Guilherme no estava certo daquilo. Havia perdido sua oportunidade de dizer ao homem para cancelar o teste, e isso no era nada bom. 
- Deixe-me segur-la - Christhianne pediu, estendendo os braos para apanhar a pequena. 
De certa forma, Guilherme ficou decepcionado ao ver que o beb aquietou-se de imediato. Ainda teria de percorrer um longo caminho antes de ganhar o prmio de pai do ano. 
- A temperatura de Madelleine pode subir um pouco nas prximas vinte e quatro horas. Se isso acontecer, d a ela algumas gotas de paracetamol infantil. Garanto que tudo ficar bem. 
- Espero que sim, doutor... - E Guilherme se virou para seguir Christhianne, que caminhava apressada pelo corredor, desejando sair o quanto antes daquele ambiente hospitalar. 
Na vspera, chegara a acreditar que Christhianne confiava nele, e que estava at mesmo se apaixonando. 
Mas j no tinha tanta certeza... 
Madelleine adormeceu assim que foi colocada, no cesto no banco detrs do carro, e s restou um pesado silncio entre os dois adultos. 
Christhianne no dizia uma nica slaba, e Guilherme no conseguia entender seu comportamento. Tudo lhe parecera to bem na noite anterior... 
- Alguma coisa errada, Christhianne? - ele resolveu perguntar. 
- No. O que poderia estar errado? 
As sobrancelhas de Guilherme se arquearam. Ser que percebia um certo sarcasmo? 
Christhianne suspirou e desviou o olhar para a janela. 
Porm, quando ele manobrou o automvel para o acostamento e desligou o motor, viu-se forada a voltar a encar-lo. 
- O que acha que est fazendo, Guilherme? Est atrasado para o trabalho! 
- Isso pode esperar. 
- Bem, esse seu ponto de vista  uma novidade, de acordo  com sua me. 
- Oh,  mesmo? E o que mais minha querida mezinha anda dizendo pelas minhas costas? 
- Nada que eu j no soubesse. 
- Como o qu? 
- Sobre sua atitude em relao a mulheres e sexo, por exemplo. 
- Srio? Ento, descreva essa minha "atitude". 
- Voc sabe muito bem como se comporta com respeito a esses assuntos, Guilherme. Isso ficou bem claro desde aquela sexta-feira. Np passado, talvez suas namoradas tivessem se contentado com casos sem nenhum envolvimento, alm da atrao fsica, mas no gosto nem um pouco disso. Na verdade estou muito zangada comigo mesma por permitir que me use dessa maneira. 
Mais uma vez, Christhianne se voltou para o vidro. 
- Mas eu no estou usando voc! - Guilherme sentiu um certo pnico pelo rumo que aquela conversa estava tomando. 
- Ah, est sim! 
- Olhe para mim, Christhianne, e tente ouvir o que estou dizendo. 
Foi com certa relutncia que ela o obedeceu. - Estou ouvindo - disse, com frieza. 
Guilherme hesitou, sem saber como comear. Era cedo demais para dizer que a amava. Christhianne no acreditaria naquilo. Entretanto, queria convenc-la de que a considerava especial, e no apenas uma amante conveniente. 
No estava acostumado a se envolver com uma mulher que queria mais. Tambm no era seu costume querer mais. Para ser franco, nem mesmo sabia como conduzir um relacionamento normal com uma moa. 
Contudo, tinha que aprender, e rpido. 
Guilherme retirou o cinto de segurana e tomou as mos de Christhianne entre as suas. 
- O que sinto por voc  muito mais do que apenas luxria. Estou sendo sincero. J lhe disse antes que acho que temos algo especial aqui. Voc tambm acredita nisso, no ? Sei que no  o tipo de garota que pula na cama de qualquer um, no interessa o que tenha dito no ltimo domingo.  
Christhianne parecia muito desconfortvel ao ouvir aquilo. - Isso  to bvio? 
- O que  bvio? 
- Que eu sou desajeitada no leito... 
- Ora, do que est falando?! Voc no  desajeitada,  perfeita, em todos os sentidos. Por ser to quente e receptiva, faz com que me sinta um rei. 
- Mas eu...  no sei fazer aquelas coisas que os homens adoram. Quero dizer... Oh, voc sabe o que quero dizer, Guilherme! 
- No espero que faa nada diferente -- ele esclareceu, com extrema honestidade. - Meu verdadeiro prazer  lhe dar prazer, minha querida!  
Guilherme levou os dedos delicados at seus lbios para beij-las. 
- Voc no faz a menor idia do que provoca em mim, Christhianne. No tenho necessidade de posies estranhas e jogos de seduo. Tudo o que preciso so seus adorveis lbios sobre os meus. E ento, viajo para o paraso. 
Os olhos negros de Christhianne permaneciam nublados por uma dvida. 
- Se  assim, por que eu sou um segredo, Guilherme? Por que temos de nos amar como dois ladres, no meio da madrugada? Faa-me entender isso, e a acreditarei em voc. 
- Posso apenas pedir desculpas por isso. Tenho de confessar que adquiri hbitos terrveis em relao s mulheres no correr da existncia. Tornei-me muito egosta. Minha nica desculpa  que no queria me transformar em uma pessoa igual a meu pai. 
- Seu pai? 
- Sim, Henry era um sedutor incorrigvel, que tentava justificar seu pssimo proceder alegando que se apaixonava por todas aquelas moas. Dizia que no podia se conter. Deus, eu o desprezava! Em especial pelo que fazia com minha me. Como Vernica podia continuar amando-o e perdoando-o, eu nunca entenderei. 
- Sabe de uma coisa? Eu costumava me sentir assim a respeito de Sarah. No conseguia entender por que minha amiga deixava os homens tratarem-na to mal... E tudo em nome do amor. 
- E ento voc jurou que no seria igual a ela. - Guiilherme comeava a compreend-la melhor. 
Ele jurara nunca ser igual a seu pai. No apenas na vida pessoal, mas tambm com relao aos negcios. Quando Henry morrera, deixara as finanas da famlia em completa confuso. 
No entanto, tudo aquilo era passado. Naquele momento, devia se preocupar apenas com o presente. 
- O que acha de tentarmos comear tudo de novo? - ele sugeriu. 
Christhianne o fitou, atnita. - De que jeito? 
- Vamos sair como um casal normal. 
Os olhos dela arregalaram-se. 
- Voc quer dizer... um encontro? 
- Sim, e comearemos amanh  noite. Voc vai se arrumar, ficar bem bonita, e eu a levarei a um restaurante refinado para jantar. Dessa forma, minha me saber que tudo est correndo bem, e no ficar surpresa quando descobrir que somos mais do que bons amigos. 
- Mas, Guilherme, e quanto a nossos furtivos encontros noturnos?  Ou melhor... 
- Cuidaremos desse detalhe quando for a ocasio. 
- Conhecendo voc como conheo, acho que a ocasio vai ser hoje mesmo, mais tarde. 
- Ah, no, acho que no! - Guilherme negou, sorrindo. 
- Est muito cansado? - Christhianne se esforou, sem sucesso, para no parecer to desapontada. 
- Nada disso, meu anjo.  que hoje  Vernica vai jogar bridge, e mame vai sair de casa por volta das sete e meia. 
Guilherme observou uma excitao instantnea no semmblante de Christhianne, o que o deixou bastante satisfeito. No via a hora de provar que no a considerava desajeitada na cama. Ou fora dela! . 

CAPTULO 25 


- Eu ainda no acredito nisso! - Vernica exclamou, muito alegre. - Guilherme a convidou para sair, e voc aceitou! Veja bem, sempre soube que era o tipo dele, querida, mas nunca esperei... nunca acreditei... 
Vernica sentou-se na beira da cama de Christhianne, levando a mo ao peito, na altura do corao. 
- Isso  bom demais! 
Christhianne virou-se na cadeira em frente  penteadeira, onde estivera escovando seus cabelos. 
- No tenha muitas esperanas, Vernica -advertiu-a, com gentileza. - Guilherme ainda  Guilherme. 
- Mas voc gosta dele, no ? Quero dizer... de verdade? 
- Sim. Gosto muito. 
A sra. Hunter mal tinha sado de casa, na noite anterior, quando Guilherme chegara. Por sorte, Madelleine estava no andar de cima, dormindo. 
- No na cama - ele murmurara, abraando-o por trs e beijando-lhe o pescoo. 
O leito acabou no fazendo parte da agitada sesso de amor que tiveram. A mudana de cenrio trouxe consigo novos desejos de Guilherme. Ele demonstrou querer mais dela. E Christhianne pretendia dar-lhe mais. 
Christhianne ainda estava atnita com sua boa vontade em fazer tudo o que sempre achara, que nunca faria com um homem. Ainda assim, parecia que, quanto mais se liberava, mais prazer e excitao encontrava, enquanto Guilherme fazia amor com ela em todos os lugares e posies exticas. Entre os dois, no havia nenhum pudor, e ambos pareciam dominados por uma intensa e lasciva luxria. 
Mesmo agora, embora a lembrana do que fizera ainda a espantasse um pouco, no sentia vergonha. Sabia que amava Guilherme. Portanto, como algo poderia ser errado quando se amava algum? . 
Mas ser que ele nutria o mesmo sentimento? Guilherme no dissera isso, e, mesmo que dissesse, Christhianne acreditaria? Os homens costumavam dizer que amavam as mulheres, mesmo sem sentir isso. Na maior parte do tempo, era sexo o que queriam, no amor. Fora o que aprendera com os desastrosos casos de Sarah. 
Mas Christhianne no podia negar que tinha esperanas, assim como Vernica. Mas talvez fosse melhor ouvir as advertncias de seu crebro, e no alimentar sonhos impossveis. 
- E ento, como estou, Vernica? 
- Linda. - A sra. Hunter sorria. - Uma princesa! 
Na verdade, a prpria Christhianne achava que estava bonita. No tinha muitas roupas para sair, pois usava cala jeans a maior parte do tempo. No entanto, naquela ocasio,  colocara o que possua de melhor. 
O vestido que escolhera era preto e bsico, de uma espcie de veludo bem leve. O estilo era elegante, com linhas simples, cortado nos ombros com uma gola alta e redonda. Era curto, mas no demais. Justo, mas no muito. E, quando combinado com os sapatos pretos de saltos altos e os brincos certos, parecia muito sofisticado. 
- Guilherme vai ficar maluco! Espero que saiba o que est fazendo, minha cara. 
- O que quer dizer? 
Vernica achou graa da reao dela. - Querida, meu filho no  do tipo que se faz de cavalheiro com uma bela mulher por muito tempo. Sobretudo quando a dama em questo se arruma assim para ele. 
- Vernica, tenho vinte e seis anos - Christhianne observou com firmeza. - E j vivi o bastante. Sei muito bem o que estou fazendo. 
As sobrancelhas de Vernica arquearam-se. - Est bem... Mas, mesmo assim, tenha cuidado. No quero v-la magoada. Os rapazes podem ser muito egostas s vezes, dizendo a uma garota que a amam quando na verdade tudo o que querem  lev-la para a cama. 
Naquilo Vernica  tinha plena razo. 
- Sua me pensa que voc  um mulherengo incorrigvel. Os dentes de Guilherme cerraram-se, e sua mandbula ficou tensa. Com gestos lentos, ele serviu-se de mais vinho e observou a mulher que amava. 
Christhianne estava to bela e to desejvel... Ao apanh-la, notara logo seu esforo para agrad-lo com sua aparncia. Com certeza aquele tipo de atitude s era tomada por uma mulher para o homem que amava. 
Tal crena vinha do fato que ele mesmo correra na hora do almoo para comprar trajes novos. Conhecendo as prprias limitaes em termos de moda, pedira a um vendedor para auxili-lo. Queria algo que lhe casse bem e que tivesse estilo. Nunca se interessara tanto pela prpria aparncia antes, mas queria estar bonito para hristhianne. A bem da verdade, desejava que ela ficasse sem flego. 
E tinha conseguido, a princpio. Porm, logo a admirao dela se transformara em hesitao, o que demonstrava que Christhianne ainda no confiava nele. 
O comportamento dela era muito diferente do que fora na vspera. Christhianne fora to incrvel, to apaixonada, desinibida e, sim, confiante! 
Mas agora estava de volta ao primeiro estgio. E tudo por causa de Vernica. A primeira mulher que devia incentivar o relacionamento deles era justo aquela que o sabotava. Teria de trocar algumas palavras com a me quando voltasse para o lar, naquele dia ainda. Antes que ela fizesse mais algum estrago. 
- Mame deve achar isso por causa de meu pai - Guilherme ponderou, com cuidado. - Porm, est errada. No sou nenhum depravado. Apenas um homem que foi tolo por muito tempo e agora acordou para a realidade. 
- O que quer dizer? 
Guilherme a encarou e decidiu tomar seu destino nas mos, apenas usando a coragem e desistindo de qualquer subterfgio. 
- Eu ia esperar um pouco mais antes de lhe revelar isso, Christhianne, mas o fato  que estou apaixonado por voc. 
Por um instante lhe pareceu que Christhianne iria desmaiar. Seus dedos tremiam tanto que ela chegou a entornar um pouco de vinho sobre a impecvel toalha de linho branco. 
- No pode estar falando srio - ela retrucou, com o rosto plido e a voz insegura. 
- Estou, sim. Tenho pensado nisso desde segunda-feira, quando voc foi a meu escritrio, mas achei que era cedo demais para falar alguma coisa. E, se cometi um engano fazendo amor com voc com tanta paixo, ento me desculpe. Estava querendo faz-la sel. apaixonar por mim tambm. Mal.s, pelo que vejo no seu semblante, acho que falhei. 
- Oh, no! - balbuciou, sentindo a pulsao disparar. 
- No falhou, Guilherme, eu... eu amo voc! Tambm descobri isso na segunda-feira. Mas no ousava acreditar, nem alimentar esperanas de que poderia me amar tambm. Voc tem certeza disso, Guilherme? Quero dizer... 
- Tenho toda certeza. Farei qualquer coisa por voc. E quero dizer qualquer coisa mesmo! - Guilherme recordou as mentiras que contara e a forma como fingira com o beb. 
Bem, no fora falso em tudo, concedeu-se. Era fato que sentia algo por aquela criana. 
Uma batida em seu ombro fez com que soltasse a mo de Christhianne e erguesse os olhos, com impacincia. Um garom o aguardava, trazendo um telefone sem fio. 
- Desculpe-me por interromper seu jantar, sr. Hunter, mas  uma ligao para o senhor. Uma emergncia, a senhora disse. 
"Uma emergncia?!" Guilherme pegou o aparelho, lembrando-se de que a nica pessoa que sabia onde ele estava naquele momento era Vernica: 
- Guilherme Hunter - atendeu, apreensivo. 
- Oh, Guilherme! - Vernica exclamou. - Estou to feliz por t-lo achado! Tinha medo de que vocs tivessem ido a outro lugar. 
O estmago dele se contraiu ao notar que sua me estava em pnico. 
- O que aconteceu, mame? - perguntou, vendo Christhianne prender a respirao. 
Trocaram olhares enquanto ele ouvia a desesperada explicao de Vernica. Madelleine acordara s nove horas com o que parecia ser o comeo de uma gripe. Tossia, e sua temperatura era mais alta do que o normal. Vernica lhe dera a medicao que havia sido prescrita, mas s dez a menina comeara a respirar com dificuldade. 
Preocupada com a possibilidade de aquela ser uma reao alrgica  vacinao, a sra. Hunter chamou o mdico, que sugeriu-lhe que levasse a menina para o hospital mais prximo. Depois do primeiro exame na emergncia, haviam levado Madelleine direto para a Unidade de Tratamento Intensivo. 
- Em que hospital? - Guilherme perguntou, incapaz de esconder a preocupao. 
Santo Deus! Se algo acontecesse quela menina, Christhianne iria morrer! 
- Royal North Shore. 
- Estaremos a o mais rpido que pudermos. - Desligou e se levantava de um salto. 
Avistou Christhianne j de p, segurando a bolsa. Guilherme tomou-a pelo cotovelo, guiando-a entre as mesas do salo. - Temos de ir - disse ao garom, no caminho. - Emergncia de famlia. Diga para o gerente me mandar a conta. Ele sabe onde me encontrar... 
-  Madelleine, no ? - Christhianne perguntou, quando saram do estabelecimento. 
- Minha filha est doente? -Sim. 
- O que ? 
- No sei. Mame disse que ela tossia e mostrava problemas para respirar. Talvez seja asma ou algo do gnero. 
- Santo Cristo! 
Guilherme achou melhor acalmar Christhianne, por isso  abraou-a com ternura: 
- Ora, no entre em pnico, meu amor... Mame a levou para um hospital muito bom. Madelleine ficar bem. 
- Como voc pode afirmar isso? E se ela morrer?! 
- Madelleine no vai morrer - assegurou, conduzindo-a para o automvel. 

CAPTULO 26 

Foi um pesadelo dirigir at o hospital, com Christhianne branca como uma folha de papel a seu lado. At porque a preocupao dele no era menor. 
Madelleine era to pequena e preciosa para todos eles...  Decerto o Senhor cuidaria dela. Sem dvida... 
Quando se aproximavam do Royal North Shore, Guilherme comeou a rezar, pela primeira vez em anos. Na verdade, era como se tentasse fazer uma barganha. 
"Poupe essa criana inocente, Deus, e eu... eu... " 
"Eu o qu?", perguntou-se, desgostoso; Seria um bom rapaz, no futuro? Iria  igreja todos os domingos? Diria a Christhianne que Gunter Parsons no tinha feito vasectomia, e que usara essa mentira para se assumir como pai de Madelleine, e assim parecer melhor aos olhos de Christhianne? 
Qual seria o objetivo de tal confisso? Ela deixaria de am-lo, e no poderia suportar aquilo. 
Mas um relacionamento no podia ser construdo sobre falsidade ou truques. 
Cus... 
Vernica Hunter os esperava na entrada principal, tambm plida. Seus olhos estavam nublados pela preocupao quando se dirigiu a Christhianne: 
- Sinto-me culpada, querida. Acho que Madelleine acordou algum tempo antes de eu conseguir ouvi-la. Estava falando ao telefone, por isso fiquei longe de nossa garotinha... 
- No se culpe por nada - Christhianne disse, com gentileza. - Isso no tem sentido. 
- Onde ela est, mame? 
- Vou lev-los at l, filho. Vernica conduziu-os pelos corredores. 
Em minutos, chegaram a um quarto onde a linda Madelleine jazia no que parecia uma tenda de oxignio. 
Uma coisinha to pequena no meio de tantas parafernlias mdicas... 
Christhianne comeou a chorar, e Guilherme abraou-a, sentindo o prprio corao apertar-se. 
A enfermeira, parada ao lado do leito, adiantou-se para receber o grupo. 
- Vocs so os pais? 
- Esta  a tutora de Madelleine. - Guilherme acenou com a cabea na direo de Christhianne. - A me dela morreu, mas eu sou o pai - emendou, concluindo que no era o momento certo para nenhuma confisso. 
- E eu, a av - Vernica completou. - Fui eu quem a trouxe. 
- Graas a Deus a senhora fez isso - a enfermeira comentou. - A menina tem um tipo novo de bronquite, que ataca muito rpido. Ela melhorou agora, e j consegue respirar com mais facilidade, mas esta vai ser uma noite bastante longa. O doutor deve voltar logo para v-la. Enquanto isso, tentem no se preocupar.  bom que a garota no seja alrgica a penicilina. No que isso mate o vrus, mas  o melhor antibitico para qualquer infeco. E a pneuumonia pode ser um problema, nesses casos. Sobretudo em pacientes to jovens. 
- Como vocs sabem que Madelleine no  alrgica a penicilina? - Guilherme quis saber. 
A enfermeira pareceu confusa. 
- Est em sua ficha. Algum deve ter dado essa informao quando a menina deu entrada no hospital. 
Todos olharam para Vernica, que de imediato se ps na defensiva. 
- Eu no disse que tinha certeza. Apenas falei que o pai no era alrgico, assim como o resto da famlia. 
- Mas O que  isso, mame?! E se eu no for o pai de Madelleine? Ainda h margem a dvidas, voc sabe muito bem. 
Christhianne ergueu a cabea para encar-lo. 
- Mas Guilherme, voc deve ser. Quem mais poderia? 
- No se preocupem - a enfermeira interveio, com habilidade: - Nenhum antibitico foi administrado ainda. Vamos esperar pelos testes de sangue. Olhem, eu vou retirar aquela informao do relatrio, mas sugiro que vocs contem ao doutor todo o histrico mdico do beb. Agora, tenho de voltar para minha paciente. 
Ela voltou para junto da cama, deixando Guilherme tendo de dar satisfao s duas mulheres. 
- Eu apenas falei que no podemos ter certeza absoluta - ele murmurou. - No at que chegue o resultado do teste. 
- Mas voc pode, Guilherme - Vernica insistiu. - Tenho uma novidade que pe seu parentesco com Madelleine acima de qualquer suspeita. Aquele telefonema de que lhes falei antes era de Joanna. Eu queria explicar sobre Madelleine, e por que no a havia convidado de novo para jantar. De qualquer forma, Joanna comeou a dizer o quanto gostaria de ter tido um filho, mas que Gunter no gostava de crianas, e tinha feito uma daquelas operaes... uma vis... ves... 
- Uma vasectomia - Guilherme completou, esperando no soar to atnito quanto se sentia. 
- Sim, isso mesmo. Entende agora, meu filho? Gunter no tinha a menor possibilidade de ser o pai de Madelleine. 
Ele devia estar parecendo estranho, pois Christhianne lhe perguntou se se sentia bem. 
Depois de piscar vrias vezes, Guilherme conseguiu recuperar o controle para fit-la. 
- A realidade o atingiu em cheio, no ? - Christhianne indagou, muito suave, com seus belos olhos negros brilhando pelas lgrimas. - Agora que sabe que aquela  sua filha, deitada naquele quarto. 
Ah, se Christhianne apenas soubesse! 
- Sim, querida - conseguiu sussurrar, virando-se para observar pelo vidro a frgil menina. 
Antes Guilherme pensava que se importava. No entanto, agora que sabia que ela era mesmo sua filha, no conseguia conter o turbilho de sentimentos que o dominava. 
Seu nvel de angstia e preocupao subiu drasticamente. 
Uma dor lhe oprimia o peito, fazendo-o tremer. 
Faria qualquer coisa na face da terra para ter aquela criana de volta a sua casa, segura e curada. At mesmo contaria toda a verdade a Christhianne, se  que aquilo faria alguma diferena. 
Mas quem poderia saber? Talvez fizesse! 
- Eu... preciso falar com voc, Christhianne. Mame, pode nos deixar a ss por alguns minutos? 
- Vou me sentar ao lado de Madelleine. Quero ficar com minha neta. 
- O que , Guilherme? - Christhianne se voltou para ele, logo que se viram a ss. 
- Tenho algo a lhe dizer. E  muito importante. 
- O qu? 
- Eu menti para voc. 
De imediato, Christhianne levou a mo  garganta. -  Mentiu?   Voc... quer... voc no me ama? 
- No  isso! Claro que te amo! Te amo tanto que menti quanto  vasectomia de Gunter. 
- Mas, Guilherme... isso no faz sentido. Estou muito confusa. 
- Quando lhe disse que Gunter tinha feito aquela operao, foi porque acreditava que ele era o pai. Havia acabado de perceber o quanto te amava, e num impulso decidi usar qualquer meio a minha disposio para ganhar seu amor. Inventei aquela histria sobre a vasectomia e disse que Madelleine era minha porque conclu que ser pai da menina me ajudaria a conquist-la. 
- Mentiu quando disse que Madelleine era sua filha? 
-Sim. 
- Ento, todo aquele comportamento de bom pai era apenas representao? 
- Sim... no... bem... de certa forma. - Guilherme suspirou. - Eu podia amenizar minha culpa e dizer que aos poucos fui me afeioando  pequena, o que  verdade, mas ainda assim, foi um erro de minha parte. 
- Perigoso e ardiloso.  - Christhianne meneou a cabea e olhou para o cho. - Por que est me dizendo isso agora? Voc no precisava. 
Guilherme encolheu os ombros. Sentia-se indefeso e sem esperana. 
- Tive essa idia loua de que talvez Deus estivesse me punindo. De que eu pudesse fazer Madelleine sarar se lhe contasse tudo. E houve aquela voz em minha conscincia que me falou que um relacionamento no pode ser baseado em mentiras e truques. No quero jamais feri-la ou mago-la como meu pai fez com minha me. Quero que voc confie em mim e me respeite, Christhianne. E pretendo que fiquemos juntos. No apenas por algum tempo, mas para o resto de nossas vidas. 
Christhianne tornou a encar-lo, por um longo momento, e em seguida se tornou to maravilhosa e terna que quase fez Guilherme desmoronar. Enlaou-o num abrao, que traduzia ao mesmo tempo amor e confiana. 
Garantiu que Madelleine ficaria bem, e que ela confiava nele e o respeitava. 
E que, sim, tambm queria ficar junto dele at o fim de seus dias. 


CAPTULO 27 

Christhianne estava sentada na sala de espera com uma caneca de caf entre os dedos. 
Guilherme se encontrava a seu lado, com os cotovelos nos joelhos e a cabea entre as mos. Vernica partira havia algum tempo, para repousar. 
- No queremos que voc tambm fique doente, mame 
- Guilherme dissera, aps os trs terem passado a noite em claro ao lado de Madelleine. 
Faltava pouco para o meio-dia, e eles saram do dormitrio para comer alguma coisa. 
- Guilherme, pare de se torturar - Christhianne pediu, embora compreendesse o que ele estava passando. Ou talvez no. Ela amava Madelleine, mas no era sua verdadeira me. 
Ele ergueu a cabea, e Christhianne se assustou com sua aparncia.  
- Acho que  melhor que voc tambm v para casa, Guilherme. Est precisando dormir um pouco. 
- Santo Deus, no! No posso dormir, Christhianne. No at saber que Madelleine est fora de perigo. 
A intensidade dos sentimentos dele espantou Christhianne. 
Ningum poderia duvidar que Guilherme amava Madelleine. 
Ela tambm no tinha dvidas de que Guilherme a amava. Mal podia acreditar no que ele fizera para conquistar seu corao. A ironia era que a mentira que resolvera lhe contar se tornara verdade! 
A vida podia ser perversa. Afinal de contas, quem iria acreditar que Christhianne acabaria se apaixonando pelo pai da filha de Sarah, um homem que pensara desprezar? 
Por outro lado, talvez seu julgamento no estivesse certo. O destino no seria, nesse caso, perverso. Aquilo tudo devia estar escrito em suas pginas... 
Christhianne estava perdida em pensamentos quando a enfermeira entrou na sala, com um sorriso. 
- Boas notcias - anunciou. - Os pulmes da menina esto muito melhores. Sua temperatura abaixou, e ela est acordada. Parece to bem que j se queixa de fome. Algum de vocs gostaria de lhe dar a mamadeira? 
Foi uma verdadeira corrida para ver quem chegava antes ao quarto, mas Guilherme cruzou a linha primeiro. 
No que Christhianne se incomodasse. Sentia muito prazer em ver aquele homem enorme agindo com to absoluta ternura com sua filhinha, tratando-a como se fosse a coisa mais preciosa em todo o mundo.
Ele ergueu a cabea, e seus olhares se encontraram. 
Christhianne  sorriu. 
- Vou telefonar para Vernica. Tudo bem? 
- Pode fazer isso, querida? 
-  claro, meu amor - tranqilizou-o, saindo do quarto. 
No automvel, ao retornar do hospital, Guilherme resolveu colocar seus desejos s claras: - Acho que devemos nos casar, Christhianne - falou, num impulso. E ento, sem lhe dar tempo para respirar, emendou: - E creio que devemos tentar dar um irmo ou irm para Madelleine logo, logo. 
Christhianne ficou sentada ali, absolutamente sem fala. - Percebo agora que perdi muita coisa no que diz respeito a Madelleine - Guilherme continuava, com seriedade.  Quero acompanhar tudo desta vez, Christhianne, desde o comeo. Estar presente quando nosso beb nascer, ajudar a escolher o nome. Fazer parte de cada detalhe, por mais simples que seja. E na outra, e na outra... 
Christhianne engoliu em seco.
- E em quantas vezes voc est pensando, meu amor? 
Guilherme esboou um largo sorriso. 
- No me diga que est com medo! No a minha Christhianne... Voc  a mulher mais forte e corajosa  que j encontrei. Jamais esquecerei a forma como me encarou quando entrou em meu escritrio. E depois, quando voltei para casa, naquela noite. Eu no a intimidei nem um pouco, no ? 
"Se ele apenas soubesse... ", Christhianne pensou. 
- Posso dizer alguma coisa sobre seus planos? - Os olhos dela faiscavam. 
- Que tal "sim, sim e sim"? 
- Voc est me encurralando, como sempre. Primeiro na cama, e agora quer me empurrar para um casamento e filhos. 
- Esse  meu jogo, querida. Vamos l, o que me diz? 
- No posso raciocinar direito quando voc joga sujo comigo. 
Guilherme gargalhou. 
- Isso quer dizer que voc concorda? Casamento e filhos? 
-  melhor que sim - Christhianne concedeu. - S Deus sabe que artimanhas voc usaria para me fazer mudar de opinio se eu dissesse "no". Mas oque sua me vai dizer? 
- Acredito que vai ficar numa felicidade de no caber em si. 
- No acredito nisso! - Vernica exclamou ao ouvir as notcias. - Vocs mal podiam se suportar, na semana passada: Oh! Agora eu entendo... Esto fazendo isso apenas por Madelleine, no ? 
Guilherme abraou Christhianne. 
- Mame, acha mesmo que eu me casaria por qualquer outro motivo que no fosse o amor? 
- Bem... isso tudo  muito repentino para mim, meu filho, tenho de admitir. 
- Eu amo Christhianne, me. E j faz algum tempo. E Christhianne me ama tambm... No , querida? 
- Do fundo do corao, e com uma loucura surpreendente e cheia de energia. 
Vernica no parecia to radiante quanto previram que ela ficaria. 
- Mas... onde vocs vo viver? - a senhora perguntou um pouco depois. 
Christhianne no deu a Guilherme a chance de dizer uma nica palavra. 
- Aqui, Vernica. Se voc for gentil o bastante para nos convidar. 
- Era nisso que eu estava pensando, meu bem! - Vernica assegurou, tentando conter sua satisfao. 
- Vejo que vocs duas j esto se entendendo muito bem - Guilherme murmurou, feliz. 
Na tera-feira seguinte, Guilherme saiu mais cedo do escritrio, encontrou-se com Christhianne em sua casa, e os dois foram at o hospital, para pegar Madelleine. 
Quando voltaram para a manso, Vernica saiu at o porto para encontr-los, aliviada e sorridente, apanhando na mesma hora a neta dos braos de Guilherme. Seus brilhantes olhos azuis fixaram-se no adorvel rostinho da menina antes que ela os levantasse para encarar o filho. 
- Enquanto vocs estavam fora, o mdico ligou. - a senhora contou, com uma expresso circunspecta. - Ele disse que contatou o patologista e pediu que apressassem o teste por causa da doena de Madelleine. De qualquer forma, o resultado chegou esta tarde. 
Guilherme suspendeu a respirao por um momento. Ser que o resultado demonstraria algo diferente do que esperava? Seria o destino injusto a ponto de revelar que a pequena Madelleine, que j conquistara seu corao de forma to completa, na verdade no era carne de sua carne, sangue de seu sangue? 
- Vou v-lo depois que acomodarmos Madelleine, mame - resolveu protelar, sentindo uma ponta de apreenso no ntimo. 
- No precisa ver nada, seu tolo. Ele j me contou o resultado. Quer saber de uma coisa?  Vernica meneou a cabea, com desdm. - Acho que eu devia fazer apostas com mais freqncia. Teria feito uma fortuna, neste caso! E nem precisaramos do tal teste. Claro que se voc no tivesse sido to teimoso perceberia desde o primeiro dia que Madelleine herdou todos os seus genes. O beb tem at mesmo a marca de nascena dos Hunter! No entanto, vocs, homens, sempre pensam que sabem de tudo. 
- Que marca de nascena, mame? - Guilherme, por fim, sorriu, aliviado. 
- Aquela atrs da orelha. Voc e Mark tm sinais idnticos. Henry tambm tinha. 
- Ns temos? 
- Sim. Nunca notou, Guilherme? 
- No posso ver atrs de minhas orelhas, mezinha querida. 
Alm disso, jamais tive o hbito de inspecionar as de Mark. 
- Bem, est ali, pode acreditar. As mes vem essas coisas porque esto sempre de olho em seus bebs. 
Guilherme no pde se conter, e comeou a gargalhar. 
Seu olhar encontrou o de Christhianne, mas ela no estava rindo. Lgrimas da mais absoluta felicidade corriam por suas faces. 
- Vamos l, Madelleine, meu amorzinho. - Vernica voltou-se com a criana, caminhando para a casa.- Devemos sair do sol, pois acho que seus pais tm de se beijar, neste minuto. 



EPLOGO 

 

Christhianne ajoelhou-se e ajeitou as rosas vermelhas no vaso, concluindo que ficavam belas contra o mrmore cinzento do tmulo. 
- Ol, Sarah - disse, enquanto as arrumava. - Aqui estou eu de novo, para lhe contar as novidades. So todas boas, no se preocupe. Madelleine comeou a ir ao jardim-de-infncia. So apenas dois dias por semana. No comeo, ela no queria ir, pois recusava-se a se separar de seus preciosos irmozinhos.  igualzinha a voc: teimosa e chorona. Fiquei apavorada na primeira manh, quando ela comeou a gritar, e quase lhe disse que no precisaria ir. Mas Guilherme insistiu, e  claro que estava certo. Agora nossa menina est adorando as outras crianas. 
Com as flores de acordo com seu gosto, Christhianne sentou-se da forma mais confortvel possvel no gramado fofo, ao lado do jazigo, estendendo as pernas. 
- Tenho tambm algumas novidades especiais para voc, minha amiga. Estou grvida de novo... J completei o quarto ms. Guilherme ficou encantado. Poucos homens agiriam assim. Afinal de contas, Steve mal saiu das fraldas. Mas ele adora ser pai. S Deus sabe como isso aconteceu... A gravidez, quero dizer. Mas, como ambas sabemos, aquele homem parece ter um talento fantstico para fazer as coisas acontecerem. 
Christhianne riu, suave. 
- Na verdade, a cada dia que passa Guilherme me surpreende ainda mais. Sabia que ns vamos  igreja todos os domingos? Ora, diga, Sarah, pode me imaginar numa igreja? 
Christhianne fitou o cu, e ento voltou a sorrir. 
- Para ser honesta, estou achando tudo isso timo.  muito bom para as crianas. Madelleine adora, embora eu no saiba ao certo se ela gosta da missa ou de se vestir toda bonita. Chega a tocar meu corao, querida. Aquela menina vai ser urna moa belssima, assim como a me foi. Guilherme vai ter muito trabalho para manter os garotos afastados. Vernica brinca com ele todo o tempo sobre isso, mas meu marido garante que est preparado para a misso. 
Ela continuou aps uma breve pausa: 
- Acredite, Sarah, nunca vi um homem adorar tanto uma filha. Mas,  ainda assim, ele no a mima demais.  bastante firme, mas a ama de maneira incondicional. Eu o amo tambm, mais do que acreditava ser capaz. Contudo,  to bom ter um companheiro para me apoiar vida afora... Ns duas crescemos sem nenhuma segurana, no ? E, pode acreditar, se existe um homem que exala proteo, esse  Guilherme. Ele tambm tem vrias outras qualidades. 
Christhianne observou seu adorado marido aproximar-se pelo gramado. 
Parecia mais sexy do que nunca. No era de se espantar que passara a maior parte dos ltimos anos grvida! 
A paternidade com certeza combinava com Guilherme, que parecia muitssimo  vontade e contente, carregando em seu colo o pequeno Steve, de apenas dez meses, enquanto o outro menino, Paul, de dois anos, se segurava em sua perna. A seu lado, vinha Madelleine, com trs anos, caminhando cheia do mais completo orgulho filial.  
Fora ele quem decidira levar os trs para uma caminhada, o que dera a Christhianne a chance de falar com toda a privacidade com Sarah. Algo que ela gostava de fazer de tempos em tempos. 
- De qualquer modo, minha querida amiga - Christhianne continuou com o corao se apertando - espero que ache que estou fazendo um bom trabalho com Madelleine. Tambm espero que consiga, um dia, me perdoar por t-la abandonado antes de ela nascer. Voc sabe, tudo poderia ser diferente se tivesse me dito que estava grvida, Sarah. No entanto, acho que deve ter havido um propsito mais alto para tudo isso que aconteceu. 
Levantou-se, sorrindo com carinho para sua famlia. 
- So lindos, no so? - sussurrou, com o peito transbordando de amor pelos quatro. - Oh, tem uma ltima coisa! O ultra-som demonstrou que meu beb ser uma garota, desta vez. Quando contei a  Guilherme, ele sugeriu que ns lhe dssemos o nome de Sarah. Achei uma idia adorvel... Espero que voc no se importe. 
- No ntimo, Christhianne tinha certeza de que a amiga no se incomodaria. 
- J contou todos os segredos para sua amiguinha? - Guilherme perguntou, com seu jeito brincalho. 
- Pode apostar que sim. 
- Nesse caso,  hora de voltarmos para a manso. Steve est precisando de uma fralda nova e de uma mamadeira. E Paul acabou de me dizer que quer um cachorro. Imagino que possamos cuidar disso depois do almoo. 
- No, querido! Um cachorro no... - Christhianne gemeu. 
- Sim, um cachorro, mame - Paul insistiu. - E dos grandes! 
- No, dos grandes no! 
- Sim, dos grandes - Madelleine se intrometeu, apoiando o irmo. 
- E por acaso vai cuidar dele, senhorita? - Christhianne ps as mos na cintura: 
- Sim - a menina garantiu, solene. - Eu prometo. 
Naquela tarde, um cachorro juntou-se  famlia Hunter. Um enorme co negro, chamado Bill. No era to bonito quanto o resto dos membros da casa, mas sem dvida nenhuma tambm era muito amado. 
J que amor era o que no faltava entre toda aquela gente feliz. 


FIM




MlRANDA LEE  australiana e vive perto de Sdnei. Nascida e criada no campo, teve uma slida educao e chegou a iniciar carreira na msica clssica antes de trabalhar com computadores. De seu casamento feliz nasceram trs filhas; depois disso, ela comeou a escrever. Gosta de criar histrias que paream reais, modernas, fluentes e sensuais. Gosta tambm de ler grandes sagas e montar quebra-cabeas, alm de jogar cartas e ir ao cinema. 


